Quando eu era pequena acreditava que com 40 anos eu seria grande, muito, grande, grande de verdade.
Hoje, com 40, me sinto ainda pequena,
muito pequena, pequena de verdade.
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Já fui sim menina-caipira.
Numa falta de palavras, vi minha alma falando contigo mais uma vez.
França. Paris.
de tanto escolher, polir, cuidar,
Tanta gente cartesiana.
Enquanto meus pés desenhavam círculos em suas coxas eu falava das coisas mais bonitas que sabia. Falava sobre o amor, e sobre como ele envolvia todos os sentidos a uma pitada desconhecida e bela. Falava também sobre as espirais que faria em teu corpo antes que o dia terminasse, e sobre como eu queria que aquele instante se repetisse mais uma vez, e outra, e ainda mais uma. Falei que maior que o colorido do instante era minha vontade da eternidade de você. Falei. E na mesma hora senti a vertigem do querer.
Não soube disfarçar o quão pouco bastava para me fazer feliz.
A verdade é que tem horas que me sinto tão frágil que preciso partir.
Foi assim. Saí de cena sem nem um olhar prá trás.
Tive medo de ver meus sentimentos derramados pelos lençóis.
sou feita de sonhos interrompidos,
detalhes despercebidos,
amores mal resolvidos...
Martha Medeiros
Ali, na mesinha escondida no fundo do bar, esteve o para sempre.
Esse vício em contos de fada que a gente tem. Deixei minha casa cheirando a bolo.
E como me esforcei para acontecer.
Mas essas tardes tinham sempre uma alegria subjugada e olhares que pouco se cruzavam.
É.
Faltou açúcar. Errei na mão.
E não canso de pensar em como o Henfil traduziu lindamente essa falta, em uma carta à sua mãe :
Mãe,
Não suporto mais a saudade sufocante do meu irmão Betinho. (...) Perdoa, mas biscoito de farinha só é gostoso se mastigado olhando nos olhos do irmão que sente na mesma hora a mesma delícia.
A bênção de um dos seus filhos,
Henfil - 11/04/1979
Mas, como o que me “toca” costuma vir a mim através dos “enganos”, acho então prudente (e urgente) comprar um livro de receitas.
Dentro de mim mora uma menininha mal resolvida que poucos sabem.
Já fui sim menina-caipira.
Nos idos dos anos 70 morei numa cidadezinha rural, de ruas tortas, de terra batida e casinhas de madeira com seus enormes quintais. Eu tinha pouco mais de cinco anos, e é uma das minhas lembranças mais antigas.
Lembro do piano da escola, dos enormes besouros, do poço no fundo de casa, da Igrejinha, do capeletti in brodo, do frio pungente e dos eucaliptos gigantes.
Com eles papai fazia celulose.
E eu fazia poesia.
Sem nem saber.
É que ficava flutuando o olhar sobre aquelas toras de madeira castanha por horas sem fim. Desta maneira tocava com os olhos o que para mim era a felicidade : um tanto de verde, de vento, e o perfume que dava significado ao ar.
Hoje, a despeito de ser (estar) urbana e cosmopolita, vejo eucaliptos daqui da janela de casa, de onde escrevo. E, de alguma forma, estão sempre em meus caminhos.
Cuido para que não sejam só memórias...
Ontem, quando comecei a escrever o blog, eram uma pergunta.
Hoje são só deslumbramento...
Tudo aqui é verdade. Pelo menos é a minha verdade.
É minha maneira ritmada de perceber a vida.
Quero ver “através”, quero desconstruir o óbvio,
Quero celebrar a vida.
E depois... depois quero sentir os eucaliptos.
“Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.”
- A.Cícero -
E, como o “para sempre” se assusta fácil, tenho fotografado para nada perder...