Prendi a respiração e fiquei em silêncio. Nenhum ruído.Tudo calmo.Sim, parece que lá dentro as coisas começaram a fazer sentido. E, o melhor, sem que eu precisasse me preparar para isso.Não houve planejamento, intenção ou esforço.Aconteceu. Foi simples, adulto, sereno.E agora minhas manhãs já não são as mesmas. Acordo com uma alegria nova, um friozinho na barriga e um punhado de planos.O tempo me atravessa, e pela primeira vez sinto-me alcançada. Ouço Vivaldi e tenho urgências, sobretudo uma : ser feliz.Talvez o amor seja assim.Porque onde quer que alcance minha visão, vejo a ti.
É estranho, mas meus olhos não eram famintos.Nem medrosos, ou tampouco tímidos.Não que eu não te desejasse, ou que não tivesse receio de que você não me quisesse, ou ainda que eu não corasse enquanto você fitava meus olhos que tudo revelam... Mas é que sempre que te vejo quero mais do que só o instante.Então vivo com essa vontade inconformada de você.E em cada curva dessa história tenho a impressão de que vou mais só... embora sinta que só eu sei derreter tua neve...Acho que é por isso que te espero.E enquanto esse tempo não chega, sigo caminhando.Sigo porque todo amor é caminho..
Eu tinha cada gesto calculado. Mentalmente tinha deixado aquela casa uma porção de vezes. Sabia de cor os caminhos que percorreria pela última vez, as coisas que iriam comigo, e até cada canto meu que iria doer.Porque de vez em quando a gente parte para sempre.De vez em quando é preciso.Hoje sou um pouco também do que não tive.Sou um pouco também do que perdi.Sinto-me incrivelmente cansada, mas em paz.As mágoas ?Deixei do outro lado do rio..
Dói sim.Afinal, equilibrava-me entre febres e frios.Algumas coisas não podem ser mudadas. Nunca.Dói sim. É natural.Mas impressionava-me com a duração daquela dor.Não eram choros sem proporção, músicas tristes e remedinhos para dormir.Era um instante.Desses de fechar os olhos e fazer um pequeno balanço.Prá muita gente pode ser besteira, mas é que sou feita de alegrias.E na dor, eu não sei...Não sei ficar..
Não quero mais chorar.Não quero mais sofrer pelos mesmos erros.Quero decidir a dor que vai e a que permanece.Quero estar só.Quem sabe assim retomo a estrada.Não quero mais continuar me afogando.Não quero mais desacreditar.Quero o novo, mesmo que seja um medo novo, ou uma preocupação nova.Quero estar só.Porque só assim acordo tão livre que todas as paredes ao meu redor se vão...
Se a felicidade é mesmo feita de pequenos instantes, alinhavados uns aos outros, como dissemos, e se é matéria rara, então ando com sorte, porque dia desses, a despeito da cidade lotada, do trânsito, das buzinas, da fumaça, dos motoboys enlouquecidos, e do relógio, pude viver um desses instantes.
Ali, em meio ao caos da cidade grande, com tuas mãos em meu colo e Fernanda Porto cantando “Sentado a Beira do Caminho”, vivi uma dessas alegrias simples, que não precisam de rebuscamentos, declarações ou flores. Bastaram seus olhos, que alternavam entre abertos e fechados, como se assim pudessem administrar melhor o que era sonho e o que era realidade.
Porque o bem querer é bonito assim, quando não precisa de legenda, quando a gente sabe que mesmo podendo durar só aquele instante, vale. Vale pela paz do momento, e porque multiplica em mim a fé nos pequenos tesouros.
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Têm dias que acordo achando que fomos mesmo feitos um para o outro, que daríamos conta desse nosso amor, e que ainda teríamos todo o tempo do mundo para sermos felizes. Acho tudo isso, embora saiba que há esse enorme vale entre nós, que seria preciso outro tempo, outro cenário, outras condições para que tudo acontecesse.
Noutros dias acordo achando que o melhor mesmo seria te esquecer, e faço tudo para me distrair e fingir que não existes. Mesmo assim não te esqueço. Talvez porque seja impossível esquecê-lo, ou, principalmente, porque não desejas que eu o faça, assim como eu também não.
Então, enquanto não sei o que fazer, continuo a rotina dos dias.
Resta-me apenas imaginar quem anda passeando por tua solidão...
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O pensamento em suspensão...
e eu cansada de fazer tantas perguntas e de imaginar mil possíveis respostas.
Estava tudo ali, mas eu me enganava completamente.
Não era preciso tanta explicação !
A vida lá fora flertando descaradamente comigo, e eu ocupada com tantos pensamentos.
Às vezes é preciso relaxar, diminuir o ritmo, parar de querer controlar tudo ao redor.
Deixar rolar. Descansar os sentimentos.
Errar também é bonito.
Afinal, o momento de certeza absoluta nunca chega.
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Foi minha primeira noite com elas.Tão simples, ali, dentro da bolsa. Sem um chaveiro charmoso ou qualquer outra coisa que as diferenciasse de tantas outras que já tive.Mas eram as chaves mais importantes da minha vida. E, engraçado, já segurei chaves importantes : as do primeiro armário na escola, do primeiro carro, do primeiro apartamento próprio, do cofre...Mas são estas as que mudam a minha vida. Para sempre.Amanhã bem cedo vou, com elas, abrir a porta da minha nova casa. Ainda vazia, sem um móvel sequer, mas paradoxalmente a casa mais habitada que já tive. Lá vão morar minhas verdades e meus sonhos. Todos. Minha doce Bebela, e eu..
Você entrava no quarto que já foi nosso,e sentava na cama para me ver dormir.Seus olhos sabiam que eu não estava lá.Até mesmo aquele vazio era necessário.Eu fingia dormir só para não ter que falar nada.O que mais poderia ser dito ?Porque naqueles instantes meus olhos não eram mais os mesmos.Fomos solidões que nunca se viram.E naquelas noites você já me parecia um estranho.Torço para que seja feliz..