quinta-feira, 6 de março de 2014
não há colo que baste...
para Claudia...
E,
de repente, havia muitos mundos entre nós.
E uma
estrada de sentimentos complexos.
Parece
bobagem, mas numa relação sedimentada nas diferenças, palavras mínimas criam
distâncias homéricas.
Num
círculo familiar denso e complicado, nos deixamos ficar mais frágeis do que
gostaríamos.
Às
vezes, e por causa disso, sentia um cansaço de ser.
Numa
historia de explosões que se esvaziam sozinhas, não há vitimas nem algozes.
Todos
perdem.
Muitas
vezes só tardiamente descobre-se que não havia competição. Não
havia corrida. Nunca houve um rival.
Tudo
o que se queria era o oposto dessa solidão.
Os
anos que levei para me olhar com olhos isentos e imparciais foram cobrados com
cicatrizes, eu sei, mas a gente sempre encontra uma fenda na dor, e, se tem uma
coisa que sei fazer, é florir.
Aceito
e transformo, mas confesso, queria fronteiras mais permeáveis, porque como diz uma amiga minha, para algumas faltas não há colo que baste. Não, não há.
Solange Maia
quarta-feira, 5 de março de 2014
terça-feira, 4 de março de 2014
saudade é o upgrade do desejo...
Era aniversário dele, e
estávamos chegando de Inverness. Eu tinha escolhido um roteiro sobre trilhos, atravessando
fronteiras e fusos horários, conectando as paisagens deslumbrantes ao nosso
desejo. Ambos nos faziam perder o fôlego. Havia tempo que queríamos estar
ali, não necessariamente em Inverness ou no trem, mas em qualquer lugar onde
fossemos só nós dois.
Assim que pôde ele fez como
sempre fazia, só que mais livremente. Malicioso atravessou a cabine
com os olhos e foi logo tirando a camisa. Era quase como se me tocasse. Sem nem pensar tirei a
camisa também. Na gente os espaços se encaixavam com naturalidade... era tanta
vontade, tanta fome que qualquer gesto solto causava uma infinidade de
palpitações. Sem mise-em-scéne, sem nada, éramos sempre reféns ofegantes de nós
mesmos.
A superfície gelada me fez perceber a urgência dos nossos corpos, senti
o peso dele me fazendo grudar na janela, me fazendo tremer de vontade. O mundo passava
lá fora, o vagão, as pessoas, a Escócia, a neve, os vales, as florestas, a cidade
antiga, as ovelhas, mas nada, nada importava mais.
Éramos só bocas, beijos,
pele, nuca, sexo. Éramos pleno verão.
O trem parou. A viagem chegou
ao fim.
E algumas vezes parecia ser só isso.
Então eu pensava em
fugir.
Mas
desistia sempre.
De desistir.
Porque ficava
travada na garganta a palavra saudade.
Solange Maia
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
quando a memória me devolve alguns presentes...
Lembro-me de ter sido levada,
numa manhã gelada, ao andar de cima daquela casa de vidro onde ficava o escritório dele. Uma enorme sala vazia, com teto abobadado
e sem paredes. Através das enormes janelas a luz entrava enviesada formando
lindos fachos luminosos que riscavam o ar e aqueciam o assoalho de madeira.
Ele pediu que eu deitasse no único
tapete que havia ali, e que fechasse os olhos. Deitou ao meu lado. Uma música linda foi
invadindo o ambiente, era um som acústico e acolhedor, e ficamos assim, imóveis, por
uns dez minutos.
Muito próximo a mim, mas sem
me tocar, ele pediu que me entregasse aos meus sentidos mais refinados até que minha percepção estivesse aguçada a ponto de sentir cada músculo meu que se movesse, cada nota que entrasse em sintonia com o meu corpo,
com a minha respiração, com a nossa pulsação... Aquilo criava um diálogo entre
os nossos sentidos, uma intimidade poucas vezes experimentada. Até que ele me tocou delicadamente,
entrelaçando as mãos nas minhas, e falou alguma coisa bonita.
O que vivemos ali, a atmosfera
e o despertar sensorial, nos elevaram a outro patamar.
Engraçado como muitas vezes são as atitudes que permanecem, porque as palavras, as palavras voam...
Engraçado como muitas vezes são as atitudes que permanecem, porque as palavras, as palavras voam...
Pensei
nas relações que acabam, e no que nossas memórias, tão equivocadamente, levam
com elas. A
lembrança daquela manhã foi um presente que me permiti.
Muita
coisa só faz sentido depois.
E aquele
instante, tenho que admitir, foi incrivelmente vivido.
E foi com ele.
E foi com ele.
Foi sim.
Solange Maia
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
sem anestesia...
para minha prima Fernanda, com amor...
O problema
não é a dor.
O que machuca
é não achar sentido para tanta coisa.
É que
algumas memórias nos atiram mesmo pra fora da estrada. Muita vida
passou, e de vez em quando o ar ainda parece inconstante e rarefeito.
Seria
ingenuidade acreditar que permaneceríamos impunes.
A gente
vai crescendo e percebe quanta tolice havia em nossos desejos de querer
construir mundos que durassem para sempre. Não duram. Os mundos não.
A gente
dura.
Porque a despeito de tudo a vida nos
invade com toda sua intensidade, por mais que tentemos nos esconder sob as
cobertas, às vezes. E graças a Deus. Porque
só assim temos certeza que lá dentro, em algum canto, a gente ainda preserva
aquela menina que comia no prato colorido da casa da Avó e que tinha tantas
certezas e tantos sentimentos.
Os sabores são outros, eu sei. As sensações
também.
Mas a menina de cada uma ainda é a
mesma.
Eu sei que é.
Algumas coisas não serão
nunca, nunca compreendidas.
E talvez isso nem tenha mais importância.
Muita coisa
ganhou novo significado.
Perdemos
algumas certezas, ganhamos outras...
O tempo
passou sim, sem anestesia.
Mas aprendi
que alguns desencantos se curam mesmo é no abraço.
Abro então,
Nana, e imensamente, meus braços pra você...
Vem.
Solange Maia
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
porque eu conto histórias...
Um texto é uma entidade viva,
e contém um mundo imenso dentro dele, tentei explicar. É o velho clichê sobre a
ponta do iceberg. É muito mais sobre abandonar palavras do que sobre
acumulá-las. Escrever é coagular, é comprimir... é deixar partir tudo que não é
necessário, só pelo prazer de sabê-lo devolvido na imaginação de quem lê. É falar
de uma vida que nem é mais só a sua. É por isso que uma história é
bonita, completei, porque é tecida com componentes de todos nós, porque passa a
ser de quem a lê.
Conto histórias por tantas
coisas.
Conto por ser a maneira que
sei de estender as mãos, porque minhas narrativas me humanizam, porque é um jeito de confessar meus medos e minhas coragens, porque preciso espantar tantos monstros e tantos
dragões.
Escrevo como quem tira uma
fotografia. Para guardar, para proteger. Escrevo para que o instante
não sofra o desgaste do tempo, ou de outras experiências que muitas vezes
apagam as anteriores.
Conto histórias por tantas
coisas.
Conto para me lembrar de quem
sou, para aproximar fronteiras, para comungar. Conto porque as historias têm aptidões para transportar
quem as lê, e criam sensações, que de outra forma, provavelmente seriam
inacessíveis. Conto por isso, porque sei que cada pequena prosa, cada par de linhas, contém uma vida inteira. Mas ele, ao ouvir tudo isso, e me achando tão prolixa, pediu bem menos, queria sim me entender, mas só o podia com poucas palavras...
Disse então, que conto histórias porque por mais que a vida me esfregue na cara que tudo é absolutamente temporário, ainda assim, desejo algum tipo de permanência.
Disse então, que conto histórias porque por mais que a vida me esfregue na cara que tudo é absolutamente temporário, ainda assim, desejo algum tipo de permanência.
Solange Maia
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Dona Perfeitinha...
O verdadeiro amor não se conhece por
aquilo que exige,
mas por aquilo que oferece.
-Jacinto Benavente-
A menina era limpinha. Muito
limpinha.
O cabelo sempre esticadinho,
as meias brancas, os pés cheirosos. Os dentes escovados, as mãos
lavadas.
Estudava sem reclamar, sempre
boas notas, e não falava palavrão. Sempre de bom humor, pronta
para agradar a quem fosse. A menina era perfeitinha.
Muito perfeitinha.
Só não sei se era feliz.
A outra menina era do avesso.
O cabelo desgrenhado era
moldura para um rosto vivo. Muito vivo. Roupinha básica, colares
grandes, alegrias soltas.
Se pudesse vivia sem roupa, enfeitada
só pelas fitinhas do Bonfim, que adorava. Andava descalça e o troféu da
sua liberdade eram os pés estarem sempre pretos. Muito pretos.
Não havia no mundo riso mais
lindo.
E mais honesto.
Lembro que Marcelo Gleiser, o
físico, disse uma vez que não fossem nossas imperfeições ainda seríamos
bactérias. Disse ainda que o Universo era feito de assimetrias e de desequilíbrios, e que era exatamente isso que nos
tornava fantásticos.
Então, Dona Perfeitinha, me desculpe, mas deixo um imenso ‘salve’ para tudo o que
nos tira dessa tão limitante linha de produção !
Salve !
Solange Maia
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
borogodó...
Do jardim da casa da Avó dela,
o que mais gostava eram as
flores.
Mais especificamente suas pétalas,
e as vermelhas.
O jardim era cheio de outras plantas,
mas isso nunca a interessou.
Só o que ela queria era aquele colorido.
Corria para a calçada com a
saia cheia delas.
Aos poucos ia colando, uma a
uma, as pétalas sobre as unhas.
Com a ponta dos dedos assim, se sentia pronta para sair.
Não era preciso nem vestido, nem
nada.
Só aquele vermelho.
Tinha borogodó.
Tinha sim. Desde menina.
Solange Maia
domingo, 9 de fevereiro de 2014
derretendo as palavras...
Ele sabia da caneta tinteiro e
pediu que a deixasse na cabeceira. Queria escrever para mim.
Separei o bloco de vergê
também, perfumei o quarto, Portishead cantando Glory Box, e, senti desde aquela
hora a vertigem do querer. Lembro-me de ter me deixado
cair na cama, com o corpo entorpecido pelo desejo. E dormi.
Um
tempo depois senti o corpo arrepiando com a respiração dele, que de tão próxima
a mim, me despertou.
A
caneta tinteiro já em sua mão retinha o azul da tinta, formando uma pequena
gota, espessa e escura.
Ele
a encosta em minha pele. Não havia papel algum.
Era em mim que ele escrevia.
A
pena rígida sobre o meu ventre mal me deixava respirar.
O desejo passava dele para a
tinta, e depois para o meu corpo. Virava gesto. A ponta afiada arranhava minha
cintura enquanto ele escrevia um alfabeto inteiro. Íamos nos fundindo, ele
percorrendo minhas costas, a nuca, atrás do joelho, entre os dedos. Fui
virando o corpo, deixando-o escrever, inclinando-me para frente, alongando os
braços.
Ele
depositou um poema inteiro em mim.
E
assinou seu nome no ângulo do meu rosto.
Mas
nossos corpos fundidos e suados derreteram a tinta, e as letras foram escorrendo
em mim. Agora
só o lençol, todo manchado, denunciava o que havia acontecido.
As
palavras sumiram. E acho que nem
precisávamos delas.
No
quarto, para sempre a permanência do texto.
Solange Maia
domingo, 2 de fevereiro de 2014
por isso disse adeus...
Um a um ela foi deixando de lado os homens da sua vida. Todos
devidamente importantes, mas nenhum que tivesse entendido de verdade seu bem
querer.
Apaixonava-se por aqueles homens por que precisava deles
para sentir o amor.
Era como se ela conferisse a eles algo que eles não tinham, alguma
virtude capaz de sacudir suas emoções, estimular sua autoestima, diminuir seus
sofrimentos.
Mas no dia a dia, como todas as coisas mil vezes
fantasiadas, a realidade a deixava sempre um bocado desiludida.
Eles diziam que a amavam de muitas formas, e embora ela quase nunca
sentisse, não partia quando devia mesmo assim.
E isso ia doendo dentro dela.
Palavras envoltas pelo tecido frágil do desejo só aumentavam sua dor.
Ela queria alguém para uma viagem mais longa.
Por isso disse adeus. Um a um.
Sem ninguém ao seu lado ela se sentia mais livre para
discordar de Proust quando ele dizia que o amor era uma tortura recíproca. Não...
ela preferia o amor que fosse uma ternura recíproca !
Estava cansada de parecer essa amante Proustiana,
tragicamente dependente e masoquista.
Dessa vez ela queria ser feliz.
Tudo valera a pena, ela sabe, mas bonito mesmo vai ser o dia em que ela, de verdade, escolher ficar.
Tudo valera a pena, ela sabe, mas bonito mesmo vai ser o dia em que ela, de verdade, escolher ficar.
Solange Maia
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