quinta-feira, 12 de junho de 2014

só um dia para os namorados ?

Sentimentos não se quantificam e não podem ser elencados em listas.
Embora eu as faça.
Listo todas as coisas boas que sinto quando estou ao teu lado. Cada minuto é o milagre que pedi.

E nem foi preciso Verona.
Dispensamos o anel e as cenas na varanda. Até mesmo o vinho foi redundante. Nossa embriaguez era a do amor, a dos devaneios, dos excessos. Shakespeare também achava o amor a mais discreta das loucuras.

Temos tudo o que o nosso coração conquista, a cada dia. 
E é tanto. E pouco também. Por isso ainda faço como antes, guardo você.
Decoro tuas frases, desenho teus sorrisos, toco suas canções. Embrulho com laço de fita esses sentimentos todos, só para abri-los de novo mais tarde.
É que o tempo nunca é suficiente pra nós.

Talvez por isso tenhamos casado secretamente.
Assim, de camiseta surrada e pés descalços, bem ali, no jardim dos amantes. Tentando a todo instante enganar o tempo.

Solange Maia 

terça-feira, 10 de junho de 2014

meu pecado mais bonito...

Ele tinha aquele abraço.
Mas era menino, menino. Tão lindo, e tão safo.
De aconchego fácil, sem pose, sem esforço e sem fingimento.
Com ele o amor se dava e se pegava de volta na mesma hora.

Mas de tudo, o que mais gostava, era que ele amava as belezas disponíveis e não inventava amanhãs.
Devolvia-me todas as palavras esquecidas de ternura.
Um romance doce com sabor de fruta do mato.
Com ele o mundo parece sempre o lugar perfeito para se estar, e tudo é tão mais leve e mais alegre que o sexo é sempre uma recompensa, nunca uma absolvição...

Sorrio e solto um suspiro pesado, cheio de vontade de contar pra ele do vazio que sempre sinto nos dias seguintes. 
Não falo nada. 
Ele percebe. 
Chega bem perto, me beija e sussurra em meu ouvido :
- Não fica assim, não... afinal, o que é a vida senão um dia ?

Solange Maia

domingo, 8 de junho de 2014

boa de cama...

Gabava-se aos sete ventos que era boa de cama.
Eu, recém-saída da adolescência, imaginava-a pendurada no lustre, só podia.
Mas o tempo, generoso que é, mesmo sem pedir licença, me colocou contra a parede. Fui viver minhas histórias.

Aprendi que a linguagem dos corpos habita um terreno misterioso, e que para funcionar sexualmente é preciso atitude. É preciso estar despido de pudores para permitir que a ocitocina invada nossa corrente sanguínea e confunda nossos neurônios. Nessas horas perder-se é achar-se.
De resto, não há receitas.

Sorte de quem, como eu, descobriu como transformar o corpo (muitas vezes longe de ser perfeito) num delicioso parque de diversões.
No sexo, gosto do amor.
E no amor, gosto do que excede, invade, avança, dessa matéria intangível moldada a quatro mãos, das sensações embriagantes que me deixam sempre com vontade de querer mais. Viro verbo conjugado no corpo do outro.

Se sou boa de cama ? Não sei.
Só sei que no amor meu corpo entende tão bem o corpo do outro, que diante de qualquer mínimo estimulo o resultado é sempre sexy, erótico, envolvente e visceral.
É.
Sexo sublime também merece ser valorizado.
Pendurados, ou não, no lustre !

Solange Maia


segunda-feira, 2 de junho de 2014

o desenrolar da vida...

Preciso deles. Dias de descanso me fazem lembrar quem sou.
Passeio pela casa e me sinto salva quando vejo que ainda guardo meus livros separados por cor.
Que a ordem é o movimento cadenciado da desordem.
Que é só descalça que me sinto importante.

Sou hemisfério direito, feito costureira de colcha de retalhos, conto histórias bordadas no tempo, alinhavo sentimentos, componho um jardim intuitivo de flores.
Ou não. 
Preciso de pausas.
A vida se desenrola aos poucos, já sei.

Em horas de paz tornam-se indispensáveis as coisas comuns. Rego plantas, acendo velas pela casa, leio matérias já lidas em revistas guardadas, tomo chás perfumados, hidrato as mãos preguiçosamente, sento no chão, e passo horas ouvindo as músicas que amo de olhos fechados.
Com a percepção aguçada. 
Busco ecos.
Na solidão brutal da minha consciência vejo a vida em flashbacks. Aproveito a alegoria para contar minhas bênçãos.
Sinto-me bem.

Passo a alma a limpo.
Nesses dias o amor faz tanto sentido...
E sou tudo o que eu queria ser.

Solange Maia

fotografia - meus livros - 2014

segunda-feira, 26 de maio de 2014

x...

Hoje fiz uma promessa.
Vou sair dessa floresta.
E só o que consigo é pensar em Ralph W. Emerson. Ele estava certo quando disse que devemos fazer sempre o que temos muito medo de fazer.
Só assim se escapa dos nossos esconderijos emocionais.

Cansei de dever a mim mesma e à minha própria história.
E se, como você disse, o 'Eucaliptos' é um mapa, então é aqui que vou fazer um imenso "X".
É aqui que eu começo.

Solange Maia

domingo, 11 de maio de 2014

quando o amor faz sentido...

Domingo era dia que podia.
Então caminhávamos na ponta dos pés até o quarto dela. A imensa cama era um convite que não sabíamos resistir, o lugar mais afetivo e mágico do mundo. A impressão era de que na hora em que tirávamos os pés do chão, a vida parava.
O amor fazia tanto sentido ali...
Acho que foi assim que aprendemos o amor.
O engraçado é que ainda hoje, quando subo o elevador da casa dela faço-o em silêncio. Caminho no pequeno hall na ponta dos pés, e na hora em que a porta abre, sinto a mágica acontecer, exatamente como quando subia na cama dela.
O amor faz tanto sentido ali...
Mas agora já sei que não era a cama, e que não é a casa.
É a mãe.
Minha mãe é o lugar sagrado.

Solange Maia

(fotografia - mamãe e eu - 1968)

quinta-feira, 8 de maio de 2014

pelo êxito...

Se existia a possibilidade do fracasso, existia também a do êxito. Era o que latejava entre a lona e o chão daquele picadeiro. Havia um saber antigo ali, uma soma de metáforas coloridas e de projeções profundas. Aquela casa de espetáculos circular era um espaço afetivo, não restava dúvida.

O trapezista solto no ar, entre as duas barras, tinha coragem de abandonar o lugar seguro e mergulhar no abismo do desconhecido, mas só o que eu via era o futuro, que, embora estivesse logo ali, nunca estava pronto...

O palhaço, que errava onde não esperávamos, e acertava, igualmente onde não esperávamos, traduzia em alegria as melancolias e os enganos de todos nós. Rindo, denunciava a ordem vigente. Me fez lembrar de Nietzsche, que dizia que o estado de genialidade do homem era aquele em que ele podia, simultaneamente, amar uma coisa e rir-se dela.

Naquele circo era a proeza que delimitava o encantamento. Era justamente a incerteza que fazia o êxito do espetáculo, a permanente construção do sonho de sermos mais e melhores. Acolhi em mim cada pequeno gesto, e minha capacidade de escolha nunca se fez tão clara.
Existiria sim, sempre, a possibilidade do fracasso, mas era pelo êxito que nos movíamos.
Pelo êxito.

Solange Maia

sexta-feira, 2 de maio de 2014

fazendo a festa...

Tanta gente pela casa, música alta, uma luz avermelhada atravessando a névoa fina, as sombras nas paredes, velas pelo chão, vinho, taças... levou um tempo até que eu o visse. Camiseta branca, calça preta, cabelo despenteado, e aquele ar sério que sempre destoava do resto. Ele nunca estava totalmente integrado a lugar algum, sempre um pouco ‘ausente’, sempre um pouco forasteiro. Mas naquela noite a festa era dele. A casa era dele. As coisas deviam ser diferentes.

Eu sabia que ele, de alguma forma, estava me esperando. Então, sem pensar muito puxei suas mãos, deixando-o sem tempo pra reagir. Ergueu as sobrancelhas e sorriu gostoso.
Fugimos dali.
Na escada para o andar de cima senti que as mãos dele impunham-se sobre mim, puxavam minha roupa e meu cabelo. Nem bem subimos e eu já estava presa entre as suas pernas, ali, no chão da sala íntima, sem porta, sem nada. A respiração dele, na minha nuca, desencadeou um desejo mais instintivo, menos estudado. Era sempre assim que povoávamos nossas histórias, com esses desejos fora de lugar.
Os corpos suados, misturados, mas foi a música bonita que me levou para o colo dele, que então mordeu meu queixo e depois me beijou. Ficamos assim, com os lábios colados. Cinco minutos. Dez. Vinte. Mais.
Beijar era mais íntimo do que todo o resto.
E ele sabe, nunca, nunca resisto a um beijo.
Tantas pessoas pela casa, e a gente ali.
Fazendo outra festa.

Solange Maia

domingo, 27 de abril de 2014

tenho uma coisa contigo...

Pra você sempre escrevo da pele, do tato, do cheiro.
Sempre da boca, da cama, do chão.
Mas hoje, hoje não.
Hoje quero escrever sobre como o tempo tem sido bacana com a gente. Como com o seu passar fomos descobrindo beleza em um monte de coisas que pareciam ocultas, em como, num mundo de poucos laços, construímos um que não sucumbe, em como soubemos solidificar nosso afeto.
Quero escrever sobre essa 'coisa' bonita que nos põe num 'lugar' isolado de todo o resto, sobre estes nossos olhos que se comunicam tanto, e as coisas que achamos importantes e que são tão parecidas... mas, sobretudo quero escrever sobre essa nossa sorte. E como é gostoso isso.
Em geral, acredito, o bem querer é assim.

Sei que tudo muda, que tudo se transforma, e nem dá pra dizer que somos os mesmos, mas é fato : 
Tenho uma coisa contigo...
Talvez sejam nossas palavras.
Talvez sejam elas, que insistem em nos reunir para sempre.

Solange Maia 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

daqui a 3 dias...

Tem gente que esconde, tem medo de falar, disfarça.
Eu não. Tenho o maior orgulho. 
Encho a boca e conto : faço 47 anos daqui a 3 dias. Gosto ainda mais quando percebo que 47 está na trave dos 50.
Número que tem força e fascínio.

Um tanto de estrada percorrida, outro tanto a percorrer.
Nem tanto ao mar, nem tanto a terra. Lugar onde euforia e serenidade comungam tão bem. Um não rouba mais a cena do outro. Aceito e acolho. Já sei o que procuro, e ouso dizer que o caminho me interessa bem mais do que a chegada.
Dou-me, mas só quando quero. E para quem quero.
Conheço coragens e medos, sonhos e desejos, gente boa, e gente que nem gente é. O tempo já não guarda tantos segredos. Sem a rigidez de antes, demoro mais no gesto, na entrega, no outro... Absorvo a existência, o amor, a graça. Livre de quaisquer cobranças.
Livre para viver melhor.

Já não me prendo ao tecido da lógica, não me importo se as coisas realmente fazem sentido. Respeito a autoridade da vida, mas flerto descaradamente com ela.
E, mesmo quando surpreendida por alguém, com um sonoro : – Senhora ? – não me incomodo.
Sou sim.
Sou, deliciosamente, senhora de mim !

Solange Maia