terça-feira, 9 de setembro de 2014

pensamentos felizes fazem a gente voar, dizia Peter Pan...

Assistia repetidas vezes um desenho que gostava.
Era assim com o Peter Pan. 
Decorava as falas, sabia as cenas, conhecia o final.
E, por saber, permitia-me a antecipação de algumas alegrias que, mesmo já muito sentidas, eram quase tão deliciosas quanto as da primeira vez.
Eu sabia que todas as primeiras vezes carregavam uma espécie de eternidade, mas naquela hora não me importava com a repetição, gostava do prazer que sentia durante aquele momento, gostava daquela fantasia, da atmosfera, e acrescentava sempre algo novo ao meu repertório sensorial.
"Pensamentos felizes fazem a gente voar", explicava Peter à Wendy, e eu repetia.

Cresci. Mas em muitos aspectos continuo exatamente a mesma.
Ouço infinitas vezes uma música que gosto.
É que a gente quer repetir o prazer.
Somos fisicamente suscetíveis a essas pequenas alegrias.
E, mesmo depois que silencio a música, fica sempre comigo alguma nota.

Então, sim.                                                                       
Claro que sim. Quero ganhar música de presente.
Quero desde muito antes daquele agosto de 2013... quero pela música em si, que é tão perene e causa sempre tanto impacto em mim, mas quero também porque, de alguma forma, você vem dentro dela.
Sim, principalmente por isso.
Porque pensamentos felizes fazem a gente voar.

Solange Maia

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

efeito colateral...

Você pensa que não liga mais, até que seja ele o cara sentado do outro lado da mesa.
É que tinha sempre alguma coisa naquela hora que me desorganizava. Talvez fosse o modo como ele me olhava. Havia coisas no olhar dele que não eram fácies de explicar, longe de serem simples, mas que ao mesmo tempo pareciam tão conhecidas. Talvez fosse porque ele atravessava a mesa com os olhos até me tocar, e fazia de propósito, acho que gostava de medir os efeitos que causava em mim. Demorava constrangedoramente no gesto.
Depois sorria. Debochado.
E eu, nocauteada, sorria de volta tentando desesperadamente fingir indiferença. E ficava muito, muito encabulada, até que pudesse, finalmente, desviar o olhar.
Uma trégua.

Três ou quatro minutos depois e ele voltava a me provocar, agora com outro sorriso. Até que, de tanto tentar, ele conseguia. Minha timidez ia embora, e eu voltava aos olhos dele. Que agora eram outros.
Minha boca entreaberta comunicava tão diretamente o meu desejo que ele se assustava. Metade espanto, metade desejo. Entro ou não naquela historia ?
E entrava.

Mordia o lábio e tirava a blusa.
Uma porção de gente em volta, e ele nem ligava.
Ficava assim, totalmente entregue a mim.
Nu.

Tudo aqui dentro.
Sempre.

Solange Maia 

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

devia ser proibido...

E tanta gente presa nessa neve.
Tantas quanto as explicações, que a gente nem pede e vão logo desandando a dar... ‘foi a vida que amargou, foram as feridas do passado, tudo o que nunca cicatrizou, foram as traições, o cotidiano que me endureceu, a matemática sendo sempre maior que as relações...’
Como se fosse tudo uma coisa só.
Como se fossemos todos iguais.

Tem gente que vive nesse perpétuo estado de defesa, a memória convertendo-se num cárcere, a alegria esvaindo pelo ralo da razão. E vive-se assim, eternamente à margem.
Eternamente quase sendo.

A vida pode sim ser violentamente invadida por alguma fatalidade, a realidade de vez em quando pode nos fazer faltar o chão, a alma vai doer, o corpo quase arrebentar, mas devia ser só isso. Só esse instante agudo de dor.
Proibido virar crônico.

Tanta gente sem lembrar que o amor é sol que derrete toda neve. Há que se sair detrás dessa trincheira...
Correr riscos ainda é a maneira mais bonita de amar.
Tenho medo, é fato, mas mostrar o coração tem me dado uma alegria que nem sei...
E acredito.
Ainda acredito.

Solange Maia

sábado, 16 de agosto de 2014

cereja, poeira, cadeira...

Estou no limite do inefável. Não lembro de ter perdido as palavras assim antes. É que nunca contei, mas meus textos só nascem diante de algum vazio. E, hoje não me falta nada.
Estou cheia desse amor bonito que acabamos de viver.
Ademais, minhas palavras já foram tão lidas, e já estão tão gastas...

Pra você quero dar mais do que o verbo, quero dar o que nunca dei, meus olhos cheios desse inverno, minha mansidão, o bom silêncio, e um amor que precisa de cada uma das entidades sensórias, que não dispensa nada. Quero bocas, beijos, mãos. 
Quero a alma, e o mergulho que vem depois. Quero a pele, a fenda, o gozo.

Estou no limite do inefável, amor, mas pela primeira vez o silêncio que se seguiu não foi um vazio.
A despedida não foi um fim.
Amanhã já sei : ainda te quero.

Solange Maia 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

depois que te perdi...

Muito embora eu ande com as retinas enxaguadas pela saudade, agora posso te ver melhor.
Você ficou mais visível depois que te perdi.
É que, às vezes, mesmo com a porta fechada a gente espia pelos vãos e pelas brechas tentando entender o que foi que realmente aconteceu.
Havia amor, eu sei, mas transitamos por fronteiras tão difíceis.
Achávamos que era paixão, pele, desejo... Tudo volátil, imaturo, explosivo e perigoso.
Mas teria se consumido se fosse só isso. E não era.

O amor insistia, pedia passagem e a gente não via.
Agora sei que estava lá.
É que aparecia com formas misteriosas, e eu via em ti alma demais, e sentia medo. Muito medo.
Por achar que sabia lidar melhor com a cabeça, tentei trazer nossa história para o racional. Mas tudo que é do cérebro é tão injusto, que nossa ternura foi ficando dura.
Então fugi.
E agora preciso daquele tipo de cura que só pode vir da solidão.

Sei que vivemos um grande amor,
e que para cada pecado, houve uma virtude,
para cada medo, uma coragem,
só não houve tempo.                              
Eu era agora, e você sempre um pouco mais tarde...

Solange Maia

sábado, 26 de julho de 2014

tento não amar você...

Vai logo colocando a mão na minha nuca, segurando do seu jeito másculo o meu cabelo enquanto com a outra mão fecha a porta que acabei de abrir. Vira minha cabeça de encontro ao beijo que sua boca me dá antes mesmo de eu falar qualquer coisa. Afasta a alça da minha blusa e morde meu ombro, saliva. Respira tudo o que imaginava e que agora tem.
Falta-me voz, falta-me fôlego, e sinto ainda o mesmo desejo da primeira vez.

Busco o pouco de clareza que resta quando teu corpo ebule assim, tão perto de mim. É que preciso lembrar que prometi a mim mesma que seria sempre só o beijo, só o desejo, só o momento. Lambo tua boca e busco com a mão tudo o que poderia estar contido num instante.
Mas é pouco.
No inicio é sempre o desejo, mas nunca é só isso.
Três segundos ao seu lado são suficientes para criar raízes, começo a me apaixonar violenta, profunda e imediatamente.
Finjo que não, e deixo a noite acontecer.
Deveria ser só bom, mas nasce uma falta no lugar do beijo.
E só o que enxergo é um provável buraco, grande e fundo.

Acho que não sei lidar com tão pouca permanência.
Sou das eternidades, e agora tenho passado meus dias tentando não me apaixonar. É.
Tento diariamente não amar você.

Solange Maia

sexta-feira, 11 de julho de 2014

para ele, o mesmo mantra de sempre...

Ele não vai embora. Tampouco fica.
Anda cheio de ressentimentos e faz um esforço danado para entender onde foi que as coisas pararam de acontecer.
E, de tanto tentar entender, tem vivido virado para trás. Investe seu tempo juntando cacos e fazendo colagens com os pedaços dessa história que já acabou.
A tristeza tem dessas coisas... faz acreditar em mentiras bonitas, promessas que nem sempre foram feitas, e nos põe agarrados a qualquer noticia que alimente nossa esperança. Tudo tão pouco, tudo tão quase nada.
A tristeza é honesta, você diria, e eu sei. É fratura exposta.
O perigo é acostumar-se com ela.

Mas o fato é que você nunca está aqui. Não no agora.
Ergue o cálice, mas não faz o brinde.
Oras...

Penso em Sérgio Godinho, que disse com razão, que a vida é feita de pequenos nadas. 
Chego perto do seu ouvido e sussurro o mesmo mantra de sempre :
- Chega de choramingos ! Perfume-se com um novo cheiro, mergulhe nu, faça uma batida de fruta do mato, fotografe paisagens, deixe a barba crescer, acredite quando ouvir um elogio, caminhe descalço, compre discos novos, beije como se tivesse 20 anos, compre uma cueca nova, e linda, veja um filme bom, escreva um poema num guardanapo, descanse numa rede, dance pela casa, coma risoto de limão siciliano, faça uma tatuagem...
Cometa pequenos nadas!
Afinal, posso jurar que foi pra isso que Deus criou o Universo !

Solange Maia

terça-feira, 1 de julho de 2014

o que eu queria tanto te dar...

Um sentimento que sobrevivia sempre a pequenos abandonos e à espera do momento perfeito.
Mas um desejo maciço teimava em crescer dentro da gente.
Estava cansada do niilismo inumano da ausência.
É que às vezes parecia que o amor queria ser notado.
Dessas noites em que se deve deixar a cabeça de lado e dar ouvidos só ao coração.
Afinal, não se pode acostumar com a renúncia.

Abri a porta sabendo que depois daqueles segundos tímidos meu corpo começaria a falar por mim, por nós, e por todos aqueles anos permeando o vale quente e silencioso de um possível vir a ser.
Tínhamos os versos, eu sei, mas o melhor de mim era o que estava escondido por trás deles, e que eu queria tanto te dar. Talvez por isso a noite tenha sido tão linda, tão de verdade...

Fui. Para que fôssemos.
E fomos.
Esses momentos têm essa generosidade... a de nos permitir ‘ser’. Momentos que nunca vou me esquecer.
Nosso desejo, finalmente, virou a boca acolhida no beijo.

Solange Maia

quarta-feira, 25 de junho de 2014

cento e vinte e sete beijos...

A luz obliqua suavizava a noite sem perder seus amarelos.
Uma formalidade preguiçosa.   
A mesa posta, embora eu tivesse sentido vontade de cantar Chico: ‘ponha os pratos no chão e o chão ta posto’... é que ainda não te contei, mas gosto tanto desses cenários que nos aproximam. Terno como a água que me serviu em cristais. Delicadezas deixam a atmosfera tão leve.

Contamos histórias que tinham vontade de continuar, mas não, ficamos quietos, presos um no outro, num discurso de palavras mudas e poucos gestos. Era como se o ar precisasse ser preenchido, como se você precisasse ser preenchido.
Um instante afável, como se eu já o tivesse vivido, mesmo sem nunca ter passado por ali.

Tuas mãos no meu rosto branco eram boca.
Tua boca no meu corpo tonto era beco.
Fui embora devagar, como quem nunca quer partir.
E acordei cedo, com vontade de te beijar.
Cento e vinte e sete beijos. Tantos.

Solange Maia

domingo, 22 de junho de 2014

a festa que ninguém foi...

Não gosto dessas deserções, a sensação era a de estar numa festa que ninguém foi, tudo parecendo caminhar em câmera lenta junto comigo, minha respiração suspensa, pausada, procurando qualquer fio de lógica onde pudesse me agarrar.
A dor, nessas horas, é visita que não se anuncia.
Eu fui. Ele não.
Mais uma vez lembro que sou um hibrido de força e fragilidade. Teimosa, nunca aceito morrer.

Devia ter percebido, o amor estava enfeitado demais.
E ainda me confundo com essa gente que alimenta relações desde que não afetem seu cotidiano imediato, ainda acho que serão atravessados por uma flecha, que vão se render, morder a maçã.
A vida não é uma resposta, eu sei, mas torço para que eu consiga entender mais rápido quem é quem.

Cansada dessa gente cuja maior preocupação é a de assegurar uma ideia construtiva acerca deles próprios.
Procuram companhia, mas só entregam solidão.
Para eles o amor não chega nunca.
Como aquela festa vazia em que eu fui.
Ele não.

Solange Maia