quinta-feira, 18 de setembro de 2014
para v.o.c.ê, meu 'alvo' muito específico.
Já perdi a noção do tempo. Só o que sei é que estamos aqui, nos
beijando há horas, em pé no meio da sala, como se fossemos adolescentes.
Há um desenho de água na mesa, onde estavam nossos copos. Sua camisa
jogada na cadeira ao lado. A carteira num canto. A torneira que ainda pinga. O ar tem
o nosso cheiro. E, por mais que seja muito cedo, já sinto o corpo entorpecido por
uma saudade bonita.
Meu cabelo despenteado no
rosto. Uma janela acesa e alguém que espia. Teus olhos que fecham enquanto me
sente percorrer cada canto do teu corpo. Chamadas perdidas em nossos celulares. O ar denso
e absolutamente palpável. Toques leves que fazem o
corpo inteiro arrepiar. A mão estendida que apaga a
luz. A música que nem lembramos porque ficamos cantando outra canção. Todos os sentidos
hiperdimensionados. Tudo a flor da pele. Não tem mundo lá fora.
Voltar pra casa agora ficou
chato.
Mas vamos embora com a boca cheia de beijos.
Lá fora as pessoas não sabem, mas aqui dentro tudo foi ventania.
É.
E quero que saiba que gosto de você.
Gosto porque os dias passam e você não desiste de me descobrir.
Solange Maia
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
barba por fazer...
Não era exatamente uma barba. Era uma displicência
sexy e máscula. A contramão do dia a dia, o abandono da
rotina, a urgência ainda velada de não querer ser tão dócil, embora passasse longe
da vontade de ser truculento.
E fazia com que ele, um homem adulto,
parecesse muito, muito adulto. Testosterona pura. Adulto e primitivo. Ãh ? É
que mulher gosta de homem doce, inteligente, sensível, mas não resistimos à virilidade, e, nesse caso, à barba. Aahhh... a barba. Acho que deve ser uma das melhores imagens dessa 'masculinidade'.
Mudo o ângulo e percebo que ele tem acolhimento
nos olhos, não... não resisto. Mas é a barba por fazer que me distrai, parece trazer implícita
aquela mensagem de ‘me garanto’. Resisto menos ainda.
Gosto de cara limpa, rosto lisinho, do contato
da pele, mas nele a barba cerrada revelava atitude, despertava em mim o velho
clichê : ‘quero descobrir o que esse cara tem’.
Desculpem-me os ‘sarados’, mas esse ar de ‘eu
nem ligo’ é muito mais eficaz que um abdômen definido.
Difícil é encontrar racionalidade diante
de um homem assim.
Inevitavelmente saio com o rosto
arranhado.
Um pecado.
Mas, como todo pecado, absolutamente indispensável.
Solange Maia
terça-feira, 9 de setembro de 2014
pensamentos felizes fazem a gente voar, dizia Peter Pan...
Assistia repetidas vezes um desenho que gostava.
Era assim com o Peter Pan.
Decorava as falas, sabia as cenas, conhecia o
final.
E, por saber, permitia-me a antecipação de algumas alegrias que, mesmo
já muito sentidas, eram quase tão deliciosas quanto as da primeira vez.
Eu sabia que todas as primeiras vezes carregavam uma espécie de
eternidade, mas naquela hora não me importava com a repetição, gostava do prazer
que sentia durante aquele momento, gostava daquela fantasia, da atmosfera, e acrescentava
sempre algo novo ao meu repertório sensorial.
"Pensamentos felizes fazem a gente voar", explicava Peter à Wendy, e eu repetia.
Cresci. Mas em muitos aspectos continuo exatamente a mesma.
Ouço infinitas vezes uma música que gosto.
É que a gente quer repetir o prazer.
Somos fisicamente suscetíveis a essas pequenas alegrias.
E, mesmo depois que silencio a música, fica sempre comigo alguma nota.
Então, sim.
Claro que sim. Quero ganhar música de presente.
Quero desde muito antes daquele agosto de 2013... quero pela música em si,
que é tão perene e causa sempre tanto impacto em mim, mas quero também porque,
de alguma forma, você vem dentro dela.
Sim, principalmente por isso.
Porque pensamentos felizes fazem a gente voar.
Solange Maia
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
efeito colateral...
Você pensa que não liga mais,
até que seja ele o cara sentado do outro lado da mesa.
É que tinha sempre alguma
coisa naquela hora que me desorganizava. Talvez fosse o modo
como ele me olhava. Havia coisas no olhar dele que não eram fácies de explicar, longe de
serem simples, mas que ao mesmo tempo pareciam tão conhecidas. Talvez fosse
porque ele atravessava a mesa com os olhos
até me tocar, e fazia de propósito, acho que gostava de medir os efeitos que
causava em mim. Demorava constrangedoramente no gesto.
Depois sorria. Debochado.
E eu, nocauteada, sorria de
volta tentando desesperadamente fingir indiferença. E ficava muito, muito
encabulada, até que pudesse, finalmente, desviar o olhar.
Uma trégua.
Três ou quatro minutos depois
e ele voltava a me provocar, agora com outro sorriso. Até que, de tanto tentar, ele conseguia.
Minha timidez ia embora, e eu voltava aos olhos dele. Que agora eram outros.
Minha boca entreaberta
comunicava tão diretamente o meu desejo que ele se assustava. Metade espanto, metade desejo. Entro ou não naquela historia ?
E
entrava.
Mordia o lábio e tirava a
blusa.
Uma porção de gente em volta,
e ele nem ligava.
Ficava assim, totalmente entregue a mim.
Nu.
Tudo aqui dentro.
Tudo aqui dentro.
Sempre.
Solange Maia
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
devia ser proibido...
E tanta gente presa nessa neve.
Tantas quanto as explicações, que a
gente nem pede e vão logo desandando a dar... ‘foi a vida que amargou, foram as feridas
do passado, tudo o que nunca cicatrizou, foram as traições, o cotidiano que me endureceu, a matemática sendo sempre maior que as relações...’
Como se fosse tudo uma coisa só.
Como se fossemos todos iguais.
Tem gente que vive nesse perpétuo estado de defesa, a memória convertendo-se num cárcere, a alegria esvaindo pelo ralo da razão. E vive-se assim, eternamente à margem.
Eternamente quase sendo.
A vida pode sim ser violentamente
invadida por alguma fatalidade, a realidade de vez em quando pode nos fazer
faltar o chão, a alma vai doer, o corpo quase arrebentar, mas devia ser só
isso. Só esse instante agudo de dor.
Proibido virar crônico.
Tanta gente sem lembrar que o amor é sol
que derrete toda neve. Há que se sair detrás dessa trincheira...
Correr riscos ainda é a maneira mais
bonita de amar.
Tenho medo, é fato, mas mostrar o coração
tem me dado uma alegria que nem sei...
E acredito.
Ainda acredito.
Solange Maia
sábado, 16 de agosto de 2014
cereja, poeira, cadeira...
Estou no limite do inefável. Não lembro de ter perdido as palavras assim antes. É que nunca contei, mas meus textos só nascem diante de algum vazio. E, hoje não me falta nada.
Estou cheia desse amor bonito que acabamos de viver.
Ademais, minhas palavras já foram tão lidas, e já estão tão gastas...
Pra você quero dar mais do que o verbo, quero dar o que nunca dei, meus olhos cheios desse inverno, minha mansidão, o bom silêncio, e um amor que precisa de cada uma das entidades sensórias, que não dispensa nada. Quero bocas, beijos, mãos.
Quero a alma, e o mergulho que vem depois. Quero a pele, a fenda, o gozo.
Estou no limite do inefável, amor, mas pela primeira vez o silêncio que se seguiu não foi um vazio.
A despedida não foi um fim.
Amanhã já sei : ainda te quero.
Solange Maia
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
depois que te perdi...
Muito embora eu ande com as retinas enxaguadas pela saudade, agora posso
te ver melhor.
Você ficou mais visível depois que te perdi.
É que, às vezes, mesmo com a porta fechada a gente espia pelos vãos e
pelas brechas tentando entender o que foi que realmente aconteceu.
Havia amor, eu sei, mas transitamos por fronteiras tão difíceis.
Achávamos que era paixão, pele, desejo... Tudo volátil, imaturo, explosivo e perigoso.
Mas teria se consumido se
fosse só isso. E não era.
O amor insistia, pedia
passagem e a gente não via.
Agora sei que estava lá.
É que aparecia com formas
misteriosas, e eu via em ti alma demais, e sentia medo. Muito medo.
Por achar que sabia lidar melhor com a cabeça,
tentei trazer nossa história para o racional. Mas tudo que é do cérebro é tão injusto, que
nossa ternura foi ficando dura.
Então fugi.
E agora preciso daquele tipo de cura que só pode vir da solidão.
Sei
que vivemos um grande amor,
e que para
cada pecado, houve uma virtude,
para
cada medo, uma coragem,
só
não houve tempo.
Eu
era agora, e você sempre um pouco mais tarde...
Solange Maia
sábado, 26 de julho de 2014
tento não amar você...
Vai logo colocando a mão na minha
nuca, segurando do seu jeito másculo o meu cabelo enquanto com a outra mão
fecha a porta que acabei de abrir. Vira minha cabeça de encontro ao
beijo que sua boca me dá antes mesmo de eu falar qualquer coisa. Afasta a alça da minha blusa e
morde meu ombro, saliva. Respira tudo o que imaginava e que
agora tem.
Falta-me voz, falta-me fôlego, e sinto
ainda o mesmo desejo da primeira vez.
Busco o pouco de clareza que resta
quando teu corpo ebule assim, tão perto de mim. É que preciso lembrar que prometi
a mim mesma que seria sempre só o beijo, só o desejo, só o momento. Lambo tua
boca e busco com a mão tudo o que poderia estar contido num instante.
Mas é pouco.
No inicio é sempre o desejo, mas
nunca é só isso.
Três segundos ao seu lado são
suficientes para criar raízes, começo a me apaixonar violenta, profunda e imediatamente.
Finjo que não, e deixo a noite
acontecer.
Deveria ser só bom, mas nasce uma
falta no lugar do beijo.
E só o que enxergo é um provável
buraco, grande e fundo.
Acho que não sei lidar com tão pouca
permanência.
Sou das eternidades, e agora tenho passado meus dias tentando não
me apaixonar. É.
Tento diariamente não amar você.
Solange Maia
sexta-feira, 11 de julho de 2014
para ele, o mesmo mantra de sempre...
Ele não vai embora. Tampouco fica.
Anda cheio de ressentimentos e faz um
esforço danado para entender onde foi que as coisas pararam de acontecer.
E, de tanto tentar entender, tem vivido
virado para trás. Investe seu tempo juntando cacos e fazendo colagens com os
pedaços dessa história que já acabou.
A tristeza tem dessas coisas... faz acreditar
em mentiras bonitas, promessas que nem sempre foram feitas, e nos põe agarrados
a qualquer noticia que alimente nossa esperança. Tudo tão pouco, tudo tão quase
nada.
A tristeza é honesta, você diria, e eu
sei. É fratura exposta.
O perigo é acostumar-se com ela.
Mas o fato é que você nunca está aqui. Não no agora.
Ergue o cálice, mas não faz o brinde.
Oras...
Penso em Sérgio Godinho, que disse com razão, que a vida é feita de pequenos nadas.
Chego perto do seu ouvido e sussurro o
mesmo mantra de sempre :
- Chega de choramingos ! Perfume-se com
um novo cheiro, mergulhe nu, faça uma batida de fruta do mato, fotografe
paisagens, deixe a barba crescer, acredite quando ouvir um elogio, caminhe descalço,
compre discos novos, beije como se tivesse 20 anos, compre uma cueca nova, e
linda, veja um filme bom, escreva um poema num guardanapo, descanse numa rede, dance
pela casa, coma risoto de limão siciliano, faça uma tatuagem...
Cometa pequenos nadas!
Afinal, posso jurar que foi pra isso que Deus
criou o Universo !
Solange Maia
terça-feira, 1 de julho de 2014
o que eu queria tanto te dar...
Um sentimento que sobrevivia sempre a
pequenos abandonos e à espera do momento perfeito.
Mas um desejo maciço teimava em crescer
dentro da gente.
Estava cansada do niilismo inumano da
ausência.
É que às vezes parecia que o amor queria
ser notado.
Dessas noites em que se deve deixar a
cabeça de lado e dar ouvidos só ao coração.
Afinal, não se pode acostumar com a
renúncia.
Abri a porta sabendo que depois daqueles
segundos tímidos meu corpo começaria a falar por mim, por nós, e por todos
aqueles anos permeando o vale quente e silencioso de um possível vir a ser.
Tínhamos os versos, eu sei, mas o melhor
de mim era o que estava escondido por trás deles, e que eu queria tanto te dar. Talvez
por isso a noite tenha sido tão linda, tão de verdade...
Fui. Para que fôssemos.
E fomos.
Esses momentos têm essa generosidade... a
de nos permitir ‘ser’. Momentos que nunca vou me esquecer.
Nosso desejo, finalmente, virou a boca
acolhida no beijo.
Solange Maia
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