sábado, 29 de outubro de 2016
essa mulher não quis mais...
Sim, ela está acima do peso; O cabelo precisando de um corte, e a roupa meio fora de 'moda'.
Mas você já parou para conversar com ela? Sabe do que o abraço dela é capaz? Ela já te contou as coisas que viveu? Já sentiu o calor de sua mão, ou foi olhado demoradamente por ela?
Se não, você não sabe nada.
Não sabe o que pode estar perdendo.
Para ela, o único padrão aceito é aquele que a deixa feliz. Investe seu tempo em ser um ser humano melhor. Sabe tocar um coração e faz com os quilinhos extra o que bem entende!
Ela escolheu ser linda, exatamente como é.
Essa mulher representa milhares de nós. Afinal, atravessamos gerações de silêncios e de opressão, e ainda somos reféns de padrões e de modelos.
Até que algumas se cansam. Negam-se a continuar.
Como ela.
Ela não está mais disposta a isso.
Esta mulher não quis mais.
Ela gosta do seu corpo, das suas cicatrizes, das marcas de expressão, da vida impressa em seu rosto, dos eventuais cabelos brancos, e dessa liberdade conquistada a duras penas.
Essa mulher pode, e vai, ser sempre o que ela quiser!
Solange Maia
domingo, 25 de setembro de 2016
Lá no Fim da Infância
Um desejo narcísico e vaidoso o levou até onde estava. Era
tido como uma das principais referências entre os grandes executivos do país.
Caçula de uma família de cinco irmãos, doce e sorridente,
até perceber que nunca era visto. Não como alguém merece ser visto, com
vagareza.
Todos o conheciam por Duda, mas seu nome era Pedro. Duda, na
verdade, era o irmão mais velho, de quem herdara o guarda-roupa, e a identidade
por consequência, tamanha a distração dos que o cercavam.
Sempre confundido com Duda, e cansado de tentar explicar,
resignou-se.
Sufocado por esse anonimato doloroso, um dia, lá no fim da
infância, decidiu que tudo seria diferente. Encontraria seu espaço, fosse qual
fosse o preço a pagar.
Focado, logo se tornou Petrus, o melhor no que fazia. Mérito
exclusivo dele. Soube percorrer com precisão a estrada até lá.
Mas nele, uma porção de sonhos ficava escondida atrás do
olhar, quase sempre, à deriva.
Investia grande esforço para controlar variáveis
incontroláveis. Perfeccionista ao extremo, dizia a ele mesmo, o tempo todo,
onde devia chegar. E, de alguma forma, sempre chegava. Então, boa parte dele
enchia-se de orgulho. Mas a outra parte, poucos sabiam, morria.
Morria porque estava exausto de fazer o que não amava, e, em
dias assim, nem percebia, mas estampava no rosto uma austeridade assustadora,
que o envelhecia muito. Nessas horas não era nem Pedro, nem Petrus. Tampouco
era Duda. Era só um vazio, um oco, um eco.
Eram dias que viraram semanas, meses, anos, até que
desaprendeu a sorrir.
Acumulava recompensas que não queria. Tinha motivos pelos
quais muita gente se orgulharia, mas ele não. No final do dia, sempre sozinho e
exaurido, na frente do espelho, seu semblante não mentia: tinha quase nada por
dentro.
Muitas camadas por fora, sobrepostas umas às outras, mas
elas não escondiam o menino que havia sido um dia. Não para ele.
Ninguém abandona a infância de onde veio, nem o menino que
um dia foi.
Petrus, em noites assim, sentia saudades do Duda que, sem
ser, havia sido.
Quando menino, sofria de alguma invisibilidade, mas sabia
sorrir.
Sim, sabia sorrir.
Solange Maia
Este é um dos 22 contos do nosso livro "Histórias que
os Rostos Contam"... o único que vamos publicar.
A história foi inspirada no rosto de Antônio, personagem que
tem uma história de vida incrível. Foi motorista de noiva, Gerente de
Telemarketing, teve carros e imóveis, mas depois de perder 3 filhos, teve uma
depressão profunda que só curou no meio da natureza. Virou jardineiro!...
Quer saber mais?
Quer ler outras tantas histórias lindas, que falam de amor,
de saudade, de coragem, de medo, de vergonha, de orgulho?
Estarão no livro, que será publicado em Novembro.
terça-feira, 13 de setembro de 2016
ele queria uma mulher que tivesse fome...
O corpo e o rosto pareciam esculpidos por Philippe Faraut.
Falava quatro idiomas, conhecia o mundo, portava-se com elegância, e perdoava tudo.
Olhou pra ela, ali, deslumbrante... mas ausente.
Apagada dentro dele.
E assim percebeu seu imenso cansaço.
Sentiu que não queria mais mulheres ótimas.
Estava cansado de Helenas.
Sempre encantadoras, boas de conversa, inteligentes, magras, perfeitinhas. Mas tudo nelas parecia atenuado, impassível até, se ousasse definir. Faltavam-lhes cores. Graça.
Boas para desfilar por ai, mas geralmente ilegíveis. E, quase sempre, ilegítimas.
Andava tendo pensamentos infinitamente miseráveis, sentia fome de crueza.
Queria alguém de verdade, que viesse com todas as emoções humanas, porque perdas e fracassos, além de inevitáveis, eram o tempero que andava lhe faltando.
Alguém que se divertisse com os próprios erros, que o fizesse sentir, pelo menos de vez em quando, que era ele o cara especial, o homem incrível.
Queria alguém que tivesse fome, que pedisse pizza, que escolhesse sabores que nunca tenham experimentado, que propusesse lugares triviais, fora do jetset, que não fosse previsível. Alguém que atravessasse o rio, que desejasse o outro lado, que conversasse com estranhos, que esquecesse vírgulas, que gostasse de prazeres sofisticadamente mundanos.
Uma mulher de excessos, ardente, intensa, curvilínea, com cheiro de pele, cabelo de ventania e olhos estrábicos.
Helena era incrível.
Mas era uma ausência.
Tinha certeza que se ela fosse menos, teria durado mais.
Solange Maia
domingo, 4 de setembro de 2016
sorte bonita e gratidão...
Escrever o "Histórias que os Rostos Contam" foi um presente cujo valor não consigo mensurar.
Saímos às ruas em busca de rostos interessantes (e quais não são?) que nos inspirassem a escrever contos. E escrevemos. Foi uma delícia. Rostos são jardins secretos...
Pessoas, nunca antes vistas, sentiram-se tocadas. Todas. Abordadas por estranhos, que éramos nós, abriram seus corações sem resistência, e, além de emprestarem suas imagens para que pudéssemos falar de saudades, de coragens, de vazios, de amores, ainda nos presentearam contando suas histórias. Ah.... e que histórias.... tão tocantes, tão comoventes. Sorte, sorte, sorte. Que lindo, meu Deus. Tanta sinceridade sendo acolhida por nosso amor maior. Tanta confiança, tanta ternura... e estão todas lá, no livro lindo que acabamos de escrever.
Parece inacreditável, mas tem acrobata que dá aulas de gramática para poder voar. Tem quem more na rua, mas que já foi jardineiro de presidente da república. Tem que sonhe com a volta de um pai que não aparece há mais de 50 anos. Tem quem escreva histórias para crianças cegas. Tem uma lindeza que está gravemente doente, mas é dona do melhor sorriso do mundo. Tem quem sonha com um grande amor. Tem ele. Tem ela, Tenho eu. Tem você...
Estamos todos lá, naquelas páginas...
Todos lá.
Porque depois de um tempo, a história do outro, nos atinge emocionalmente, é um espelho, não olhamos mais para ela como sendo a vida do outro, nossos olhos ficam voltados para nós mesmos, é a nós que estamos vendo.
É a nós...
Saímos às ruas em busca de rostos interessantes (e quais não são?) que nos inspirassem a escrever contos. E escrevemos. Foi uma delícia. Rostos são jardins secretos...
Pessoas, nunca antes vistas, sentiram-se tocadas. Todas. Abordadas por estranhos, que éramos nós, abriram seus corações sem resistência, e, além de emprestarem suas imagens para que pudéssemos falar de saudades, de coragens, de vazios, de amores, ainda nos presentearam contando suas histórias. Ah.... e que histórias.... tão tocantes, tão comoventes. Sorte, sorte, sorte. Que lindo, meu Deus. Tanta sinceridade sendo acolhida por nosso amor maior. Tanta confiança, tanta ternura... e estão todas lá, no livro lindo que acabamos de escrever.
Parece inacreditável, mas tem acrobata que dá aulas de gramática para poder voar. Tem quem more na rua, mas que já foi jardineiro de presidente da república. Tem que sonhe com a volta de um pai que não aparece há mais de 50 anos. Tem quem escreva histórias para crianças cegas. Tem uma lindeza que está gravemente doente, mas é dona do melhor sorriso do mundo. Tem quem sonha com um grande amor. Tem ele. Tem ela, Tenho eu. Tem você...
Estamos todos lá, naquelas páginas...
Todos lá.
Porque depois de um tempo, a história do outro, nos atinge emocionalmente, é um espelho, não olhamos mais para ela como sendo a vida do outro, nossos olhos ficam voltados para nós mesmos, é a nós que estamos vendo.
É a nós...
Solange Maia
quinta-feira, 1 de setembro de 2016
R$ 50,00 por um livro precioso....
Deutério, Tarsila e André são mais 3 personsagens do "Histórias que os Rostos Contam".
O livro já está pronto!
Em novembro, você o terá em mãos. Só falta o 22º rosto, que pode ser o seu!
Comprando agora, na pré-venda, você ganha um desconto de 16%, terá seu nome nos agradecimentos do livro, recebe alguns "mimos" e nos ajuda a imprimir mais exemplares!
Confira em http://bit.do/rostoscontam.
Saiba mais em www.historiasqueosrostoscontam.com.br.
terça-feira, 30 de agosto de 2016
domingo, 28 de agosto de 2016
quinta-feira, 25 de agosto de 2016
Finalmente, O LIVRO !!!
"Histórias que os Rostos Contam" é um livro delicado, de capa dura, com belas fotografias, que traz histórias de 22 personagens, inspiradas em fotografias de pessoas reais. Um convite a olhar o outro. E a si mesmo.
Dá lá uma conferida. E, se gostar, o livro já está em pré-venda, no Kickante:http://www.kickante.com.br/…/livro-historias-que-os-rostos-…
Ah! E estamos procurando o 22º (e último) rosto do livro! Ajude-nos a encontrar! Mais informações estão no site http://www.historiasqueosrostoscontam.com.br e na página do Face (https://www.facebook.com/Hist%C3%B3rias-que-os-Rostos-Conta…)
Beijos a todos!
Dá lá uma conferida. E, se gostar, o livro já está em pré-venda, no Kickante:http://www.kickante.com.br/…/livro-historias-que-os-rostos-…
Ah! E estamos procurando o 22º (e último) rosto do livro! Ajude-nos a encontrar! Mais informações estão no site http://www.historiasqueosrostoscontam.com.br e na página do Face (https://www.facebook.com/Hist%C3%B3rias-que-os-Rostos-Conta…)
Beijos a todos!
Solange Maia
terça-feira, 23 de agosto de 2016
ele não precisa ter rosto...
Dizem que são como talismãs
que conferem proteção a quem os toca.
Que são veículos para outros
mundos, que invocam espíritos e curam...
O
silêncio do Red Rock State Park, em Sedona,
era entrecortado pelo barulho quase imperceptível da água correndo suavemente
por seus canyons vermelhos e suas encostas quase verticais, marcando o compasso
da terra, um ritmo que parecia ser o do mundo. O cenário era deslumbrante.
Já
teria bastado.
Mas
a vida, surpreendente como é, quis mais.
Algo acontece no silêncio.
Um tum-tum-tum vindo da
floresta, do rio.
Um
tum-tum-tum-tum-tum-tum-tum-tum-tum difuso, contínuo e sucessivo.
Era um tambor, eu sabia, mas qual tambor ?
E... vinha de onde ?
Caminhei em direção ao som até que finalmente vi aquele homem.
Meu coração se oculta nas sombras, entre as folhagens na beira do rio.
Fiquei ali um tempo longo e
indefinido, de cócoras, não querendo ser vista, com medo de que, sendo, ele
saísse daquele estado emocional mágico e todo o Universo se desfizesse.
Era um homem maduro, grande,
forte, parecia estar ali sem estar.
O rosto escondido pelo tambor
xamanico me permitia somente a sombra de seus contornos.
Bastava.
Tudo foi ficando disperso a
minha volta. Sentia só a gravidade, o cheiro da terra, e um pertencer nunca
antes vivenciado.
Experiências assim devem ser respeitadas.
Pretendo seguir sem nunca saber que você é.
Mas te agradeço, porque tua viagem me levou contigo.
Felizmente existem os canyons.
E essa saudade é um infinito inteiro dentro de mim.
Solange Maia
(Fotografia tirada em 'Red Rock State Park', em Sedona, Arizona, em 03/10/2015)
terça-feira, 9 de agosto de 2016
Monumentalidade...
Adriana é sólida, majestosa, feita de linhas retas.
Rafael sorri jocoso, imponente, altivo, sem nunca perder a doçura.
São dois.
Mas só até que toque a primeira nota e deem o primeiro passo.
Nessas horas não se sabe se dançam ou se levitam.
Se são dois, ou se são muitos.
Deslizam por terras vulcânicas feitas de fogo e vento, desafiando a vertigem, domando os músculos e o ar.
Dançam com generosidade. Emprestam vida e história a cada movimento.
São autores e intérpretes, um casal. E têm a beleza desolada de quem busca o outro só para depois poder partir.
Perdem-se só para depois poder se achar.
O espaço que existe entre eles é denso, tangível, tocável.
Forjam ouro, esculpem pedra, talham madeira, escrevem poesia.
Cometem explosões de dureza que se transformam em mãos macias, que deslizam sinuosas pelo outro, movimentos sincronizados de curvatura precisa, perfeitos.
Viram música, segredos, rasgos, sulcos.
Contam histórias de desejos e preliminares úmidas.
Uma grande obra feita de pequenos movimentos. Minúsculos detalhes com a grandeza das catedrais.
Contam histórias de desejos e preliminares úmidas.
Uma grande obra feita de pequenos movimentos. Minúsculos detalhes com a grandeza das catedrais.
São fluidos, orgânicos, imensos.
Seus corpos cheios de possibilidades desafiam o ar, mesmo sabendo que não podem fazê-lo. Fundem-se a ele, o respeitam como mestre, como amigo. Cometem a entrega.
Abandonam-se.
Abandonam-se.
Têm esse dom... o da monumentalidade.
Firmes sobre seus pés, morrem a cada passo, mas surgem generosos no passo seguinte.
Um presente que não temos como agradecer.
Com eles aprendi que dançar é uma ressurreição.
Solange Maia
para Adriana Galvão e Rafael Dutra... meus professores de dança
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