terça-feira, 23 de abril de 2013
das palavras que não têm medo de fracassar...
Sonhava com o dia em que o amor lhe sairia pela boca usando palavras
que não tem medo de fracassar.
E com a liberdade absurda que isso a faria sentir.
Sabia de uma ternura que viria junto com essa franqueza inesperada
e desconcertante, e que só isso seria capaz de redimir todas as pequenas
covardias cometidas porque ela nunca tinha atravessado a fresta estreita das hesitações.
Precisava de uma coragem grande,
e dele só um pequeno sorriso, mas daqueles que não desperdiçam
nada.
Era na miudeza que ela queria ser feliz.
domingo, 21 de abril de 2013
ela teve medo...
O moço na frente dela estava triste. Ela queria ter perguntado
o que tinha acontecido, e dizer a ele que essas coisas passam, e que não sabia
explicar exatamente como, mas tinha certeza que dias melhores viriam. Sentiu
por ele um bem querer robusto, embora delicado. Queria ter lhe estendido às
mãos, mostrar que não estava sozinho, e também ter contado da vida dela. Queria
o ter acolhido, ter cozinhado pra ele, feito daquela noite um refúgio íntimo e
confortável...
Mas não fez nada disso.
Teve 'medo'.
É que diante dele sentia uma fragilidade de vidro.
Uma transparência absurda.
Eram tão parecidos que nunca sabia ao certo se aquela era a história dele, ou a dela.
terça-feira, 16 de abril de 2013
desligo a razão...
Entrego-me ao meu
desejo de maneira orgânica e celular.
São horas em que
não sei o que a minha cabeça pensa. Desligo a razão. Esqueço as alegorias
que complicam tanto o bem querer. Sou primitiva,
sou só tato e olfato.
Sou permissiva, viro apetite, viro banquete.
Abandono qualquer
gesto que
possa sacrificar a naturalidade do instante.
Não penso.
Não penso.
Viro só essa vontade
honesta e esse desejo sólido.
Viro verdade.
Talvez exista,
mas não conheço forma
mais generosa de amar.
sábado, 13 de abril de 2013
do dia em que ganhei Júpiter...
É isso mesmo.
Júpiter, o maior planeta do Sistema Solar, agora é meu. Minha filha me deu.
Tínhamos acabado de
almoçar quando ela colocou sobre a mesa um pacote colorido. Olhou-me com aquele
olhar que nunca mente, e, como sempre faz, esperou um movimento, minúsculo que
fosse, de preferência no canto do meu sorriso, para que sentisse legitimado o
seu gesto.
– Abre mamãe, é o
teu presente.
Dentro do pacote
colorido tinha um saquinho de seda e uma bolinha de ping-pong. A bolinha foi um
recurso que criamos pra facilitar os estudos lá da escola... Sorri quando a vi, sorri ainda mais quando li que nela estava escrito Júpiter. Eu sabia que você sabia que ele era o planeta 'grandão', o maior de todos...
Entendi o recado.
Ela me deu a MEDIDA
do seu amor.
Assim, sem precisar
de mais explicações.
Porque,
intuitivamente, ela já sabe que tudo que é honesto, é conciso.
Guardei Júpiter naquele
lugar misterioso dentro da gente, onde moram os ‘faz de conta’, onde não conseguimos
(e nem queremos) definir o que é exatamente real, e o que não é.
Tá ali, pertinho da Fada
dos Dentes e do Papai Noel.
quinta-feira, 11 de abril de 2013
envelhecer é pra quem merece...
Desaprendi o tempo.
Existem anos que a gente nem sente,
noites que duram eternidades, centésimos de segundo que significam uma vida
inteira.
Tudo é movediço. Não existem
verdades absolutas, pessoas absolutas, tempo absoluto.
Viver é desafiar esse relógio
inventado pra encurtar a duração das coisas...
Afinal, envelhecer não é
ruim. Envelhecer é colher, é entender que nunca vamos caber inteiros dentro da
gente, que oportunidades não devem ser perdidas, nem experiências, e nem
afetos, é perceber que todas as vezes que chamarmos sinceramente pelo amor, ele
virá. Envelhecer é aprender que muitas coisas nessa vida já vêm prontas e
lindas, e que não é preciso enfeitá-las. Algumas pessoas são um bom exemplo
disso. Envelhecer é descobrir que nossa casa de verdade, é dentro de alguns
abraços.
Sempre achei que envelhecer é
para quem merece.
Para quem tem fé.
Afinal, o Universo é generoso
e estende a infância até encontrar quem a deseje, e faz isso dia após dia... ignorando
completamente o tempo.
Porque se a gente souber envelhecer, tempo não existe !
Amanhã faço 46 anos. E sou
menina, menina...
sexta-feira, 5 de abril de 2013
sim, eu sou...
Sou
Solange, mas por meu pai teria sido Mara. Filha mais velha, de uma família
quase só de mulheres. Sou de abril, de uma quarta-feira, do entardecer. Sou dos
ventos, sou sinuosa, generosa. Sou gérberas. Sou dos amores intermináveis, dos
afetos, sou colo, sou fogo. Sou saudade, sou sussurro. Sou dos olhos líquidos e
do coração de manteiga. Sou dos discursos entusiasmados ou dos longos
silêncios. Sou mãos, beijos, massagens e carinhos. Sou fotografia, sépias e
ocres. Sou do frio, dos amassos e dos edredons. Sou de velas, de sombras, da
meia luz. Orgulhosa e geniosa. Sou dos sentimentos profundos, de conversa
fácil, de alma entregue. Sou romances e filminhos água com açúcar. Sou Damien
Rice em The Blowers Daughter, sou flower power, sou tatuagem. Irreverente,
curiosa, sou toda olhar. Esmalte vermelho, e nada de batom. Sou mordidas, sou
lambidas. Sou do amor. Sou cama grande, sou Kama Sutra. Banho quente e água
corrente. Sou conforto. Sou de cheiros, de lavandas e baunilhas. Sou Jungle, do
Kenzo. Sou damasco, noz moscada e cream cheese. Sou macadâmia, café quente, e
biscoito recheado. Sou sossego, sou sonhos, sou esperança. Sou Brasil. Sou
noite. Sou móbiles, esculturas e livros de arte. Sou Rodin, Gaudi e Frida
Kahlo. Sou gárgulas. Boa ouvinte, sei ser música, sei ser prosa. Sou trabalho.
Sou pés descalços, sou pés no chão. Sou família, sou mãe. Sou fé.
domingo, 31 de março de 2013
sexo... ou chocolate ?
O chocolate sobre a cama
restabelece o vinculo e propõe pequenos pecados. Desembrulho lentamente
um por um. Tiro delicadamente o alumínio que os envolve. Cuido para que não
derretam ao toque demorado dos meus dedos.
Hesito, mas coloco na tua
boca um pedacinho de cada vez... Sei que este é o instante em que te desestabilizo,
sei que assim faço acordar consciências adormecidas, é quando sinto exalar dos
teus poros tantos desejos, tantos mistérios.
Você já nem sabe
disfarçar,
tua boca produz um dilúvio interno.
E o que era esse apetite
escondido, fica agora ali, esparramado, declarado, sobre o colchão...
Lambo teus
lábios adoçados, e minha voz adota um viés quente e sedutor...
Faço
isso só pra te dizer que agora eu sei.
Sei o
sabor do teu sabor.
sábado, 30 de março de 2013
dos rapsodos...
Dizem que uma grande história começa sempre com um bom silêncio... e os rapsodos sabem usá-lo...
mais até do que as próprias palavras.
Eles, antes de tudo, escutam e
acolhem.
Todo rapsodo põe a mão em concha no ouvido,
assim, virada para trás, é como fazem para escutar o que a história
tem para lhes dizer.
São tecelões que conhecem o murmúrio secular,
desenrolam o novelo mágico das tradições e fiam diante dos ouvintes extasiados
suas palavras de luz. São bordadores de sentimentos que acendem
na gente caminhos sagrados.
Bordam os pontos e os nós com a linha
da imaginação, e, como nos tapetes persas, em suas histórias sempre há
um pequeno erro, um minúsculo defeito, pois a beleza do ‘contar’ se esconde
justamente nas frestas desse mundo imperfeito.
O contador é um
costureiro que tece mandalas com luzinhas de Natal. Engendra palavras tão
naturais que é como se falasse da infância da gente, mesmo que fale de tempos
remotos e desconhecidos. E, se lhe faltar verdade, pouco importa, não lhe falta
beleza. E, neste caso, a
beleza tem mais direitos do que a verdade, assim como o Ilíada é mais importante que a Guerra de Troia, e Helena é mais do que um nome, é um imortal sinônimo de beleza. São histórias que
se tornaram mais importantes do que o fato em si.
Uma boa história
é livre de margens, é feita de camadas superpostas, sucessivas... densas de
encantamento. É menos
literal, mais intuitiva. Flui, acontece. Voa por esse
universo quase onírico, levando as palavras por onde elas bem entendem...
sábado, 23 de março de 2013
menino para sempre...
A vida não mente.
É a gente que nunca se
acostuma com isso.
Em cada pequeno instante, a
lição é a mesma, repetida : há que se aprender a ‘desgarrar’.
Mas hoje não.
Hoje sinto uma falta robusta
e esmagadoramente real,
uma fisgada de dor, uma
saudade de pedra.
Hoje não há saídas, não há
respostas.
Há só o teu sorriso imenso, que, por sorte ou privilégio, não
parte nunca da minha retina.
Então
retomo o fôlego, e lembro que viver
é isso, um hiato no tempo.
Existir não. Existir é outra
coisa.
E você sabe disso.
Eu diria em teu ouvido :
- A morte é inexplicável.
Você certamente responderia :
- A vida também.
em memória de Alessandro Fabrício Nicolau, que nos deixou ontem...
quinta-feira, 21 de março de 2013
fragmento e imensidão...
Ainda custo a entender a eternidade do mar.
Não sei se é porque nele vejo o presente e o
passado comungando tão solidamente, ou se é simplesmente pela fantasia
com que o cubro.
Só sei que diante dele, que é fragmento e
imensidão, lembro-me sempre de quem sou... não do que se pode ver, mas do que é mais duradouro, muito mais honesto, do que é ancestral.
Ali, com os pés perdidos na espuma do mar,
reconheço que não existem certezas, afinal, ninguém pode ser inteiramente fragmento, nem totalmente imensidão.
Abandono-me.
E Deus se faz presente.
Na concha, no céu, naquele mar
muito antigo...
Pode ser só uma maneira de enxergar,
mas diante do mar,
vivo sempre meu milagre particular.
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