domingo, 8 de fevereiro de 2015

de repente, adeus...

Entre minhas pernas, no chão da sala, um amontoado de papéis e fotografias desintegravam-se. Não tinham mais importância alguma. Livrar-me assim, do passado, era uma benção, eu sabia, mas paradoxalmente doía um bocado.
É que houve um tempo em que 'não sentir' parecia a melhor opção.
Mas, olhando de frente e livrando-me de tudo, eu me expunha, sentia. E, sentir mudava tudo.

Tenho aprendido a acolher todas as minhas histórias pregressas, sobretudo aquelas das quais não me orgulho. Aprendi com elas. Reconheço ganhos, e hoje, sei que foram o melhor que pude fazer na época. Mas chega. Não quero mais.
Nem os papéis.
Nem as fotografias.

Ando dolorida, é fato, e quando estamos imersos nesse mar, tentando bravamente não naufragar, parece um tempo que não tem fim.
Mas tem.
Ouvi hoje cedo que são nossas fantasias infantis, também chamadas de medo, que mentem pra nós dizendo que essa dor não acaba.
Mas acaba.

E, de repente, adeus.
Passa.
Purgada a dor, só o que me vêm à cabeça é Cazuza :
porque a partir de agora, só o que quero é "todo o amor que houver nessa vida"...


Solange Maia

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Celeste não pode cair...

Celeste não parava de falar. Ficava assim quando estava nervosa.
Pendurada no galho mais alto daquela árvore decidiu que não mais.
Não iria mais saltar. Não queria cair. Nem sentir vertigens. Nunca, nunca mais.
Ela, a melhor saltadora da cidade, abriu mão de continuar sendo.
Sentiu medo ao perceber que estava suspensa no ar. Abandonou a árvore.
E assim, as próprias dores.
E, quase sem notar, abandonou a si própria.

Certa de estar finalmente longe de qualquer perigo, Celeste relaxou. Seguiu a vida sem nunca mais subir em árvores. Nem ligava para a ausência da vista espetacular que tinha lá de cima, nem do contato com os pássaros que lá se abrigavam ao final da tarde, ou ao vento que lhe desorganizava deliciosamente os cabelos. Celeste não ligava. Não mais. Tinha feito sua escolha. Queria estar num lugar seguro.

20 anos passaram. 
Celeste nem lembrava mais que sabor tinha o medo. Nem tampouco a coragem. Nem o sabor de coisa alguma. Tinha partido dela mesma, mas agarrava-se à idéia de que finalmente vivia uma vida serena. Repetia a todo instante que o que importava era a paz, não a felicidade.

Num belo dia, Celeste caminhando pela cidade, percebeu que falavam dela. Falavam que havia sido uma criança muito bonita, e que atualmente sua palidez escondia qualquer traço do que havia sido. Falavam cheios de interrogações sobre o que poderia ter acontecido. Falavam que antes, embora quase sempre toda esfolada, Celeste tinha cor. E sorria. E era muito mais bonita.
Naquele instante ela se deu conta de que no fundo nunca havia aceitado aquela sentença. Nunca havia, de fato, percebido tal palidez. Silenciou, ficou muito magoada, e ainda mais pálida. Celeste, resignada, soube naquele instante que não queria mais. Lembrou que a vida pedia coragem.
E sentiu uma saudade lancinante de quem já havia sido um dia.

Sim, cair da árvore podia doer.
A vida também podia doer.
Mas Celeste estava cansada demais para continuar.
Cansada demais para não chorar.
Cansada demais para nada fazer.
E, finalmente, desabou.

Caminhou sozinha até a árvore do seu passado, exausta, o corpo todo doendo, tanto tempo, tanto tempo... talvez lhe doesse agora uma vida inteira, uma ausência densa, uma apatia fosca. Talvez fosse só o fim de um ciclo, talvez o tempo de 'desgarrar'. Ela pensava, pensava... talvez fosse medo. 
Sim, talvez fosse só isso : medo.
E medo pertence ao território das ideias, não dos fatos. 

Sem saber ao certo como, Celeste se decidiu. 
Deu um 'fuck off' à tudo e agarrou o galho mais próximo. As mãos firmes. Tirou os pés do chão.
Entregou-se.
Soube naquele instante que não dava pra voltar atrás. 
Entregar-se doía menos do que não viver.
Bem menos.

E Celeste subiu.
De novo pendurada no galho mais alto daquela árvore, percebeu que talvez seu medo tivesse a medida da sua coragem. Talvez menos.
Bem menos.
E fez o que melhor sabia fazer.
Saltou.

Foi no meio do salto, ainda no ar, que percebeu, surpreendentemente, que a vida lhe saltava de volta.
Finalmente.
Era isso !
A vida lhe saltava de volta.
Celeste e a vida ali, mergulhando mais uma vez...
uma na outra.

Solange Maia

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

história ou estória ? ...para meu leitor anônimo

E que fique muito mal explicado.
Não faço força para ser entendido.
Quem faz sentido é soldado...
Mario Quintana

Minha última postagem me ofereceu uma rara oportunidade. A de confessar, como diz meu namorado, que sou muito melhor fotógrafa do que escritora.
Não dou às palavras uma forma manejável, não as limpo. Não estou atrás de prêmios literários.
Escrevo o que sinto, a respeito do que quero. Não sou presa a regras, tendências ou métricas. Sou em primeira pessoa, em segunda, me escondo, sou tantas. Sou metáforas, prosa, poesia, versos, contos e cantos. Sou verdade, e sou mentira.
Escrever me faz sorrir.

Que importância então, poderia ter, saber se o que escrevo são histórias ou estórias ?
Agarro-me humildemente à definição de que a palavra estória não tem respaldo etimológico algum, anda em desuso, e gosto da idéia de que estamos na era da abrangência. Nada deveria ser absoluto, fechado em quadrados, endurecido ou cerceado. Então, sinto muito, mas toda estória é uma história.

Perdoe-me querido leitor, se tem achado que apresento tanta coisa desconexa ou sem sentido. Sinto muito por deixá-lo tão confuso, sem saber se escrevo meus reais sentimentos, aqueles que vêm de dentro, ou se é tudo material literário.
Só o que posso dizer é que é tudo sentimento, então tudo vem de dentro. Este é o material do qual sou feita.
É que, para mim, escrever trata de realidade, mesmo na ficção.
E a verdade, tão absolutamente relativa, deve ser medida por quem a escreve, e também por quem a lê... como naquele dito popular que nos lembra que existem sempre três verdades : a minha, a sua, e a verdadeira.
Não quero eleger nenhuma.
Prefiro continuar livre.

Então, caro leitor, se te incomodo tanto, lamento.
Lamento ainda mais porque diz que não me reconhece.
É que estou amando.
Nem mesmo eu me reconheço mais.

Tenho investido meu tempo em viver.
Perdoe-me mais uma vez, já confessei : sou melhor fotógrafa.
E escrever tem sido isso. 
Só fotografar.
Solange Maia

strip-tease...

Nenhuma vela acesa, nem música do Joe Cocker ou cinta-liga.
O rosto levemente cansado, a maquiagem gasta pelo dia, a luz acesa.
Sem truques de sedução.
Foi assim que aconteceu.

Amar dava um medo danado.
Mas teus olhos foram desabotoando os fios da minha fala.
Fui contando de todas as coisas que, definitivamente, ficavam pequenas diante de ti.
Sei que não gosta que eu fale isso, mas é fato, nenhuma história foi tão grande. Nenhum personagem.
Nossa intimidade descobrindo o último pano que calava o meu corpo. Tudo ali.
E, embora amar desse um medo danado, mesmo assim eu confessava : meu único amor é você. Desde sempre.
Tudo posto.
Tudo seu.

Mas o amor é deliciosamente benigno.
E a vida é curta.
Então vem logo, vem beijar minha boca.
E dane-se todo o resto...

Solange Maia

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

sim, caso com você...

Sim.
Caso, amor.
É claro que caso com você.
E seja como for.
No meio do jardim dos amantes, nas dunas do deserto, numa montanha Celta lá na Escócia, em Annecy no inverno, na Rua das Barcas, num simples quintal, ou casamos no 709, onde nos vimos pela primeira vez.
Em volta de uma fogueira, numa noite de lua cheia, com velas desenhando um caminho, com centenas daquelas lanternas de papel de Jacarta, ou à meia luz na sala onde dançamos quase todas as noites.
Rodeados de amigos, com toda a família, um monte de gente, ou só nós dois, que já é tanto. Tanto.

Caso porque quero passar o resto da vida com você.
Porque nossas almas sentem-se extremamente a vontade desde que nos encontramos.
Caso porque amo seu cheiro espalhado pelas toalhas de banho, pelos travesseiros e na concha da minha mão.
Caso com você porque adoro sussurrar sacanagens no teu ouvido, e receber de volta seu corpo inteiro sobre o meu. Caso porque me deixa lamber teu umbigo, porque queremos tudo, porque nossa cama parece nave, nos levando por tantos caminhos sem nunca nos deixar nublar. 

Caso com você porque quero amar tuas meninas, e cuidar delas como você ama e cuida da minha. Porque quero-as misturadas na nossa cama aos domingos de manhã. Caso porque vou fazer carinho em cada cantinho de cada um de vocês, porque quero assar maçãs no inverno e fazer milk shakes no verão, mas caso principalmente porque pretendo gastar horas ouvindo as histórias de cada um.

Caso com você porque me trouxe de volta a mim, porque me leva pela mão, me lembra que sou fêmea, e sobretudo porque me beija como ninguém.
Caso porque quero dormir com você, porque quero aprender a descansar, e porque nunca, absolutamente nunca, me enjoo de te olhar.
Caso com você porque topou escrever comigo o roteiro de uma peça, porque me ensinou a dançar bolero, porque me deixou afastar os móveis, porque me permitiu colocar outra taça à mesa. Caso porque poderei continuar te fotografando enquanto dorme.

Caso com você porque me faz sentir que ganhamos em Vegas, um Royal Flush. E só 0,0001539% das pessoas sabem o que é isso.
Caso porque você me inspira, porque te admiro, e porque tem um sorriso no canto da boca do qual jamais poderei partir.

Sim, amor, caso com você.

Poderia listar mil motivos, ou mais, mas preste atenção principalmente a este aqui :
Caso com você porque amar nunca, jamais, em hipótese alguma, fez tanto sentido !  

Solange Maia

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

taraguela...

Taraguela.
Acho que é a única palavra errada que restou. 
Ta-ga-re-la, corrijo sorrindo, sem vontade alguma de consertar essa 'meninice' que restou. Tagarela é o que ela é. Menina falante, 'conversadeira', expansiva... mas sabe, sim, sabe ouvir. E adora. Ouve demoradamente. Se interessa pelas histórias, pelas pessoas e pela vida. 
É surpreendente como tem um olhar terno sobre todas as coisas, como sua persuasão é sempre afetiva, como sua fala é a de uma criança, mas tem sempre uma inquietação adulta, uma sede, uma fome...
Bebela quer mais.
É ampla, plural.
Bebela é presente dos céus.
Há 10 anos ta-ra-gue-lan-do doçuras por onde vai.
Feliz aniversário, amor !
Te amo tanto...

Mamãe

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

o cardápio que quero sempre...

Velas, vento, vinho, volúpia... é o cardápio de hoje.
Música, pele, pelo, pedido, abrigo, lençóis, sussurros, silêncios, segredos, bocas, beijos, suspiros. Cama, mesa e chão. Fêmea, fome, fenda, fundo. Respiração, pernas, dorso, nuca e mão. Ninho, névoa, água, gel. Língua, suor, curva, tremor, calor. Frio. Frente. Verso. Poesia. Crua e nua. Olhos, arrepios, close, so, so close... Luz, escuridão, tato, olfato, degustação. Tesão. Amor. Paixão. Delicadeza e palavrão. Repetição.
Tudo. absolutamente tudo.
Dentro. Fora. Dentro.
Tanto, tanto, tanto...
Tudo leve, tudo posto, tudo nosso.
O presente é a gente.
Você me dá sorte !
Também te amo.
Também te como.
Também te devoro.

Solange Maia

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

se Sartre estava certo...

porque eu te amo, MB...
e porque é assim que me sinto livre,
estando ao seu lado.

A menina queria alguém que conduzisse a carruagem.
Queria descansar.
Parar um pouco de tentar ser sempre tão corajosa.
Queria alguém que quisesse as mesmas coisas que ela, e achava que eram coisas tão simples, como alguém que entrelaçasse os dedos aos seus enquanto lhe desse as mãos, alguém que dissesse 'eu quero estar aqui, porque te amo, porque reconheço a imensidão e a raridade do que temos, mas, sobretudo, porque é assim que me sinto livre, estando ao seu lado'.

A menina queria ser cuidada.
Queria não ter que fingir o tempo todo que era forte, muito forte, e madura, muito madura.
A menina era só uma menina.
E torcia para que ele percebesse.
Urgentemente.

É que às vezes a gente sucumbe. Desaba mesmo. Como se todas as bênçãos não segurassem a lágrima gorda que insiste em pesar na pálpebra. Sente medo. E chora. A gente chora as histórias de uma vida inteira. E deseja um colo que dure.
A menina parecia tola, mas Sartre também era.
Se ele estava certo, 'fomos sim, condenados à liberdade'.
E ao peso de poder escolher.
Condenados.

Solange Maia

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

alegria vem por acaso... já dizia Lacan

Já se passaram quase 4 anos desde o dia em que esse cartão postal aí em cima (foto) chegou dentro de um envelope para mim. Nâna Pessoa me enviou. Junto com outros doces mimos. Mal sabia ela que esse sorriso, tão simples e tão surpreendentemente emblemático, seria tão importante pra mim. É que ele, o sorriso (sobretudo o sorriso com o olhar), virou um símbolo, uma brincadeira entre minhas irmãs e eu. É que achamos a menina retratada dona de uma alegria tão ‘de verdade’ que prometemos guardar a imagem e enviar uma para a outra somente no dia em que vivêssemos algum episódio que justificasse uma alegria dessas dentro da gente.
Desde então, ter esse postal enviado ou publicado seria o mesmo que dizer : - Manas, sabem aquela ‘alegria de verdade’ ? A supreendente ? A da menininha do postal ? Pois é, ela está aqui, bem agora, comigo.
E teríamos algo a brindar !

Cumprimos a promessa. A menina do cartão postal ficou guardada esperando tal momento.
Não que não tivéssemos tido alegrias. Tivemos. Muitas. Alegrias cotidianas, pequenos presentes, momentos mágicos, mas confesso, nada que justificasse tirar da gaveta da memória nossa doce menina sorridente.
Até ontem.
Ontem, quando me olhei no espelho escovando os dentes, a menina estava lá. Reconheci na hora.
Meus olhos transbordando uma ‘alegria de verdade’.
E alegrias de verdade são surpreendentemente simples.

Não podem ser metas, porque não são um destino a se chegar, agora eu sei. Escondem-se no caminho, e correr atrás seria o mesmo que correr atrás do vento, ele nunca está lá. Alegria é mistério do instante, é fugaz, pertence ao agora.
E vem por acaso...

Olhei no espelho mais uma vez, já com os dentes escovadas, e era óbvio : estava feliz.

É, Nâna, estou feliz.
Estupidamente feliz.
Como a menina do postal.
E reconheço na minha felicidade o quanto a alegria é poderosa.
Embora sutil e discreta.
Como a poesia que vejo numa maçã.


 Solange Maia

terça-feira, 25 de novembro de 2014

estava tudo lá, amor...

Ando inebriada de vida.
Tudo me encanta, tudo me seduz.
Vejo a mulher que um dia eu fui acordando de manhã, voltando a existir. Abandono pensamentos lineares, rotas de fuga, e me permito ficar vulnerável. Absolutamente. 
Tão difícil, mas tão bom.
Sinto-me viva. Como nunca. E você nem sabe.
Acredito, sem entender.
É o que você chama de fé.
Eu, de amor.
Desejo então, que não me escape mais essa fome.
Que não me roubem mais de mim.
É que ando aproveitando a nossa paz, relaxando todos os meus músculos, atravessando todas as fronteiras. Celebro o desejo. Desculpo a preguiça. E quero continuar inebriada... para que possamos viver eternidades, a despeito de durarem minutos, segundos, ou séculos. Porque é com você que eu quero estar.

Sim, sou grata aos meus caminhos porque eu estava pronta no exato instante em que você cruzou a minha vida.
E grata aos meus olhos que puderam ver faíscas onde sabiam que haveria fogo.
Estava tudo lá, amor.
Antes mesmo da nossa história começar.
Antes mesmo que eu tivesse aberto aquela porta.

Solange Maia