quinta-feira, 12 de abril de 2018

como gosto de acabar meu dia...

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, close-up e atividades ao ar livre
A cada manhã o mundo é outro.
Acordei com 51 anos e, sabendo disso, os números já não têm a menor importância.
Não se pode pretender segurar o tempo uma vez que é ele que me presenteia com tantos encantamentos: Bebela já lê livros inteiros, o cabelo da minha irmã está crescendo, meu amor plantou jasmins comigo, e eles estão florindo, mantenho amigos da infância, faço novos amigos, aprendi a fazer estrogonofe de shimeji e a cantar o Gayatri Mantra sem errar. Vou abandonando meus desassossegos e conquistando uma aceitação dos fatos que é muito tranquilizadora. O chão onde piso faz mais sentido agora. E nunca, nunca desejei tanto a paz.

Tenho algumas tristezas que ainda ontem não estavam aqui, mas vivo, apesar delas. Já aprendi o estrago que palavras ditas no escuro do inverno podem fazer.
Com mais estrada sob os meus pés, percebo que algumas coisas reclamam consistência: gente monocromática me cansa, palavras ácidas revelam muito sobre quem as diz, excluir é um verbo que deveria ser excluído, desamparo é condição, não verbo, mas também não deveria existir. Uma mentira precisa de muitas outras para se sustentar. E, infelizmente, falta muita ternura nesse mundo, e gente com coragem para mudar tudo isso.

Alguns sonhos permanecem suspensos. Os outros realizo nas pequenices dos dias: tenho manjericão no terraço, luzinhas de Natal o ano inteiro, uma lista dos lugares que ainda vou conhecer e uma coleção de palavras e frases que amo: minarete é uma delas, e “Alice tirava o silêncio dos cantos da casa” é outra. Estão entre as minhas preferidas.

Ainda ‘sofro’ de encantamentos, graças a Deus: todas as manhãs me surpreendo com a alvorada e suas cores incríveis, amo ver os pontinhos de poeira brilhando no quarto, na luz que entra pela fresta da janela, são quase vagalumes diurnos. Estradas me fazem sentir uma alegria tola, pudim de caramelo também. Música me comove, ver gente dançando também. O amor renova minha fé. Sempre.

Algumas coisas já sei, aprendi: trocar palavras por gestos. Rezar. Ouvir o sagrado. Agradecer. Sei também das portas que um sorriso abre. Que relações precisam de mãos. E de olhos. Sei escutar e sei acolher. Sei fazer panquecas. Sei que a verdade é absolutamente libertadora, mas que deve ser dita com delicadeza. Sei que a maturidade só vem depois que nos faltam pessoas. E afetos. Que desonestidade é uma questão de caráter. Que longas explicações desejam esconder longas faltas, ou medir milagres usando matemática.
Quero, cada vez mais, estar perto de gente nutritiva, mas hoje, reconheço que distâncias também me socorrem.

Celebro meus 51 anos ciente de que a vida nunca foi fácil, mas sorrio secretamente por dentro, pois nunca, jamais, perdi a doçura.
A cada manhã o mundo é outro. Tudo diferente.
Só uma coisa não muda: preciso acabar os dias com o coração completamente cheio!

Solange Maia

terça-feira, 27 de março de 2018

melhor coisa do mundo...

Eu trabalhando na mesa da sala e Bebela lendo um livro da escola no sofá.

De repente, ela interrompe o silêncio e fala:
- Mamãe, esse livro parece você. Posso ler?

“Era incrível, mas nem a fome conseguia silenciar seu jeito de olhar as coisas. Via verde na terra seca, comida em prato vazio, flores em galhos secos”.

Meus olhos encheram d’água.
É, acho que ela conhece bem a mãe que tem!

(“As Cores da Escuridão” - de Ieda de Oliveira)

sexta-feira, 9 de março de 2018

ela nunca foi um lar...


Ela não queria ficar velha. Conseguiu.
Tinha quase 100 anos e nela não se via o tempo, vivia ao sabor dos seus desejos e conveniências, nascia junto com o sol, todos os dias, e punha-se somente se quisesse.
Construiu suas relações de forma elegante e líquida. Sempre cordial, educada, mas sem entregas reais.
Para ela, o afeto e as longas conversas eram tolices, incômodos, na verdade.

Investia seu tempo na aquisição de conhecimentos acadêmicos, idiomas, culturas, livros, músicas, mas nunca, nunquinha investiu na construção de alianças, nunca em relações duradouras e nutritivas. Nunca se demorou em alguém.
Como desconfiava que o mundo podia ser muito mais do que um conjunto de conhecimentos, construiu defesas emocionais que mais se pareciam com fortes prontos para esvaziar qualquer apreço familiar. Tolices.

Passou a vida estabelecendo prioridades, enfileirando preferências, porém, sempre lhe foi custoso demonstrar seus sentimentos. Faltam-lhe experiências táteis. Faltava-lhe o outro.
Com uma resposta sempre pronta na boca ia gravitando entre suas erudições e suas ausências, metade orgulho, metade falta.

Viveu por conta própria, curando feridas emocionais que eventualmente não pôde evitar, polindo seus afastamentos.
Construiu distâncias.
Agora, secular, torço para que seu patrimônio seja o esquecimento. Torço para que não se sinta tentada a fazer um balanço, para que suas ausências a salvem, para que não se sinta afetada, para que seja seu próprio abrigo.
Tanto esforço para preservar suas convicções, que acabou inconsistente.
Faltou-lhe repertório.
Era uma casa bonita, mas nunca havia sido um lar.

Solange Maia