quinta-feira, 8 de março de 2018

para a mulher da minha vida...

Num mundo de mulheres multitarefas, sobrecarregadas por tantas coisas que devemos saber e fazer, desejo que você entenda que ser mulher não é um posto. Se hoje virou quase uma obrigação termos infindos recursos internos, sermos sempre inovadoras, poderosas, competentes, desejo que descanse. Que, a despeito de tantos estímulos, saiba encontrar paz na simplicidade, nos gestos tímidos, na natureza, nas pessoas delicadas, no plano afetivo.

Desejo que saiba ser gente, filha, antes de ser mulher. Que invista na bondade, no acolhimento, na sensibilidade... É isso que deveríamos comemorar hoje, aliás, hoje e em qualquer outro dia, afinal, num mundo com tanta autossuficiência, onde vagamos entre o pertencimento e a independência, onde pessoas sentem-se atraídas por benefícios, desejo profundamente que para você, sonhos não sejam raros. 
Muito menos o amor.
Feliz hoje, meu amor.

Solange Maia
(08 de março - Dia Internacional da Mulher)

terça-feira, 6 de março de 2018

na casa dos anjos...


Os medos são traidores.
E eu queria tanto sair daquele exílio.
Estendi os braços em silêncio, minhas mãos pedindo ajuda, como quase nunca faço. Fui criada para ser forte, dessas mulheres que estão sempre na linha de frente, que resolvem sozinhas os seus problemas, e que nunca incomodam ninguém.
Mas tenho percebido que essa maneira solitária de lidar com a dor, muitas vezes atrapalha mais do que ajuda.
Não controlo tudo. Tantas coisas que estavam completamente fora dos meus planos aconteceram a despeito de mim.

Ele estendeu as mãos de volta, segurando firme nas minhas.
Sussurrou em meus ouvidos que não se chega ao destino sem enfrentar toda a travessia. Olhou firme e docemente em meus olhos e continuou: - E, filha, não alimente o medo. Nunca. Senti como se um fio de energia percorresse o meu corpo.
Aquele era um lugar sagrado onde eu aprendera a acolher as palavras com muito respeito, sabia que me eram entregues como ferramentas, e que deveriam ser usadas para a manutenção da minha paz e do meu bem-estar.

Naquele lugar mora um mistério, é onde o invisível trabalha, onde o milagre fica escondidinho no profano de propósito, só para que possamos exercitar nosso olhar e nossas intuições. Ali aprendemos que o sagrado permeia a vida da gente o tempo todo, e que existe apenas um caminho: o do coração. O sagrado estará sempre lá, onde o nosso coração estiver.

Ainda segurando minhas mãos, outro par de palavras me foi entregue: abandone o orgulho e aprenda a pedir. E para isso não há atalhos. Peça com fé. É com a fé que o medo, esse terrível instrumento de dominação, se transforma em ferramenta de libertação. O medo fica com medo de quem não tem medo. Essa é a cura. É assim que nascem asas.

Somente depois desse ensinamento ele olhou para mim, beijou a palma das minhas mãos e foi embora.
Também fui, mas, incrivelmente, deixei para trás boa parte das mágoas do meu passado diáfano, deixei também a preocupação imensa com o futuro flutuante e vaporoso, que ainda nem aconteceu. Agora uma sensação de estar mais presente para o que está no presente tem tomado conta de mim.
Me despedi de muitas vulnerabilidades ali, naquela casa de anjos...
E saí grata mais uma vez. Desta, por poder olhar para o medo com menos medo!
E por me permitir pedir... Salve!


 Solange Maia 
(em gratidão ao PS e ao TR)

sábado, 24 de fevereiro de 2018

eu não entendia que aquele era o dia em que você nos deixava...

A imagem pode conter: pessoas sentadas, oceano, céu, atividades ao ar livre e natureza
Talvez eu nunca tenha trabalhado tanto.
Ou talvez sinta isso porque, afinal de contas, agora sou uma mulher de 50 anos.
Ando cansada, e, neste mundo cada vez mais difícil de acompanhar, a falta de tempo para ‘viver’ me incomoda, me incomoda ainda mais quando a vida esfrega na minha cara nossa finitude e nossa fragilidade. Sinto medo.

No dia em que você nos deixou lembro de ter visto a sombra dos jasmins no chão da sala, e sorrido sozinha. Era um dia comum, porém, eu ainda não entendia que aquele era o dia em que você nos deixava.
Que você só pôde chegar até ali. Que era isso. E pouco importava se o jasmim floresceria mais uma vez.

Essas ausências endurecem a mim e ao mundo, nos obrigam a aceitar nossa impotência.
E mesmo cada amigo estando ali, entregando um pedaço da sua história, contando dos teus sorrisos, das tuas últimas conversas, dos teus planos... mesmo assim senti um imenso vazio. Eram lindos, mas eram só fragmentos afetivos da saudade. Você não estava mais ali.

E nesse mundo em que vivemos com a sensação de estarmos sempre à beira de um colapso, só o que me vem à cabeça é que saudade não faz o relógio voltar, aliás, relógios não asseguram nada, a única coisa que garantem é que o tempo se esgota.
Então não devemos ficar presos a nenhum ciclo de promessas: a vida é hoje. Só hoje. E nossa obrigação é 'viver'.

Embora internamente despedaçada, entendo que a morte seja um mistério.
A vida também.
E é o que existe entre elas que ameniza minha dor.
Afinal, tenho certeza que toda lembrança é uma forma de encontro.

Solange Maia



para Tatiana Wooten, Sol Orsini (Suzana) e Beatriz Gaue Lima,
minhas queridas que acabaram de partir, com amor.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

cansaços são passageiros...

Ela estava muito, muito cansada.
Cansada até das coisas que não acontecem. Mas tinha uma vida que pedia socorro para seguir em frente.
E não podia parar, embora desejasse muito poder mergulhar os pés em água florida, e torcer para que esse frescor subisse pelo corpo e pousasse em seu coração que precisava tanto sorrir. Ela precisava de um milagre.
Mas achava que nem acreditava mais neles.
Os milagres sobrenaturais e etéreos tinham ficado tão distantes...

De tão cansada fechou os olhos.
E, de repente, lá estava ela, a mãe solteira, criando seu filho no abandono do pai. E também as mães que são sozinhas mesmo na presença de seus companheiros. Criam seus filhos sabendo que a maternidade perfaz muito mais do que terem seus nomes num registro de nascimento. Sabem que a maternidade pressupõe acolhimento e desdenha absolutamente de documentos. Nem lembram o quanto vivem cansadas. E não percebem, mas enquanto esperam por um milagre, o fazem.

Então era isso, ela pensou, os milagres aconteciam na ação da sua busca.
Aconteciam no caminho.

Viu também o homem pobre e faminto, que tinha a solidão desenhada no olhar, mas quando diante de um naco de pão, sem nem titubear, alimentava com ternura primeiro o seu cão. Ele era outro milagre.
E o Nobel com quase 60 títulos, modesto diante do auditório lotado, falando baixo porque pessoas seguras sabem que não precisam dar autoridade aos seus ensinamentos. Ele compreende até mesmo quem o nega: todas as suas veredas são de paz. Seu despojamento era outro milagre.

Então talvez fosse por isso o seu cansaço, para que ela pudesse reconhecer as importâncias.
Para que voltasse a acreditar.
Para que descobrisse que cansaços são passageiros.
Mas o amor não é.
O amor é o próprio milagre.


Solange Maia

sábado, 13 de janeiro de 2018

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

lamento por isso, minha filha...

Se alguém me pedisse para descrever minha filha, diria que é a menina do sorriso mais iluminado que conheço, que ama pessoas, é falante, inteligente, alegre, tem personalidade firme e de uns tempos para cá tem um humor terrível pela manhã!
Só se a pessoa pedisse eu a descreveria fisicamente. Diria que é morena, com os cabelos longos, pele levemente bronzeada, uns 50kg e maravilhosos 1,72m de altura.
Mas quem a conhece sabe: Bebela é mais do que isso.
Na verdade, todos somos.

É por isso que lamento tanto que um dia desses, na praia, uns garotos a tenham chamado de “Avatar”.
Lamento mais ainda por ela ter corrido ao banheiro para chorar. 
Nem bem fez 13 anos e já foi exposta à crueldade e rigidez dos padrões e das ditaduras.
Estava tudo bem até que alguém começou dizendo que ela devia fazer progressiva no cabelo, que tinha o pé muito grande, que precisava se maquiar, beijar garotos na boca, “chupar a barriga” e fazer beicinho para sair na foto.

Como assim? O que o mundo anda ensinando aos nossos jovens?

Desejo que Bebela seja linda à sua maneira, que esteja de bem com a vida, que transborde delicadeza, que seja justa, curiosa, franca, feliz. 
Não sou hipócrita nem torço para que ela abdique da vaidade, muito pelo contrário, mas torço para que ela possa conhecer e valorizar a outra face da beleza. A que se sente. A que os dedos não alcançam. A que não acaba.

Lembro de Daniela Ospina, mulher de James Rodriguez (jogador do Real Madrid), sendo execrada nas redes sociais por ser “feia” e respondendo calma e elegantemente: “Desculpe-me se não atendo às suas expectativas, mas minha prioridade é atender às minhas”.

Nosso corpo é a realização material da nossa existência.
Toda a nossa trajetória está impressa nele.
Somos um milagre desde o nosso primeiro instante, filha.
Então, bonito é sermos exatamente quem somos.

Ademais, eles nem sabem o que é um Avatar...
Agradeça. Ser chamada assim é um honra, acredite.

Solange Maia

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

tudo que ela queria era o pai deste desenho...

Não foi o cinza do dia. Nem a garoa na vidraça.
Foi a conversa no meio da tarde que exigiu da menina muita coragem. Coragem interna, dessas que a gente precisa ter com a gente mesmo.
Porque era sempre a mesma coisa na hora de falar do pai: ficava em silêncio. Não conseguia.
Um silêncio que guardava uma dor antiga, sabíamos. 
E não era só pelo vazio físico, nem por aquela imensa ausência emocional, mas porque as pessoas desistem do que dói. E ela ficava aflita com isso.
Teve uma hora em que o distanciamento que era tão secretamente temido passou a ser desejado.
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Lembro-me de uma frase do Marcos Bulhões que dizia que “às vezes matamos o amor, mas em legítima defesa”. 
Pois é. 
Ela jamais desistiu do amor, era feita de afetos e de doçura. Desistiu foi de mantê-lo onde não era cuidado.
Fez bem.
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A figura do pai ausente acabou sendo a coisa mais presente que ele deixou.
Mas uma coisa é certa: ninguém escapa de olhar para trás e ver as escolhas que fez.
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A menina queria sim ter tido o pai deste desenho, mas tinha um tesouro ainda maior: olhava pra trás e podia sorrir ao ver as escolhas que fez.
Podia dormir em paz.
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Solange Maia
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(ilustração de Snezhana Soosh)

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

amanhã é segunda-feira e quero ser um pouquinho melhor...

Ontem a noite minha irmã caçula me mandou uma fotografia dela tomando vinho e comendo queijo derretido.
Sozinha.
Perguntei se estava tudo bem, afinal estamos atravessando um momento muito difícil.
Ela respondeu:
- Não quero ser engolida por esta fase. Não quero dar o braço para a tristeza. Pretendo viver a vida da melhor maneira que eu puder.
Engoli seco e fiquei silenciosa.

Sou totalmente passional, em mim todas as células do corpo encolhem diante da dor. Às vezes demoro muito a sarar.
Mas ela estava absolutamente certa.
Sei que nossa mente investe 70% do seu tempo reproduzindo memórias, voltando a passados e criando cenários de “momentos perfeitos” que geram expectativas muito, muito perigosas. Tento driblar isso o tempo todo, afinal, sei também que a gente pode, e deve, “administrar” esses pensamentos.
Sei que as alegrias moram nas ‘pequenices’, e que a felicidade não pode ser uma meta.
Ela é caminho.
E está disponível o tempo todo.

Essa semana foi dura, muito dura, mas as alegrias estavam lá: conheci a ascensorista mais doce do mundo cuidando do elevador lotado do hospital, dormi todas as noites com as pernas entrelaçadas às do meu amor, passei horas com minha irmã do meio, que está doente, inventando um jeito de levar alegrias a uma sala de quimioterapia, estive perto de amigos muito queridos, fui a uma festa surpresa, senti o cheiro de uma bebê linda, vi uma dor desaparecer em 10 minutos, comi panquequinhas chinesas duas horas depois de achar que o mundo estava acabando, tomei chuva, muita chuva, e fiquei deliciosamente encharcada, li mensagens tão amorosas por aqui, achei graça ao constatar que minha filha já usa todos os meus sapatos, achei meu pai lindo de cabelo cortado, sorri ao ver minha mãe bordando com minha irmã camisetas de cura, meu amor fez um jantar pra mim, ganhamos cupcakes e pastel de feira, sentei na guia de uma rua arborizada e chorei no colo da minha irmã...
Conto então, as minhas bênçãos.
E percebo que tem horas que a gente precisa relaxar, 
precisa se desligar um pouco.

Amanhã é segunda-feira e quero ser um pouquinho melhor.

Solange Maia
(escrito em abril.2017)
fotografia "Eu e Bia" - minha irmã do meio

quando todos podemos ser Julia...

Julia já nem sai mais de casa.
Tão machucada, prefere ficar só.
Escondida da vida pensa estar se protegendo dos sofrimentos, mas não. Só o que faz é substituir uma dor por outra.
O peito dói. A solidão devora o tempo. Não há folga.
Já sem energia e muito cansada para buscar soluções novas.

De vez em quando chega a acreditar que não merece algo melhor.
Aceita e se resigna.
E cada vez se fecha mais.

Tem dias em que ela volta às coisas que já viveu e sente uma saudade imensa.
Julia quer de volta a sua vida. Seu sorriso solto, a vontade de namorar, os passeios pela orla, os filminhos do fim de semana, jantar com amigos...
Ela se deu conta de como são grandes as coisas pequenas!

Solange Maia

* - * - * - * - * - *

Julia que tantas vezes fui eu.
Julia que pode ser João. Que pode ser você.

DEPRESSÃO não é tristeza, ‘fase ruim’ ou mi-mi-mi, e não são só os adultos que passam por isso. Esta é uma dor cada vez mais comum, que deve ser tratada por profissionais.

Como uma das idealizadoras do lindo projeto “Nossos Doutores”, te estendo as mãos e te convido a encontrar ajuda.
Vem comigo! Fale-me o seu CEP e vou apresentar um profissional que vai te atender em seu consultório, pertinho de você e por um preço que cabe no seu bolso.
As dores emocionais são invisíveis, mas só a gente sabe o quanto ferem!

Encontre você mesmo: www.nossosdoutores.com.br

Seu PSICÓLOGO, médico, dentista, fonoaudiólogo, nutricionista e fisioterapeuta em + de 90 bairros de SÃO PAULO (e, em breve, em outros estados).