quinta-feira, 30 de março de 2017
dessas Deusas sem cabelo...
para minha irmã Bia
A menina, muito pequenina, era guardiã de um segredo.
Mas há muito tempo não se sabia dela.
Até aquela tarde.
Costumo dizer que a aridez dos desertos parece convidar aos milagres.
E que os Deuses agem nas sutilezas, quase sempre em silêncio.
A primeira tesourada foi acre. Nada parecia justo.
Cortes secos, marciais. Linhas retas.
As mechas longas no chão pareciam querer ensinar àquela mulher o que ela já sabia: a vida tem suas próprias leis.
Ainda faltava um sentido, precisava entender os propósitos.
Engoliu seco, baixou a cabeça e chorou.
Até que, buscando encher os pulmões de ar e de vida, levantou a cabeça mais uma vez.
Foi neste exato instante que o milagre aconteceu.
Era a menina, muito pequenina, que olhava para ela no espelho a sua frente, vinda lá da infância, com seus olhos doces, lembrando-a de coragens ancestrais e mostrando a ela que seu grande patrimônio era a vida.
Demorou o olhar nela mesma. Sorriu. A partir daí, quanto mais os cabelos caiam no chão, mais leve ela se sentia. Seu corpo, agora, parecia envolvido por uma espiral de luz.
Sentiu-se majestosa. Percebeu-se incansável.
Estava pronta.
Podia ser, a qualquer momento, mais uma dessas Deusas sem cabelo...
Solange Maia
terça-feira, 21 de fevereiro de 2017
duas formas de oração...
A vela é só um modo de tornar
visível a nossa fé. sabemos que Deus está ali, e independe dela. Mas, de vez em
quando, a gente precisa "ver" a oração.
Assim como a mulher muda a
cor dos cabelos.
O que menos importa ali é o
tom ou o comprimento. Aquela mulher quer dizer alguma coisa. E, naquele
instante, como se assim fortalecesse o que vem construindo por dentro, ela
precisa "ver" sua transformação. Qualquer que seja ela.
E, assim, reproduz exatamente
o mesmo gesto da vela.
Muda o cabelo,
mas só o que quer é enxergar
a sua oração.
Solange Maia
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017
só uma mulher sabe...
Há
um trançar metafísico, onde quer que eu vá.
E,
cada vez que tentar definir alguma coisa, vou perdê-la num resumo tolo.
Nem
tudo carece de significado.
Trançar
é para sentir.
Não
para entender.
Será que só uma mulher sabe salvar a outra ?
Trançam seus cabelos num ciclo interminável de afeto e vagareza.
Só
para estarem presentes, sem precisar de longas explicações.
Mãos
seculares separando mechas, levando-as de um lado ao outro, sem precisar de
razões. O tempo envelhece lentamente enquanto elas ouvem e contam histórias, enquanto
acolhem solidões e aplacam dias em que não queriam existir.
Mãos
ungindo cabeças, conferindo-lhes de volta dignidades perdidas, consagrando o
fato de serem mulheres, parideiras, companheiras, complexas, amplas, agridoces.
Até mesmo em tempos exaustos cheiram a gengibre e a caramelo.
Trançam
sem descanso.
Morrem
um pouco.
Depois
renascem.
Trançam
hoje, para fazê-lo de novo amanhã. Para lembrar que o amor existe.
Trançam
porque sabem que o vento e o tempo as desfarão.
A
vida segue o rumo que pode.
Sem
permanências.
Mulheres
sabem: sempre haverá tranças por fazer.
Solange Maia
terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
não vale a pena...
Acho
a arrogância um estado solitário.
Custo
a entender porque tanta gente precisa desse subterfúgio.
Pra
mim a soberba é sempre uma denúncia, é feita de uma nobreza que não chega. Tem urgência,
tem pressa, não sabe ficar. E
nem conseguiria, afinal, nela a verdade nunca vem.
A
arrogância é cheia de uma fragilidade que não se esconde, de uma demência, uma
ausência.
Um
modo tolo de atribuir a si um poder que não se tem.
É
prerrogativa de gente que julga que, por ter certa superioridade, seja
hierárquica, intelectual ou econômica, merece mais.
A
arrogância um estado vazio.
E
dura pouco, garanto, afinal é um estado vítreo de estrutura sólida desordenada. Se
você observar bem o arrogante está lá, mas sempre, sem estar.
Solange
Maia
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
de algumas fragilidades...
A
menina era forte, sabida e muito corajosa.
Mas
acordou um dia sentindo medo da solidão.
Não
era medo de escuro ou de fantasmas, embora às vezes os confundisse.
O
medo que sentia era abstrato, muito mais uma sensação.
Sabia
que a solidão era uma coisa diferente de estar sozinha.
Ela
não estava.
Mas
sentia um buraquinho, um vazio, um vento gelado por dentro. E
quase ninguém via... é que muita gente não percebe pedidos de socorro.
Rezava
para que não acontecesse, mas ele vinha.
Era
um velho conhecido, antigo mesmo, desses que sentam sempre na mesma velha
poltrona.
E o
medo sussurrava uma voz de mulher: estou indo embora, e não vou voltar.
Então,
só o que restava era a solidão. Bem grandona.
A
menina ficava triste porque sabia que tudo isso só acontecia dentro dela.
Não
contava para ninguém, mas sabia mais 2 coisas: que o medo era sua alma pedindo
algo, e que tudo isso ia passar.
Só
não sabia ainda o que era...
Nem
quando.
Solange
Maia
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
carta para Bia...
Chegou, mana.
Amanhã você vai dar um passo tão importante que jamais se esquecerá. Vai enfrentar, como já tem feito, uma “dor” que não devia existir, um problema que não foi merecido, que não é justo, mas que está lá. Está lá porque a vida é assim, porque às vezes nos põe à prova, nos leva ao limite, nos apresenta de novo para nós mesmos.
E a gente descobre coragens e forças que nem sabíamos possuir. E se respeita ainda mais.
E nasce de novo. Mais forte e, paradoxalmente, mais suave.
Não tente encontrar explicação. Não há.
O que vai encontrar é outro tipo de riqueza: são estes anjos que a tem acompanhado, esses encontros mágicos, esta lista de milagres que construiu e que tem compartilhado com quem ama.
E mais, o principal, terá muito, muito, muito respeito pela vida.
Amanhã, se tiver um tempo, deitada no hospital, pense em Chiang Mai.
Chiang Mai naquelas noites em que milhares de pessoas levam suas lanternas iluminadas para a beira d’água. São noites de muito amor e alegria. Pense na sensação de estar vendo a sua lanterna subindo, se juntando às lanternas das outras pessoas, até que sumam no céu. É um momento mágico em que você percebe que sua lanterna é única e importante, mas que faz parte de um todo, e que juntos iluminam todo o céu, tornando o lugar ainda mais bonito... ou seja, é a sua luz individual fazendo parte do coletivo universal...
Amanhã estaremos assim, Bia, cada um dos seus amigos e dos seus amores com sua lanterna, nos lugares mais diferentes, te enviando a melhor de nossas energias, e faremos tanta luz, tanta, que no instante em que estiver sendo operada haverá um céu iluminado e lotado de amor.
Em Chiang Mai comemora-se a vida, o amor e a gratidão.
No Sírio Libanês também.
Prometo um dia te levar lá...
Te amo. Vai com Deus e volta logo.
Amanhã você vai dar um passo tão importante que jamais se esquecerá. Vai enfrentar, como já tem feito, uma “dor” que não devia existir, um problema que não foi merecido, que não é justo, mas que está lá. Está lá porque a vida é assim, porque às vezes nos põe à prova, nos leva ao limite, nos apresenta de novo para nós mesmos.
E a gente descobre coragens e forças que nem sabíamos possuir. E se respeita ainda mais.
E nasce de novo. Mais forte e, paradoxalmente, mais suave.
Não tente encontrar explicação. Não há.
O que vai encontrar é outro tipo de riqueza: são estes anjos que a tem acompanhado, esses encontros mágicos, esta lista de milagres que construiu e que tem compartilhado com quem ama.
E mais, o principal, terá muito, muito, muito respeito pela vida.
Amanhã, se tiver um tempo, deitada no hospital, pense em Chiang Mai.
Chiang Mai naquelas noites em que milhares de pessoas levam suas lanternas iluminadas para a beira d’água. São noites de muito amor e alegria. Pense na sensação de estar vendo a sua lanterna subindo, se juntando às lanternas das outras pessoas, até que sumam no céu. É um momento mágico em que você percebe que sua lanterna é única e importante, mas que faz parte de um todo, e que juntos iluminam todo o céu, tornando o lugar ainda mais bonito... ou seja, é a sua luz individual fazendo parte do coletivo universal...
Amanhã estaremos assim, Bia, cada um dos seus amigos e dos seus amores com sua lanterna, nos lugares mais diferentes, te enviando a melhor de nossas energias, e faremos tanta luz, tanta, que no instante em que estiver sendo operada haverá um céu iluminado e lotado de amor.
Em Chiang Mai comemora-se a vida, o amor e a gratidão.
No Sírio Libanês também.
Prometo um dia te levar lá...
Te amo. Vai com Deus e volta logo.
Estou te esperando.
Soli
Soli
quinta-feira, 19 de janeiro de 2017
fome é outra coisa...
Quando ele cozinhava, era imagem icônica,
quase esfinge.
Algumas vezes era ele mesmo, em outras não
era ninguém.
Seu compromisso nunca havia sido com a nutrição,
era o desejo que o seduzia.
Nada acrescentava sem antes envolver no
côncavo de suas mãos. Precisava sentir a textura, a forma, a temperatura.
Era um alquimista sensorial. Fazia de seu
ofício um despertar de sensações.
Depurava, reduzia, misturava. Ultrapassava o
paladar.
Sua pretensão era provocar espasmos, encantamentos,
fragmentar a respiração, parar o tempo.
Sabia que o segredo era avivar os sentidos. Devolver
prazeres tão esquecidos.
Aplacar a fome era consequência.
Todas elas.
Pertencia às pessoas e precisava quase nada
além disso.
Era bruxo, holístico, e cozinhar era sempre
encurtar o caminho até o outro.
Longe de ser cartesiano, fazia do seu ofício sempre
uma presença inefável.
Aprendera faz tempo que vontade de comer se
mata fácil, com a boca.
Mas não satisfaz.
Não a ele.
O negócio dele era satisfazer a fome.
E fome, fome é algo bem maior...
Solange Maia
quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
palavras doces não ditas...
Palavras de ordem me causam desinteresse.
Pessoas que
acham que pequenas feridas não doem, também.
Porque as vezes
fica tudo entalado na garganta, num nó que não nos deixa nem falar.
Há uma crença de que teremos sempre tempo para dizer as
palavras doces não ditas.
Até que a gente
descobre que não tem.
E só então percebe
que somos todos passageiros.
Solange Maia
quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
Maria da rua...
Segurava
nas dele com firmeza, criando um elo, um vínculo, sem qualquer hesitação.
E
permanecia nele até que o tempo sumisse.
A dor
não. A dor, ela sabia, ainda estava lá.
O lugar era pequeno, muito pequeno, no rodapé sálvia, alfazema, alecrim e manjericão. Folhas quentes
perfumando o ambiente.
Eram para proteção.
Algumas
velas, ventania só lá fora.
Ali dentro
tudo era densidade e calor.
Maria
ecumênica, que veste branco e tem sempre os pés descalços. Maria
generosa, que faz canjica e que abre as portas de sua casa.
Maria
que é mãe, que é abrigo, que é densa.
Maria
que é doce, que é abraço e que é coragem.
Maria
das dores e das solidões.
Maria
da rua.
Maria
que eu nunca vi, mas sei que é boa.
Maria de fé, do cais e do caos.
Quietude. Até que, de repente, um arfar rompe o silêncio seguido por um choro doído.
Era Maria,
ampla, levando embora aquela dor.
Era sempre
assim. E dava sempre certo.
Ela fazia alguma coisa com as
mãos.
Ave, Maria. Salve tua graça.
E rogai
por nós.
Solange Maia
08/12/2015
08/12/2015
quinta-feira, 15 de dezembro de 2016
então o amor esfria?
Hoje, lá perto de casa, um casal chamou minha atenção. Ele
caminhava muitos passos na frente dela. Havia um vale imenso entre os dois,
qualquer um podia ver. Essa indiferença me entristeceu. Onde foi que isto
aconteceu? Ela tão bonita e ele tão interessante. Em que parte da relação eles
pararam de se desejar? Porque ainda iam juntos ao mercado? E juntos na vida?
Lá dentro, nos cruzamos mais uma vez, ele perguntando se
deviam levar pêssegos ou ameixas, ela erguendo os ombros sem mover os olhos,
como quem diz, sem precisar de palavras, que pouco importava.
Já não havia paladar, nem vontade de experimentar, não diferenciavam
mais os sabores. Um pêssego ou uma ameixa, tanto fazia, já não lembravam mais
do gosto de um, ou do outro, não havia mais mimos ou dengos, não se descascava
a fruta, enfeitava o prato ou aquecia o leite.
Tudo morno.
Mas em algum tempo haviam sido apaixonados, sentiram
ternuras e arrepios, escreveram bilhetes, acariciaram-se, dormiram de
conchinha, contemplaram paisagens no bom silêncio, riram deles mesmos,
encontraram alegrias nas coisas singelas, esperaram o outro para jantar,
tomaram vinho, fizeram planos, passaram perfume, levaram toalha seca na saída
do banho, separaram o travesseiro mais macio para uma noite de sono especial,
levaram café na cama e escreveram recadinhos no espelho do banheiro.
Beijaram-se demoradamente, posso apostar.
Então como viraram aquilo que eu estava vendo?
Não havia mais nem admiração, nem amizade. O sentimento
havia mudado, era evidente. Acreditavam não ter mais idade para febres ou
paixões. Talvez tenham crescido em direções diferentes, talvez tenham
negligenciado a relação, se acomodado na certeza de que as coisas eram assim
para todo mundo e que, o que valeria a partir de agora, era saber que tinham
alguém. E pronto.
Como assim?
A vida pode ser tão melhor...
E o amor precisa (e merece) ser cuidado, estimulado, desejado.
É atemporal. É delicioso.
E dá trabalho! Dá muito trabalho.
Porque morre no descuido, na preguiça, na maldita certeza do
amanhã e, sobretudo, na indiferença branda que muita gente gosta de confundir
com ‘efeitos do tempo’.
Não acredito nisso.
Dê àquele casal novos parceiros... e duvido que ele andasse
tão à frente dela, ou que ela nem respondesse mais às perguntas dele.
O amor é uma das melhores coisas do mundo, mas não aceita
indiferença.
Nela, morre.
Morre.
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