sábado, 13 de janeiro de 2018
sexta-feira, 12 de janeiro de 2018
lamento por isso, minha filha...
Se alguém me pedisse para descrever minha filha, diria que é a menina do sorriso mais iluminado que conheço, que ama pessoas, é falante, inteligente, alegre, tem personalidade firme e de uns tempos para cá tem um humor terrível pela manhã!
Só se a pessoa pedisse eu a descreveria fisicamente. Diria que é morena, com os cabelos longos, pele levemente bronzeada, uns 50kg e maravilhosos 1,72m de altura.
Mas quem a conhece sabe: Bebela é mais do que isso.
Na verdade, todos somos.
É por isso que lamento tanto que um dia desses, na praia, uns garotos a tenham chamado de “Avatar”.
Lamento mais ainda por ela ter corrido ao banheiro para chorar.
Nem bem fez 13 anos e já foi exposta à crueldade e rigidez dos padrões e das ditaduras.
Estava tudo bem até que alguém começou dizendo que ela devia fazer progressiva no cabelo, que tinha o pé muito grande, que precisava se maquiar, beijar garotos na boca, “chupar a barriga” e fazer beicinho para sair na foto.
Como assim? O que o mundo anda ensinando aos nossos jovens?
Desejo que Bebela seja linda à sua maneira, que esteja de bem com a vida, que transborde delicadeza, que seja justa, curiosa, franca, feliz.
Não sou hipócrita nem torço para que ela abdique da vaidade, muito pelo contrário, mas torço para que ela possa conhecer e valorizar a outra face da beleza. A que se sente. A que os dedos não alcançam. A que não acaba.
Lembro de Daniela Ospina, mulher de James Rodriguez (jogador do Real Madrid), sendo execrada nas redes sociais por ser “feia” e respondendo calma e elegantemente: “Desculpe-me se não atendo às suas expectativas, mas minha prioridade é atender às minhas”.
Nosso corpo é a realização material da nossa existência.
Toda a nossa trajetória está impressa nele.
Somos um milagre desde o nosso primeiro instante, filha.
Então, bonito é sermos exatamente quem somos.
Ademais, eles nem sabem o que é um Avatar...
Agradeça. Ser chamada assim é um honra, acredite.
Solange Maia
quinta-feira, 14 de dezembro de 2017
tudo que ela queria era o pai deste desenho...
Não foi o cinza do dia. Nem a garoa na vidraça.
Foi a conversa no meio da tarde que exigiu da menina muita coragem. Coragem interna, dessas que a gente precisa ter com a gente mesmo.
Porque era sempre a mesma coisa na hora de falar do pai: ficava em silêncio. Não conseguia.
Um silêncio que guardava uma dor antiga, sabíamos.
E não era só pelo vazio físico, nem por aquela imensa ausência emocional, mas porque as pessoas desistem do que dói. E ela ficava aflita com isso.
Teve uma hora em que o distanciamento que era tão secretamente temido passou a ser desejado.
.
Lembro-me de uma frase do Marcos Bulhões que dizia que “às vezes matamos o amor, mas em legítima defesa”.
Pois é.
Ela jamais desistiu do amor, era feita de afetos e de doçura. Desistiu foi de mantê-lo onde não era cuidado.
Fez bem.
.
A figura do pai ausente acabou sendo a coisa mais presente que ele deixou.
Mas uma coisa é certa: ninguém escapa de olhar para trás e ver as escolhas que fez.
.
A menina queria sim ter tido o pai deste desenho, mas tinha um tesouro ainda maior: olhava pra trás e podia sorrir ao ver as escolhas que fez.
Podia dormir em paz.
.
Foi a conversa no meio da tarde que exigiu da menina muita coragem. Coragem interna, dessas que a gente precisa ter com a gente mesmo.
Porque era sempre a mesma coisa na hora de falar do pai: ficava em silêncio. Não conseguia.
Um silêncio que guardava uma dor antiga, sabíamos.
E não era só pelo vazio físico, nem por aquela imensa ausência emocional, mas porque as pessoas desistem do que dói. E ela ficava aflita com isso.
Teve uma hora em que o distanciamento que era tão secretamente temido passou a ser desejado.
.
Lembro-me de uma frase do Marcos Bulhões que dizia que “às vezes matamos o amor, mas em legítima defesa”.
Pois é.
Ela jamais desistiu do amor, era feita de afetos e de doçura. Desistiu foi de mantê-lo onde não era cuidado.
Fez bem.
.
A figura do pai ausente acabou sendo a coisa mais presente que ele deixou.
Mas uma coisa é certa: ninguém escapa de olhar para trás e ver as escolhas que fez.
.
A menina queria sim ter tido o pai deste desenho, mas tinha um tesouro ainda maior: olhava pra trás e podia sorrir ao ver as escolhas que fez.
Podia dormir em paz.
.
Solange Maia
.
(ilustração de Snezhana Soosh)
sexta-feira, 8 de dezembro de 2017
amanhã é segunda-feira e quero ser um pouquinho melhor...
Ontem a noite minha irmã
caçula me mandou uma fotografia dela tomando vinho e comendo queijo derretido.
Sozinha.
Perguntei se estava tudo bem,
afinal estamos atravessando um momento muito difícil.
Ela respondeu:
- Não quero ser engolida por
esta fase. Não quero dar o braço para a tristeza. Pretendo viver a vida da melhor
maneira que eu puder.
Engoli seco e fiquei
silenciosa.
Sou totalmente passional, em
mim todas as células do corpo encolhem diante da dor. Às vezes demoro muito a
sarar.
Mas ela estava absolutamente
certa.
Sei que nossa mente investe
70% do seu tempo reproduzindo memórias, voltando a passados e criando cenários
de “momentos perfeitos” que geram expectativas muito, muito perigosas. Tento
driblar isso o tempo todo, afinal, sei também que a gente pode, e deve,
“administrar” esses pensamentos.
Sei que as alegrias moram nas
‘pequenices’, e que a felicidade não pode ser uma meta.
Ela é caminho.
E está disponível o tempo
todo.
Essa semana foi dura, muito
dura, mas as alegrias estavam lá: conheci a ascensorista mais doce do mundo
cuidando do elevador lotado do hospital, dormi todas as noites com as pernas
entrelaçadas às do meu amor, passei horas com minha irmã do meio, que está doente, inventando um
jeito de levar alegrias a uma sala de quimioterapia, estive perto de amigos
muito queridos, fui a uma festa surpresa, senti o cheiro de uma bebê linda, vi
uma dor desaparecer em 10 minutos, comi panquequinhas chinesas duas horas
depois de achar que o mundo estava acabando, tomei chuva, muita chuva, e fiquei
deliciosamente encharcada, li mensagens tão amorosas por aqui, achei graça ao constatar
que minha filha já usa todos os meus sapatos, achei meu pai lindo de cabelo
cortado, sorri ao ver minha mãe bordando com minha irmã camisetas de cura, meu
amor fez um jantar pra mim, ganhamos cupcakes e pastel de feira, sentei na guia
de uma rua arborizada e chorei no colo da minha irmã...
Conto então, as minhas
bênçãos.
E percebo que tem horas que a
gente precisa relaxar,
precisa se desligar um pouco.
Amanhã é segunda-feira e
quero ser um pouquinho melhor.
Solange Maia
(escrito em abril.2017)
fotografia "Eu e Bia" - minha irmã do meio
fotografia "Eu e Bia" - minha irmã do meio
quando todos podemos ser Julia...
Julia já nem sai mais de
casa.
Tão machucada, prefere ficar
só.
Escondida da vida pensa estar
se protegendo dos sofrimentos, mas não. Só o que faz é substituir uma dor por
outra.
O peito dói. A solidão devora
o tempo. Não há folga.
Já sem energia e muito
cansada para buscar soluções novas.
De vez em quando chega a
acreditar que não merece algo melhor.
Aceita e se resigna.
E cada vez se fecha mais.
Tem dias em que ela volta às
coisas que já viveu e sente uma saudade imensa.
Julia quer de volta a sua
vida. Seu sorriso solto, a vontade de namorar, os passeios pela orla, os
filminhos do fim de semana, jantar com amigos...
Ela se deu conta de como são
grandes as coisas pequenas!
Solange Maia
* - * - * - * - * - *
Julia que tantas vezes fui
eu.
Julia que pode ser João. Que
pode ser você.
DEPRESSÃO não é tristeza,
‘fase ruim’ ou mi-mi-mi, e não são só os adultos que passam por isso. Esta é
uma dor cada vez mais comum, que deve ser tratada por profissionais.
Como uma das idealizadoras do
lindo projeto “Nossos Doutores”, te estendo as mãos e te convido a encontrar
ajuda.
Vem comigo! Fale-me o seu CEP
e vou apresentar um profissional que vai te atender em seu consultório,
pertinho de você e por um preço que cabe no seu bolso.
As dores emocionais são
invisíveis, mas só a gente sabe o quanto ferem!
Encontre você mesmo:
www.nossosdoutores.com.br
Seu PSICÓLOGO, médico,
dentista, fonoaudiólogo, nutricionista e fisioterapeuta em + de 90 bairros de
SÃO PAULO (e, em breve, em outros estados).
terça-feira, 7 de novembro de 2017
Como medir a morte? Medindo a vida!
Em dois minutos estava acolhida em meu peito, quietinha.
Cabelos cheirosos e a pele feita de delicadezas como só as
meninas daquela idade têm.
Tínhamos um pequeno deserto a atravessar, mas houve tempo para
que ela escolhesse begônias. Vermelhas.
Escolheu as flores intuitivamente, sem que soubesse que representam
lealdade e afeto.
O domingo amanheceu ensolarado e frio, o lugar era singelo e
não havia nada por toda parte, no entanto a ausência da mãe preenchia tudo. A
morte sempre me faz pensar. Sua irreversibilidade é perturbadora.
Mas ali, com a pequena, seu pai, uma antiga professora e nós
dois, só o que vinha à minha cabeça era a vida.
Era a vida que devíamos contabilizar.
Percebo que tiveram grandes momentos, fizeram bons amigos, deram
e tiveram colo, encontros surpreendentes, família à mesa, confessaram segredos,
descobriram coisas juntas e, com certeza, riram a beça! Esta era a mãe da menina,
a mãe da qual ela jamais vai partir.
Peço a Deus, portanto, que os pensamentos dela guardem essas
alegrias, e que, quase nunca, quase nunca mesmo, ela pense na vida
potencialmente perdida.
A despedida é sempre dura, eu sei, mas que tenhamos sabedoria
para perceber que ela é somente uma camada externa dolorida, mas muito fina,
que recobre temporariamente toda a imensidão de vida que houve por trás
daqueles poucos instantes como os que vivemos hoje cedo.
Às vezes, a vida pode estar
reduzida em relação ao que esperamos em termo de longevidade, mas como dizia
Ronaldo Cunha Lima, “ela deve
ser medida pela largura, nunca pelo comprimento”.
Ainda em silêncio demos as mãos e deixamos a morte de lado. O
que celebramos ali, com as begônias vermelhas, foi a vida. A vida que ela teve,
e a que a pequena menina ainda terá!
Sussurrei no ouvido dela que desejos de mãe são sagrados e
que tem muita força.
Ela sorriu e entendeu que tudo o que a mãe desejaria é que
ela sentisse que a vida começava mais uma vez ali, exatamente naquele momento.
E que, certamente, ela será uma menina muito, muito feliz.
Solange Maia
sexta-feira, 3 de novembro de 2017
não preciso mais...
50 anos e começo a sentir preguiça de gente que rebusca as
palavras.
Fazem-me lembrar de um professor de Penal: embora mestre em eloquência
e em brocardos jurídicos, seu estado era sempre o mesmo: in absentia. Toc-toc? Não adiantava, não tinha ninguém.
Bons em discursos e em conversas solenes. Polidos, vaidosos,
gostam mesmo é de se sentir ‘engajados’ nesta ou naquela causa. Falam, falam,
falam. Sentem-se grandiosos, mas só o que vejo é um enorme vazio.
Estranhamente aprendo o silêncio com eles.
Minha alma quer ter tempo de olhar para o céu.
Ando querendo despir camadas e mais camadas.
Quero o que tem lá dentro.
Quero ‘desprecisar’.
Desprender.
Ter a coragem da nudez constante.
Quero fazer como contou Manoel de Barros:
tirar a roupa de manhã e acender o mar...
Palavras bonitas? Fico nua delas também.
Estou mais gesto.
Solange Maia
segunda-feira, 11 de setembro de 2017
da minha infância...
É isso mesmo, Bebela e Clarissa estão na praia comendo coxinha!
Coxinha moderna: vem em caixinha de papelão!
Deixo escapar um sorriso nostálgico e lembro-me da praia da minha infância: D Nelcina (linda, pequenininha, o cabelo grisalho emoldurando o rosto negro e o sorriso de poucos dentes) vendia cocada branca num tabuleiro e cocada queimada no outro. Eram feitas no tacho, bem cedo, e ela as carregava até não restar nenhuma. Tinha também o Tio do sorvete de groselha, era vermelho só por 3 minutos, depois restava apenas o gelo branquinho no palito...
A praia tinha caramujos, muitos. E conchas enormes pela manhã. E peixes que nadavam ao nosso lado. Tinha água-viva e tinha siri. A areia quente queimava nossos pés e nossos ombros. A gente descascava!
E ralávamos o joelho, arrancávamos o tampo do dedão, e pisávamos em pregos enferrujados. Uns petelecos de vez em quando, mas todos, todos vivos no fim das contas.
Soltávamos pipas feitas no final da tarde, fazíamos bolhas de sabão com caule de mamona, jogávamos taco e fazíamos telefone sem fio com latas e barbantes! Tomávamos banho de mangueira e comíamos bolinho de chuva. A gente nem sabia que existia colesterol!
As crianças eram como eram.
Não importava de onde vinham ou o que tinham.
Tamanco de madeira, chinelos de borracha ou pés na areia. Éramos todos iguais.
E, juro, era tão mais fácil ser feliz!
Tão mais fácil...
Solange Maia
sexta-feira, 18 de agosto de 2017
não queremos mais subir nos pódios...
Aprendemos
a rir, falar, gesticular.
Aprendemos
o corpo que devemos ter e as roupas que devemos usar. Então,
o que fazer quando percebemos que não nos encaixamos mais nesses padrões?
Olho
pra mim e vejo uma barriguinha redonda, suave. Os quadris bem mais largos,
risadas sonoras, gestos amplos, menos filtros. Muito menos.
É
assim que é. É assim que somos.
Para
gente de olhos doces isto nos faz acolhedores, naturais, de verdade. Para
os mais afoitos, isto nos exclui dos padrões.
Mas
chega um tempo em que não queremos mais subir nos pódios, queremos só ternura,
amores para pertencermos e algum lugar para descansar.
Já
houve o tempo dos que estavam com “tudo em cima”, da perfeição festejada, do
instante.
Mas
agora que conhecemos a transitoriedade da perfeição, sabemos que ela tem data
para acabar.
E
passamos a querer as eternidades.
Quem
já percorreu boa parte do caminho sabe que o tempo não poupa ninguém.
Esta
beleza padrão, aprendida e esperada, é uma imagem bastante sabida, mas pouco
nítida.
Temos
vontade de ver as marcas deixadas pela vida. É a assimetria de nossos contornos
que nos valida, os efeitos da gravidade que nos fazem reais e tão parecidos.
Ah, sim, nossas deliciosas imperfeições são nossas assinaturas, a prova viva
dos nossos caminhos.
E
não pensem que nos falta apetite.
Nesta
altura nos permitimos estar alheios às regras, sobretudo a das decências.
Amamos
imaginar. Nossos pés nus bastam como insinuação à outra nudez.
Despir
já não assusta e não há mais pressa, nenhuma.
Sabemos
que imaginar é estender o prazer.
Desejamos
devorar o amor.
Desejamos
ser felizes.
Afinal,
padrão é só um ponto de vista.
Só
um lado da moeda.
Solange
Maia
* fotografia de Chico Batata
quarta-feira, 19 de julho de 2017
para que não tenhamos preguiça de acontecer...
Podia ser dia, verão, ventania. A menina tinha sempre uma
vela acesa nas mãos.
Então, daquela forma, pensava acender os caminhos. Queria não deixar nunca que o dia se apagasse.
Sabia que para algumas pessoas os dias iam embora mais cedo:
encolhidos ou endurecidos.
E tinha medo que esse tipo de abreviação nunca terminasse.Então, daquela forma, pensava acender os caminhos. Queria não deixar nunca que o dia se apagasse.
A vida se apagasse.
Conhecia bem os caminhos de pedra que afastavam as pessoas
do que tanto lhes faz bem.
Conhecia bem as pessoas de pedra que evitavam os caminhos
que tanto podiam lhes fazer bem.
Aguardavam em seus esconderijos internos que a vida
consertasse o que fez.
E alimentavam assim, a potência paralisante dos que não têm
pressa. Viveriam amanhã.
Mas a menina entendia que o tempo não era feito para nos
consolar. Queria ser vivido.
Hoje.
Tudo o que podia fazer era trazer uma vela acesa nas mãos e
orquídeas escondidas no bolso.
E não parar de tentar acelerar sua ressurreição.
Ela amava as pessoas.
E sabia que as demonstrações de amor podiam consertar o
mundo.
Solange Maia
Assinar:
Postagens (Atom)












