domingo, 16 de julho de 2017

difícil é ver alguém respeitar tristeza...

Difícil é ver alguém respeitar tristeza.
Muito mais difícil é ver uma tristeza sendo acolhida.
Já uma perna quebrada, um hematoma, um mal estar, estão ali, tudo posto, visível, compreensível e facilmente respeitável.
Tristeza não.
Tristeza é sutil.
Costuma ser confundida com frescura, fraqueza, TPM ou mimimi. E é sempre considerada passageira.
Não é.
As vezes a tristeza é o piloto. É perene, crônica.
E, acredito, só sara no amor.
Nesse, que as vezes a gente economiza com medo que acabe.
Mas não. De novo não.
Amor não acaba, ele sabe se multiplicar.
Dalva estava triste.
Uma tristeza pungente, já sem origem, cotidiana. Estava dolorida. Parecia por fora, mas era por dentro que doía mais. Mas quase ninguém via.
Precisava ser ouvida.
E urgentemente abraçada.

Foi o que fizemos... ontem, um pouco depois das nove. Dez adultos abraçando Dalva.
Ela sorriu. E chorou.
E sentiu-se muito melhor.
Foi embora tão grata, fazendo mesuras com as mãos.
O que talvez ela nunca saiba é que era eu sendo curada naquele abraço também.

Solange Maia

anoto o gosto...

Cada coisa que me acontece, anoto o gosto.
Não no sentido químico, é claro, mas de uma forma diferente.
É que tenho um pequeno diário dentro de mim onde guardo o sabor de alguns momentos que considero sagrados.
É lá que as coisas que amo se acumulam.
Essa semana foi assim: olhei para Bebela e senti as primeiras notas adocicadas de quem já está virando uma mulher.
Num átimo de instante estava tudo ali, minha pequena bebê falante, a menininha do pé preto, e uma mocinha linda. Todas moram nela.
Anotei esses muitos sabores e suspirei demoradamente.
É que são tantos os açúcares contidos nela...

Solange Maia

sexta-feira, 5 de maio de 2017

pra comer de colherzinha...

Na Rua Comte Félix Gastaldi, no condado de Mônaco, existe um restaurante que serve massas tão delicadas, que envolvidas por nata, ricota e basílico vêm à mesa de um jeito diferente: ao lado do prato somente talheres de sobremesa, sim, aqueles menores. Nada de garfos comuns.
Fazem assim para que a gente coma aos bocadinhos. Para que possamos degustar cada mínima nuance do sabor, da temperatura e da textura. Lá eles fazem com que o caminho entre o talher e o estômago passe pelo coração. É uma experiência que não se esquece jamais.

Porque eles sabem que comer é uma coisa, e degustar é outra.
Degustar faz você se emocionar. Transcende o ato.
Assim como sabemos que o amor que é uma coisa, e sexo é outra.
No amor prolonga-se o prazer para que o perfume do outro demore dentro da gente.

E, nos dois casos, a satisfação está no tempo que se demora, não no que se arrasta.
No saborear sem pressa e atento, para que se recolha o prazer na boca, mas não o derreta.
Para que o resultado compense o tempo dispensado no preparo...
Na feitura é necessário vigor, nunca força.
As vezes é preciso  diminuir a tensão, nunca afrouxar.
Bons temperos, mas sem exageros. 
Afinal, queremos nos sentir saciados, nunca extenuados.

Comer e amar são delícias permeadas de mistérios.
Nossos olhos precisam, sempre, enxergar uma promessa.
E, tanto um quanto o outro, sendo bem feitos, 
são para se comer de colherzinha...

Solange Maia

quinta-feira, 13 de abril de 2017

biscoito de farinha aos 50 anos...

Quando era menina brincava de imaginar como seria minha vida adulta.
Como estaria aos 18, aos 25, aos 30?

Mas o primeiro grande marco foi o ano 2000. Era um número impactante, convenhamos. Eu teria 33 anos. Imaginava um cenário perfeito e uma vida adulta consolidada. Não aconteceu. Vivi nessa fase um dos meus maiores reveses.

Tiveram outras datas. E outras surpresas. Não dei uma bola dentro! Mas, mesmo diante dos obstáculos, a vida foi encantadora sempre. E generosa.

Hoje faço 50 anos, e, evidentemente esta também foi uma data imaginada, lá na infância e outras vezes no princípio da vida adulta. Meio século. É engraçado. É muita vida.

De tudo o que vivi o que mais me define talvez sejam 2 coisas: sei contar minhas bênçãos... e amo a vida com força.
Agradeço por tantas experiências, por tantos amigos, por minha filha linda, pelo meu amor, por tantos lugares, cores e cheiros. Agradeço por minha família, por minha cabeça sempre aberta, por caberem tantas coisas em mim, por meu desejo que não cessa, por sentir demasiadamente e por amar o amor.

Hoje, mais uma vez, a vida está bem diferente de como imaginei que estaria.
Conto minhas bênçãos logo ao acordar, e agradeço, mas meu coração aperta.
Não tenho tido dias fáceis.

A primeira coisa que vem à minha cabeça é uma carta que Henfil escreveu à sua mãe um dia antes do meu aniversário de 38 anos. Seu irmão estava exilado, ele agoniado... e a carta dizia assim: “Não suporto mais a saudade sufocante do meu irmão Betinho. (...) Perdoa, mãe, mas biscoito de farinha só é gostoso se mastigado olhando nos olhos do irmão que sente na mesma hora a mesma delícia.”.

É assim que estou, querendo comer biscoito de farinha com minha irmã. Como se estes últimos dias nunca tivessem existido. Como se os que virão também não.
Afinal, é verdade, tenho meio século, mas a vida tem mistérios que ainda não aprendi a entender...

Solange Maia

Ana Beatriz Maia, bora viver mais uns 50, né, mana?

ela sabe tudo do amor...




Ela me deu um pastel de queijo.
E uma surpresa: em meio ao caos conseguiu reunir meus pais e, de uma forma tão doce e criativa, minhas 2 irmãs (elas ao telefone). Colocou sobre a mesa da sala o bolo, já aberto e de antes de ontem, de limão siciliano. As velas, com os números 1 e 2, haviam sido usadas no seu aniversário. Finalizou com um bilhete lindo. Exatamente como sabe que eu amo.

Ela me deu TUDO, sem precisar de quase 'NADA".
Tão nova e já entende do amor e de seu desprendimento.
É, ela me deu um pastel de queijo.
E, mais uma vez, fez meu coração transbordar.

Solange Maia

quinta-feira, 30 de março de 2017

dessas Deusas sem cabelo...

para minha irmã Bia

A menina, muito pequenina, era guardiã de um segredo.
Mas há muito tempo não se sabia dela.
Até aquela tarde.
Costumo dizer que a aridez dos desertos parece convidar aos milagres.
E que os Deuses agem nas sutilezas, quase sempre em silêncio.

A primeira tesourada foi acre. Nada parecia justo.
Cortes secos, marciais. Linhas retas.
As mechas longas no chão pareciam querer ensinar àquela mulher o que ela já sabia: a vida tem suas próprias leis.
Ainda faltava um sentido, precisava entender os propósitos.
Engoliu seco, baixou a cabeça e chorou.

Até que, buscando encher os pulmões de ar e de vida, levantou a cabeça mais uma vez.
Foi neste exato instante que o milagre aconteceu.
Era a menina, muito pequenina, que olhava para ela no espelho a sua frente, vinda lá da infância, com seus olhos doces, lembrando-a de coragens ancestrais e mostrando a ela que seu grande patrimônio era a vida.
Demorou o olhar nela mesma. Sorriu. A partir daí, quanto mais os cabelos caiam no chão, mais leve ela se sentia. Seu corpo, agora, parecia envolvido por uma espiral de luz.
Sentiu-se majestosa. Percebeu-se incansável.
Estava pronta.
Podia ser, a qualquer momento, mais uma dessas Deusas sem cabelo...

Solange Maia

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

duas formas de oração...

A vela é só um modo de tornar visível a nossa fé. sabemos que Deus está ali, e independe dela. Mas, de vez em quando, a gente precisa "ver" a oração.

Assim como a mulher muda a cor dos cabelos.

O que menos importa ali é o tom ou o comprimento. Aquela mulher quer dizer alguma coisa. E, naquele instante, como se assim fortalecesse o que vem construindo por dentro, ela precisa "ver" sua transformação. Qualquer que seja ela.
E, assim, reproduz exatamente o mesmo gesto da vela.
Muda o cabelo,
mas só o que quer é enxergar a sua oração.

Solange Maia


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

só uma mulher sabe...

Há um trançar metafísico, onde quer que eu vá.
E, cada vez que tentar definir alguma coisa, vou perdê-la num resumo tolo.
Nem tudo carece de significado.
Trançar é para sentir.
Não para entender.

Será que só uma mulher sabe salvar a outra ? Trançam seus cabelos num ciclo interminável de afeto e vagareza.
Só para estarem presentes, sem precisar de longas explicações.
Mãos seculares separando mechas, levando-as de um lado ao outro, sem precisar de razões. O tempo envelhece lentamente enquanto elas ouvem e contam histórias, enquanto acolhem solidões e aplacam dias em que não queriam existir.
Mãos ungindo cabeças, conferindo-lhes de volta dignidades perdidas, consagrando o fato de serem mulheres, parideiras, companheiras, complexas, amplas, agridoces. Até mesmo em tempos exaustos cheiram a gengibre e a caramelo.
Trançam sem descanso.
Morrem um pouco.
Depois renascem.

Trançam hoje, para fazê-lo de novo amanhã. Para lembrar que o amor existe.
Trançam porque sabem que o vento e o tempo as desfarão.

A vida segue o rumo que pode.
Sem permanências.
Mulheres sabem: sempre haverá tranças por fazer.

Solange Maia

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

não vale a pena...

Acho a arrogância um estado solitário.
Custo a entender porque tanta gente precisa desse subterfúgio.
Pra mim a soberba é sempre uma denúncia, é feita de uma nobreza que não chega. Tem urgência, tem pressa, não sabe ficar. E nem conseguiria, afinal, nela a verdade nunca vem.

A arrogância é cheia de uma fragilidade que não se esconde, de uma demência, uma ausência.
Um modo tolo de atribuir a si um poder que não se tem.
É prerrogativa de gente que julga que, por ter certa superioridade, seja hierárquica, intelectual ou econômica, merece mais.
A arrogância um estado vazio.

E dura pouco, garanto, afinal é um estado vítreo de estrutura sólida desordenada. Se você observar bem o arrogante está lá, mas sempre, sem estar.

Solange Maia

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

de algumas fragilidades...

A menina era forte, sabida e muito corajosa.
Mas acordou um dia sentindo medo da solidão.
Não era medo de escuro ou de fantasmas, embora às vezes os confundisse.
O medo que sentia era abstrato, muito mais uma sensação.

Sabia que a solidão era uma coisa diferente de estar sozinha.
Ela não estava.
Mas sentia um buraquinho, um vazio, um vento gelado por dentro. E quase ninguém via... é que muita gente não percebe pedidos de socorro.

Rezava para que não acontecesse, mas ele vinha.
Era um velho conhecido, antigo mesmo, desses que sentam sempre na mesma velha poltrona.
E o medo sussurrava uma voz de mulher: estou indo embora, e não vou voltar.
Então, só o que restava era a solidão. Bem grandona.

A menina ficava triste porque sabia que tudo isso só acontecia dentro dela.
Não contava para ninguém, mas sabia mais 2 coisas: que o medo era sua alma pedindo algo, e que tudo isso ia passar.
Só não sabia ainda o que era...
Nem quando.

Solange Maia