quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

de volta...

Um ano inteiro.
Sabático.
Como o descanso da terra, ordenado pelos Deuses. 
Um ano de recolhimento.
Foi o que precisei para voltar aqui, para esse meu jardim encantado.
Estive ausente, eu sei, mas estive vivendo com “V” maiúsculo, como disse para tantos que me perguntaram.
Deixei-me levar por este mistério da ausência, e por sua autoridade. Por este ‘não estar’, mesmo estando.
Mas nem tudo em mim queria repouso.
Minha retina deslumbrada, que não descansa, obrigou-me a andar com uma câmera fotográfica e um bloco de notas sempre às mãos.

E é assim que volto.
Cheia dos textos escritos nesse intervalo. E de imagens das quais jamais partirei.
São tantos, que resolvi torná-los (finalmente) um LIVRO.

Solange Maia

domingo, 8 de fevereiro de 2015

de repente, adeus...

Entre minhas pernas, no chão da sala, um amontoado de papéis e fotografias desintegravam-se. Não tinham mais importância alguma. Livrar-me assim, do passado, era uma benção, eu sabia, mas paradoxalmente doía um bocado.
É que houve um tempo em que 'não sentir' parecia a melhor opção.
Mas, olhando de frente e livrando-me de tudo, eu me expunha, sentia. E, sentir mudava tudo.

Tenho aprendido a acolher todas as minhas histórias pregressas, sobretudo aquelas das quais não me orgulho. Aprendi com elas. Reconheço ganhos, e hoje, sei que foram o melhor que pude fazer na época. Mas chega. Não quero mais.
Nem os papéis.
Nem as fotografias.

Ando dolorida, é fato, e quando estamos imersos nesse mar, tentando bravamente não naufragar, parece um tempo que não tem fim.
Mas tem.
Ouvi hoje cedo que são nossas fantasias infantis, também chamadas de medo, que mentem pra nós dizendo que essa dor não acaba.
Mas acaba.

E, de repente, adeus.
Passa.
Purgada a dor, só o que me vêm à cabeça é Cazuza :
porque a partir de agora, só o que quero é "todo o amor que houver nessa vida"...


Solange Maia

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Celeste não pode cair...

Celeste não parava de falar. Ficava assim quando estava nervosa.
Pendurada no galho mais alto daquela árvore decidiu que não mais.
Não iria mais saltar. Não queria cair. Nem sentir vertigens. Nunca, nunca mais.
Ela, a melhor saltadora da cidade, abriu mão de continuar sendo.
Sentiu medo ao perceber que estava suspensa no ar. Abandonou a árvore.
E assim, as próprias dores.
E, quase sem notar, abandonou a si própria.

Certa de estar finalmente longe de qualquer perigo, Celeste relaxou. Seguiu a vida sem nunca mais subir em árvores. Nem ligava para a ausência da vista espetacular que tinha lá de cima, nem do contato com os pássaros que lá se abrigavam ao final da tarde, ou ao vento que lhe desorganizava deliciosamente os cabelos. Celeste não ligava. Não mais. Tinha feito sua escolha. Queria estar num lugar seguro.

20 anos passaram. 
Celeste nem lembrava mais que sabor tinha o medo. Nem tampouco a coragem. Nem o sabor de coisa alguma. Tinha partido dela mesma, mas agarrava-se à idéia de que finalmente vivia uma vida serena. Repetia a todo instante que o que importava era a paz, não a felicidade.

Num belo dia, Celeste caminhando pela cidade, percebeu que falavam dela. Falavam que havia sido uma criança muito bonita, e que atualmente sua palidez escondia qualquer traço do que havia sido. Falavam cheios de interrogações sobre o que poderia ter acontecido. Falavam que antes, embora quase sempre toda esfolada, Celeste tinha cor. E sorria. E era muito mais bonita.
Naquele instante ela se deu conta de que no fundo nunca havia aceitado aquela sentença. Nunca havia, de fato, percebido tal palidez. Silenciou, ficou muito magoada, e ainda mais pálida. Celeste, resignada, soube naquele instante que não queria mais. Lembrou que a vida pedia coragem.
E sentiu uma saudade lancinante de quem já havia sido um dia.

Sim, cair da árvore podia doer.
A vida também podia doer.
Mas Celeste estava cansada demais para continuar.
Cansada demais para não chorar.
Cansada demais para nada fazer.
E, finalmente, desabou.

Caminhou sozinha até a árvore do seu passado, exausta, o corpo todo doendo, tanto tempo, tanto tempo... talvez lhe doesse agora uma vida inteira, uma ausência densa, uma apatia fosca. Talvez fosse só o fim de um ciclo, talvez o tempo de 'desgarrar'. Ela pensava, pensava... talvez fosse medo. 
Sim, talvez fosse só isso : medo.
E medo pertence ao território das ideias, não dos fatos. 

Sem saber ao certo como, Celeste se decidiu. 
Deu um 'fuck off' à tudo e agarrou o galho mais próximo. As mãos firmes. Tirou os pés do chão.
Entregou-se.
Soube naquele instante que não dava pra voltar atrás. 
Entregar-se doía menos do que não viver.
Bem menos.

E Celeste subiu.
De novo pendurada no galho mais alto daquela árvore, percebeu que talvez seu medo tivesse a medida da sua coragem. Talvez menos.
Bem menos.
E fez o que melhor sabia fazer.
Saltou.

Foi no meio do salto, ainda no ar, que percebeu, surpreendentemente, que a vida lhe saltava de volta.
Finalmente.
Era isso !
A vida lhe saltava de volta.
Celeste e a vida ali, mergulhando mais uma vez...
uma na outra.

Solange Maia