quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

intimidade no banheiro...

Você fazia a barba debaixo do meu olhar... é que eu não podia deixar passar aquele instante.
Suas mãos firmes caminhavam pelo rosto que eu sabia de cor.
A espuma tão densa, a lâmina tão tênue...

Envolta por aquela atmosfera branca, senti uma intimidade que há tanto não me lembrava.
Um cheiro bom e o atrito na tua pele que me desfazia em fumaça... era um estado de quase graça.

Parava o instante só se fosse para deslizar a língua
por tua nuca...
Ali, no banheiro, você era o meu lugar no mundo...
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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

das eternidades...

A gente nem bem termina um beijo e já está pensando na próxima cena.
Nem bem faz amor e já se prepara prá dormir.
Tempo. Tempo. Tempo.
Não quero mais.

Saudades de beijos intermináveis, daquela contemplação preguiçosa do ser amado, de mãos que deslizam pelo corpo do outro sem pressa alguma.
Saudades de um sexo gostoso e bem feito, e que,
mesmo que aconteça num lapso de tempo,
que esse lapso se confunda com uma eternidade...
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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

de quando o tempo merece ser parado...

Sim, já tive vontade de parar o relógio.
De perpetuar o instante. Congelar a cena.

Pararia naquela manhã de dezembro, em que, pela primeira vez, vi os olhos da minha filha. Aos 16 anos, quando dei meu primeiro beijo, no menino mais bonito do colégio. Ao descer do taxi na Champs Elysees, naquela gloriosa tarde gris. Quando, às margens do Rio Prata, num Reveillon, ouvi as palavras mais doces da minha vida. Pararia naquele engarrafamento em que ele abriu a porta do carro, aumentou o som e me tirou para dançar. Ao receber meu primeiro salário, junto a um bilhete (que guardo até hoje) escrito por meu pai. Ao sentir a pele arrepiar, quando coloquei os olhos e os pés nas águas turquesas daquele cenote em Yucatán. Pararia enquanto deslizava longas horas pelas marquises do Ibirapuera andando de patins.
E ao fazer 40 anos. Ou quando desembarquei em Minneapolis. Ao ouvir minha Avó cantar Ne Me Quitte Pas. Ao ganhar da minha mãe a roupinha que usei assim que nasci. Ou quando o Brasil foi Penta, e o Rivaldo ergueu a taça. Tantos momentos bons...

Hoje à tarde, deitada na espreguiçadeira da piscina, de olhos fechados, ouvindo a vozinha da minha filha ao fundo, e tendo minha irmã ao meu lado, parava todos os relógios do mundo.
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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

de quando viro mel...

Você, com sua delicadeza extremada, vai me desconstruindo, tirando de mim as camadas ácidas, me esvaziando das verdades que nem existem, me fazendo ser mel. E nem vê a desordem que há em mim, ou, talvez nem se importe...

Só sei que volto a ficar parecida comigo, que ando as voltas com imensos e sinceros sorrisos.
Viro minha definição mais próxima da verdade.

E é exatamente por isso que te amo.
Você me SIMPLIFICA.

Então, por favor, não se desfaça de mim...
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sábado, 24 de dezembro de 2011

da duração das coisas...

Ele durava pouco.
E a noite era imensa.
A menina tão linda, tão safa, tão dele, e mesmo assim ele não sabia ficar.
Mas ela insistia.
E via nele coisas que estranhamente ninguém mais reparava.
Via seus olhos de luz.

Mas ele não acreditava mais, então nem percebia.
E ali, ao seu lado, a menina esteve sempre só.
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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

de quando eu nada sei...

Talvez eu só veja um pouco.
Talvez só o que você me deixe ver...
E o que eu acho que é tanto, talvez seja só um espelho do meu coração.
Se for pensar, talvez eu nada saiba.

E, de repente, nada saber parece mesmo a melhor maneira de não nos desfazermos dessa história.
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domingo, 18 de dezembro de 2011

dessa saudade imensa que me fez voltar...

Quatro meses de mar agitado.
Quem navega quer sempre acreditar que no olho do furacão há um lugar de sossego. Um cais.
E há.
Encontrei o meu.

Não quero mais ser estrangeira.
Quero voltar aos abraços, aos afetos, às janelas abertas.
É por isso que hoje, na porta do ano novo, o Eucaliptos volta ao ar...

Saudade imensa de cada um...
Vambora... segura aqui na minha mão...
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(Estão todas aqui, as 48 postagens que nasceram enquanto
as janelas do Eucaliptos estavam fechadas...)

sábado, 17 de dezembro de 2011

de quando a gente vê o tempo passar...

Estou mais velha.
Minha pele já não é mais a mesma, nada é tão firme... mas, em contrapartida, acho que fiquei mais macia, menos rígida, meu lado de fora mais parecido com meu lado de dentro. Tenho texturas mais delicadas, embora eu seja hoje tão mais consistente.
Os anos me tornaram mais tolerante, menos pretensiosa, mais feminina...
E... sem aquela velha “sensação de poder” tenho me percebido tão mais a vontade !
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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

lá dentro...

Uma das poucas coisas em mim que não é simples,
é o meu sentimento.
Sinto hiperdimensionadamente.
Nada em minhas emoções é pouco. Nada é quieto.
Vou lá prá dentro, lá no fundo.
Amo, vivo, questiono, tudo demais.
E não faço a menor idéia de como ser diferente !
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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

confissão de final de ano...

Esse foi um ano de reinvenções.
Bonito isso, se não doesse tanto.
Larguei um casamento de quase 15 anos. Um amor que, na verdade, acabou muito antes de acabar.
E tive que reaprender a vida.
Não que a gente não reaprenda todos os dias, mas foi preciso uma coragem quase épica. Só quem passa por isso sabe.
Enfrentei o vento frio dos julgamentos, a estrada árida do novo, as renúncias à “segurança”, e o fantasma da solidão.
Um penhasco pessoal.

Mas o ano está acabando e já posso sentir os ganhos:
Tenho tornado fáceis as coisas difíceis.
Tenho tido manhãs mansas, sorrisos largos, sonhos novos.
E tem gente fazendo festa dentro de mim.

É. Esse foi um ano de reinvenções.
O balanço ? Faria tudo de novo.
Um conselho ? “Aponta prá fé e rema”, como na canção...

Que venha 2012.
Estou pronta !
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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

das impressões digitais...

Escrever tem sido como modelar o barro.
Mexo aqui, mexo acolá, amasso mais um pouco,
até que minhas impressões digitais estejam lá,
mas não são elas que eu quero que sejam vistas...


segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

diante da dor...

Perder sempre dói.
Mas tenho aprendido que é dentro da gente que encontramos o acalanto para essas horas, na sombra da vegetação interna, é nela que nos agarramos.
Se por dentro formos resumidos, não há onde se amparar.
É por isso que, diante da dor, a gente vê nascer força tão grande em pessoas que pareciam tão frágeis. Porque têm floresta imensa por dentro.
E quando providos assim, perder, de alguma forma,

vira ganhar.
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sábado, 3 de dezembro de 2011

todo meu...

Escureço tudo ao redor. Não quero nenhum fio de luz.
Vou aguçar outros sentidos, vou me acender em você.
Risco círculos e arabescos sobre o teu corpo. Tudo breu. Tudo meu.
Sei onde você está. Acendo uma vela, e nascem caminhos de luz.

São dessas noites em que viro dona do céu.
Brinco com tuas sombras, com tuas horas longas...
Brinco com aquele instante sutil, onde teu corpo recua, onde te falta o ar só porque sabe dos pingos de cera que pendem, sabe que vão cair sobre o teu peito, e que vão ebulir...
E é exatamente o que você quer. Essa hesitação.
Esse momento tênue em que nem pensa.
Esse hiato em que é todo meu.
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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

virei a página...

Mergulhei tanto hoje.
Mas tem uma hora que a gente acorda.
Acorda prá uma realidade que já sabia.
São dias em que o céu sem nuvens fica de um azul tão só, que me assusto.

Dias de verdades dolorosas.
Tudo é música, tudo é tempo. Passa sem passar.
Dias de fins que viram recomeços.
Porque só sei partir assim, depois dessas verdades que
me arrebentam.

Mas... sem despedidas, por favor.
Fui.
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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

do amaciar...

Quero ser macia...
assim como disse minha irmã.
Quero ser colo, ser ninho, ser vento bom...
desses que sopram histórias no meio da noite.
Afinal, embora todos vivam seus exílios pessoais,
(do ter que ter, ter que parecer, ter que impressionar...)
ainda ouso pensar em doçura,
ainda ouso pensar em ser.
E ser branda.
Porque só endurecer não dá.
E é tão injusto...
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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

uma coisa, outra coisa

cuido porque uma coisa é a palavra falada, solta, que voa no ar ao sair da boca,
dissipa-se....
vira lenda.
outra coisa é a palavra escrita, que pesa, vira pedra, perpetua,
eterniza-se...
vira documento.
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terça-feira, 22 de novembro de 2011

de tão convexo...

Deito na minha cama branca, sozinha. Quero pensar em você.
Desarrumo os lençóis. Meu corpo pede alguma desordem.
Mal fecho os olhos e já sinto a pele orvalhar. Verto de um desejo lento, de uma vontade imensa de você.
Tiro a roupa sem pensar, não há espaço para mais nada em mim.
Deslizo as mãos brandas, lânguidas, pelos caminhos que serão teus.
Só de pensar na tua voz, altero tudo em mim. Suo, torno a pele escorregadia, carregada de desejos.
O ventre vira música, vibra, ressoa, revebera.
E nem sei mais respirar. Ondulo.
É desse tremor logo abaixo do umbigo que te falo.
Desse amor umedecido que rompe essa represa em mim.
Desse gozo lindo, feito das centelhas do sol.
Do que faz nascer essa alegria libidinosa que mora na minha cama branca, e que desenha serpentes de luz.
Tantas.
É.
Sou côncava diante de ti.
Côncava.
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domingo, 20 de novembro de 2011

à deriva...

Queria ter te conhecido em outro tempo, talvez quando eu nem percebesse os labirintos do querer.
É que um pedacinho teu, conta uma história inteira.
E essa história tem me esgotado, porque queria ver em você um cais, mas não, você é navio no mar.
À deriva.
E se fico na margem, perco você.
Se me jogo na água, desgarro também.
Cansei de ver tudo afogar.
Queria ter te conhecido antes, quando eu ainda tinha fôlego.

É que tem doído em mim esse tanto de horas longas quando você não vem. E, de qualquer maneira, não quero mais.
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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

das filigranas...

Tenho tomado banho no escuro, deito no chão e acendo velas...
Amo as filigranas que as sombras desenham nas paredes.
O silêncio, ou Keith Jarrett... a fumaça fosca me leva para outro plano.
Fico tênue, sutil, etérea.
Difusa, mas tão viva.
É tudo sentimento. Tudo misturado.
E tantos...

Acaba o banho e me dou conta que volto a ficar parecida comigo...
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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

chão de terra batida

Sei que em Portugal, houve um tempo em que as pessoas faziam suas próprias casas, e, quando acabavam de construí-las, antes de começarem a habitá-la, convidavam os parentes e vizinhos para uma festa. Um baile com muita música e dança.
O propósito dessa festa era que os pés dos dançarinos compactassem bem o chão.
Não canso de pensar na beleza dessa tradição.
Certamente as casas ficavam benfazejamente contagiadas.
Imagine só : uma casa dançada !
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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

das velhas motivações...

A atmosfera é outra.
E para não cair no erro do predomínio da palavra, tenho buscado me abastecer de uma alegria mais vasta.
Viver tem sido um mistério, e quanto mais longe chego, menos sei. Menos tenho noção da realidade.

Já não obedeço minhas velhas motivações.
É tempo de sair lá fora, de experimentar o novo, de buscar a harmonia entre o que sou e o que desejo.
Quero a experiência tátil.
Ando um pouco cansada das teorias.
Quero ações físicas.

Talvez eu comece seguindo o caos. Ou um coelho branco.
De qualquer modo, não me lembro da última vez que foi fácil.
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domingo, 13 de novembro de 2011

de quando quase te toco...

Sabe, às vezes à noite (no meio da noite mesmo), acordo.
Acordo e estendo a mão para alcançar o celular ali ao lado. Quero ler de novo as tuas palavras, as que ficaram ali, coaguladas.
Como se assim eu te trouxesse para perto de mim, como se pudesse então, sentir tuas mãos na colina do meu coração.
Seguro o celular contra o peito. Me falta o ar.

É. Tua delicadeza parece ainda maior quando estou só.

Fecho os olhos com tuas palavras por dentro.
É erótico. E belo.
Volto a dormir.
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sábado, 12 de novembro de 2011

quintal secreto...

Cultivo um quintal secreto.
E tenho estado nele mais do que de costume.
É que minha história é contada na superfície do corpo, mas nasce lá nos fundos de casa.
Lá onde tomo banhos demorados, onde estendo a roupa limpa, revolvo a terra. Onde chuvas benfazejas salvam brotos insistentes de fertilidade (e eu nem lembrava !).
Tem caco de telha e tijolos crus... mato e sombras. Eu preciso.

Fora do meu quintal tudo é tão volátil.
Tão efêmero, tão passageiro.
E ando querendo as eternidades.

É que tenho estado mais comovida, e em dias assim, restauro uma confiança quase esquecida...
E já não sei se quero me esconder.
Talvez agora eu queira me mostrar.
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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

...de gente perfeitinha, já deu.

Ontem alguém me perguntou o que eu busco.
Ser feliz - foi o que eu disse.
Mas quero dessas felicidades livres, sem a rigidez dos estereótipos, aquela de sorriso largo, de alma boa, de discurso franco.
Sou avessa às formalidades.

Quero gente de verdade, descomplicada, com aquela normalidade quase esquecida, com medos e imperfeições, mas também com sonhos e arrojos, e que desafiem a matemática das aparências.
Porque de gente perfeitinha, já deu.

E assim como Manoel de Barros, acho que a maior riqueza do homem é sua incompletude...

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Ensaio Sobre o Amor

Dos meus olhos escorregam lágrimas gordas, choro, mas sem arfar.
O pulmão é calmo, a cabeça também. É o peito que dói.
Dói esse doer tão lindo, esse querer, esse nó, esse embrolho...

Achei que sabia das coisas...
Achei que era tão vivida, que minha vida era tão cheia de histórias...
Mas, e agora ?
E agora que eu descobri que nada sei ?

Paro um instante. Quero rearranjar os pensamentos.
Você está lá, e então não organizo nada. pelo contrário, tudo sai do lugar.
E é tão lindo.
Lindo porque nem ligo para as probabilidades, porque ignoro o oceano, rio do tempo...
Lindo porque já nem sei como eu era antes.
Porque não sei explicar. Nem controlar.

O amor é esse medo.
Essa delícia.
Uma agonia febril, um rio perene, um paradoxo.
E agora acordo desafiando o impossível.

E fico tão vulnerável, como se me despisse no frio...
Sim, tem a beleza do sentir, mas tem também a pele que queima, que sangra, que dói.
Já não me protejo mais.
Não dá. Não sei.

E nem ligo.
Não ligo para mais nada.
É como disse lindamente Miguel E.C., e como fez música Chico Buarque : "é como estar doente de uma folia..."

Afinal, o amor é uma coisa, a vida é outra.

E te amo.
E é tão maior do que eu...
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(ensaio modestamente escrito depois da leitura do texto “Amor” de Miguel Esteves Cardoso, no Jornal Expresso - Portugal)

sábado, 5 de novembro de 2011

dos instantes...

Logo cedo vi um pai levando a filha de uns 4 anos na escola, a pé, de mãos dadas... só esta cena, isolada, já é cena bonita. Mas havia uma árvore no caminho, com galhos baixos, e o pai fingiu, fazendo caretas, que sua cabeça ficou presa ali, entre os galhos. A menininha riu com o olhar, tímida com a cena, e ficou tentando ajudá-lo a se livrar. Logo estavam gargalhando.

Foi só um instante.
Mas são justo estes, os instantes que fazem a vida valer.

porque tem gente que me faz começar o dia com um sorriso gratuito na cara...

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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

desses dias...

Tenho tido dias diferentes.
Acordo sem saber se quero me esconder,
ou se quero me mostrar.
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domingo, 30 de outubro de 2011

dos meus mistérios...

Drummond dizia: “Sejamos pornográficos, docemente pornográficos”.


Gostava de estar ali, deitada rente ao teu corpo, quando há aquele momento mágico, quase imperceptível, que antecede o toque : é o desejo, a eletricidade. É o instante em que só te imagino, onde tomo fôlego, umedeço... depois, depois quero todos os teus “nãos” em mim, porque é neles que tens ritmo, na fluidez das tuas dúvidas, no derreter das tuas renúncias...

É no revés que construo nosso gozo, nessa entrega em que tudo fica desmedidamente vulnerável.
Então me rendo. Sempre fui mesmo uma péssima fugitiva.
É... tenho meus mistérios.
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sábado, 29 de outubro de 2011

ainda vou te amar...

Escorrego as mãos por mim, percorrendo os caminhos que suponho que vá trilhar. Deslizo-as no sentido contrário aos pêlos, é assim que arrepio. E falta-me o ar... falta-me desde o baixo ventre. Experimento meu corpo, toco suavemente a pele, fico mais densa, me liquefaço... Tento imaginar se é assim que caminharias por mim.

Sinto tremer as pernas e fecho os olhos. É como se assim eu pudesse te trazer para perto, mais ainda... para dentro.
Como se eu pudesse sentir a proximidade dos teus olhos, da tua boca, da tua pele.
E quando teu corpo inteiro estivesse em mim, lá dentro veria acender um candeeiro anunciando que amo todas as tuas delicadezas... mas que naquele instante queria mesmo era o peso das tuas mãos em mim. Firme e viril.

É que preciso.
Porque depois do sexo, ainda vou te amar.
Porque depois do sexo, sei que vou te desejar outra vez...
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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

para você, minha Bebela

Quero que saiba sobre o amor, filha.
E saiba não só por ter me ouvido falar. Quero que o perceba, que apure sua alma, que ele esteja em nossas conversas, no nosso silêncio, no entorno, ao redor... no ar que você respira, e nos horizontes que você vê.

Porque quando de verdade, o amor escapa pelos olhos.
E nos dá a chance de um recomeço, sempre, a despeito de nossas escolhas enviesadas.
O amor é assim: aliado da coragem.
Duplica, triplica, e só faz aumentar a vida da gente...
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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

do que devia ser perene...

O céu perdia os últimos azuis, e a menina tinha um sonho esperando por ela. Um sonho que queria muito ser sonhado.
Foi dormir com pressa, mas a noite preguiçosa não queria chegar.

Ela tinha descoberto o amor, e precisava aprender como vivê-lo.
Era uma urgência bonita aquela, a de querer sonhar para alcançar.
E, talvez por isso, ela enfim se distraiu... e então aconteceu.
A menina teve uma noite voadora de tolices lindas, como deve ser o amor. Um vento soprando dentro dela, e horas longas nas margens do menino de olhos d’água.

Acordou pensando em quanto tempo poderia durar o agora...
Não sabia.
Mas torcia muito para que fosse parecido com um rio perene...
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domingo, 23 de outubro de 2011

de quando nasce uma alegria...

Um vento do norte desmanchou a pilha de papéis sobre a mesa.
E a menina, sem papéis e sem certezas, sentiu, a despeito da confusão instalada, uma alegria.
Uma alegria mais vasta.
A mesa bagunçada era a certeza do que não era mais fundamental.

No lugar onde antes estavam os papéis, ela pôs um vaso.
Uma única flor. Era ela. Ela florescendo mais uma vez.
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sábado, 22 de outubro de 2011

do que alterna em mim...

Alterno entre o encantamento e o desejo.
É que não sei fazer poesia quando faço amor.
E o que eram linhas lindas falando da tua imensidão, agora são só rabiscos.

Sinto como se teus braços circundassem minhas pernas, e perco o equilíbrio.
Agora o corpo já não me comporta, tonto, entre tantas febres e frios.
O coração bate forte, mergulhado na esperança de dias infinitos de você. E me engana.
Do nada volta a bater manso, como se dissesse o teu nome.

Alterno entre o acolhimento e a lascívia.
É que nas vezes em que passa tuas mãos entre minhas coxas,
derreto o verbo e o que era tão consistente se desfaz.
É... minhas palavras dissolvem diante de ti...
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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

prefiro assim...

Às vezes é melhor que as coisas não sejam perfeitas.
Pelo menos assim você sabe que elas são de verdade.
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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

estou fora de moda...

Acho que perdi o jeito. Estou fora de moda.

Entendia mais o mundo quando namorar vinha depois daquele período doce chamado conquista. A atmosfera era de encantamento e os lábios tão cheios de beijos. A gente falava macio e se experimentava no outro, com delicadeza... mordíamos os lábios entre a timidez e o desejo... e sabíamos nos derreter no olhar do outro.
É claro que tínhamos mãos sacanas, a pele quente e um mundo inteiro de vertigens. Mas era mais do que só tesão e sexo seguro.

Hoje o mundo aí fora é tão cheio de poses e efeitos. Um encurtamento do prazer, um esforço para “causar”, uma pressa sei lá do quê...
Devo mesmo estar fora de moda.
É que gostava tanto de quando não éramos tão descartáveis...
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domingo, 16 de outubro de 2011

nostalgia...

"Acho que a única razão de sermos tão apegados a memórias, é que elas não mudam, mesmo que as pessoas tenham mudado."


Sinto saudades de antigamente, daquela menina descalça que queria entender o mundo, do olhar doce que sempre tinha sobre as pessoas, de quando, filosoficamente, confiava na importância de cada um... e tinha tantas certezas. Aquela menina nem sabia o que eram mágoas... Saudades do uniforme xadrez, das aulas de teatro, do primeiro namorado, da casa na praia, da cantina da escola... Saudades de não usar maquiagem, de não saber o preço das coisas, de não fazer nada, e de não sentir culpa.


É que hoje eu queria tanto uma paz, como aquilo que na infância pensei haver conhecido, como aquela que acho que já tive um dia...

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

quem é dono de quem...

De vez em quando acho que a vida é que faz as escolhas.
Embora achemos quase sempre que somos nós.
Vivemos a ilusão de que podemos ir por outra estrada, mas não será a “outra estrada” o tal caminho que já era o nosso ?
Não sei...

De qualquer forma gosto do que sei que posso modificar. E, se posso acordar uma pessoa melhor, aumentar meu sorriso, enternecer meu olhar, melhorar minhas ausências, e clarear o que de mim é vago, posso então escolher o que fazer com o que vida me dá.
O que já está de bom tamanho.
O que já me põe na estrada outra vez...

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

fantasio, fantasio, fantasio...

Eu te imagino tanto, e com tantos detalhes que já sei de cor os teus caminhos, conheço de ti cada pinta, cada ponto, cada canto.

Acendo velas e vejo as rendas que suas sombras desenham nas paredes do quarto enquanto finjo dormir só para poder te sonhar. Mais.


Tranço minhas pernas nas tuas, nuas, enquanto deslizo as mãos suadas por tuas costas, desenhando espirais. Fico tonta, é tanto...


Lambo, sopro, cheiro...


Quero mais, mas amanhece... e o sol pinta o quarto todo de cores claras. Claro, preciso acordar.


Preciso. Mas não quero...


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

nenhum ruído...

Prendi a respiração e fiquei em silêncio. Nenhum ruído.
Tudo calmo.
Sim, parece que lá dentro as coisas começaram a fazer sentido. E, o melhor, sem que eu precisasse me preparar para isso.

Não houve planejamento, intenção ou esforço.
Aconteceu. Foi simples, adulto, sereno.

E agora minhas manhãs já não são as mesmas. Acordo com uma alegria nova, um friozinho na barriga e um punhado de planos.
O tempo me atravessa, e pela primeira vez sinto-me alcançada. Ouço Vivaldi e tenho urgências, sobretudo uma : ser feliz.
Talvez o amor seja assim.
Porque onde quer que alcance minha visão, vejo a ti.



quinta-feira, 6 de outubro de 2011

vontade inconformada de você...

É estranho, mas meus olhos não eram famintos.
Nem medrosos, ou tampouco tímidos.
Não que eu não te desejasse, ou que não tivesse receio de que você não me quisesse, ou ainda que eu não corasse enquanto você fitava meus olhos que tudo revelam... Mas é que sempre que te vejo quero mais do que só o instante.
Então vivo com essa vontade inconformada de você.
E em cada curva dessa história tenho a impressão de que vou mais só... embora sinta que só eu sei derreter tua neve...

Acho que é por isso que te espero.
E enquanto esse tempo não chega, sigo caminhando.
Sigo porque todo amor é caminho.
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domingo, 2 de outubro de 2011

do outro lado do rio...

Eu tinha cada gesto calculado. Mentalmente tinha deixado aquela casa uma porção de vezes. Sabia de cor os caminhos que percorreria pela última vez, as coisas que iriam comigo, e até cada canto meu que iria doer.
Porque de vez em quando a gente parte para sempre.
De vez em quando é preciso.

Hoje sou um pouco também do que não tive.
Sou um pouco também do que perdi.

Sinto-me incrivelmente cansada, mas em paz.
As mágoas ?
Deixei do outro lado do rio.
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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

dói sim...

Dói sim.
Afinal, equilibrava-me entre febres e frios.
Algumas coisas não podem ser mudadas. Nunca.
Dói sim. É natural.
Mas impressionava-me com a duração daquela dor.

Não eram choros sem proporção, músicas tristes e remedinhos para dormir.
Era um instante.
Desses de fechar os olhos e fazer um pequeno balanço.
Prá muita gente pode ser besteira, mas é que sou feita de alegrias.
E na dor, eu não sei...
Não sei ficar.
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terça-feira, 27 de setembro de 2011

do que não quero mais...

Não quero mais chorar.
Não quero mais sofrer pelos mesmos erros.
Quero decidir a dor que vai e a que permanece.
Quero estar só.

Quem sabe assim retomo a estrada.

Não quero mais continuar me afogando.
Não quero mais desacreditar.
Quero o novo, mesmo que seja um medo novo, ou uma preocupação nova.
Quero estar só.

Porque só assim acordo tão livre que todas as paredes ao meu redor se vão...