quinta-feira, 27 de novembro de 2014

se Sartre estava certo...

porque eu te amo, MB...
e porque é assim que me sinto livre,
estando ao seu lado.

A menina queria alguém que conduzisse a carruagem.
Queria descansar.
Parar um pouco de tentar ser sempre tão corajosa.
Queria alguém que quisesse as mesmas coisas que ela, e achava que eram coisas tão simples, como alguém que entrelaçasse os dedos aos seus enquanto lhe desse as mãos, alguém que dissesse 'eu quero estar aqui, porque te amo, porque reconheço a imensidão e a raridade do que temos, mas, sobretudo, porque é assim que me sinto livre, estando ao seu lado'.

A menina queria ser cuidada.
Queria não ter que fingir o tempo todo que era forte, muito forte, e madura, muito madura.
A menina era só uma menina.
E torcia para que ele percebesse.
Urgentemente.

É que às vezes a gente sucumbe. Desaba mesmo. Como se todas as bênçãos não segurassem a lágrima gorda que insiste em pesar na pálpebra. Sente medo. E chora. A gente chora as histórias de uma vida inteira. E deseja um colo que dure.
A menina parecia tola, mas Sartre também era.
Se ele estava certo, 'fomos sim, condenados à liberdade'.
E ao peso de poder escolher.
Condenados.

Solange Maia

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

alegria vem por acaso... já dizia Lacan

Já se passaram quase 4 anos desde o dia em que esse cartão postal aí em cima (foto) chegou dentro de um envelope para mim. Nâna Pessoa me enviou. Junto com outros doces mimos. Mal sabia ela que esse sorriso, tão simples e tão surpreendentemente emblemático, seria tão importante pra mim. É que ele, o sorriso (sobretudo o sorriso com o olhar), virou um símbolo, uma brincadeira entre minhas irmãs e eu. É que achamos a menina retratada dona de uma alegria tão ‘de verdade’ que prometemos guardar a imagem e enviar uma para a outra somente no dia em que vivêssemos algum episódio que justificasse uma alegria dessas dentro da gente.
Desde então, ter esse postal enviado ou publicado seria o mesmo que dizer : - Manas, sabem aquela ‘alegria de verdade’ ? A supreendente ? A da menininha do postal ? Pois é, ela está aqui, bem agora, comigo.
E teríamos algo a brindar !

Cumprimos a promessa. A menina do cartão postal ficou guardada esperando tal momento.
Não que não tivéssemos tido alegrias. Tivemos. Muitas. Alegrias cotidianas, pequenos presentes, momentos mágicos, mas confesso, nada que justificasse tirar da gaveta da memória nossa doce menina sorridente.
Até ontem.
Ontem, quando me olhei no espelho escovando os dentes, a menina estava lá. Reconheci na hora.
Meus olhos transbordando uma ‘alegria de verdade’.
E alegrias de verdade são surpreendentemente simples.

Não podem ser metas, porque não são um destino a se chegar, agora eu sei. Escondem-se no caminho, e correr atrás seria o mesmo que correr atrás do vento, ele nunca está lá. Alegria é mistério do instante, é fugaz, pertence ao agora.
E vem por acaso...

Olhei no espelho mais uma vez, já com os dentes escovadas, e era óbvio : estava feliz.

É, Nâna, estou feliz.
Estupidamente feliz.
Como a menina do postal.
E reconheço na minha felicidade o quanto a alegria é poderosa.
Embora sutil e discreta.
Como a poesia que vejo numa maçã.


 Solange Maia

terça-feira, 25 de novembro de 2014

estava tudo lá, amor...

Ando inebriada de vida.
Tudo me encanta, tudo me seduz.
Vejo a mulher que um dia eu fui acordando de manhã, voltando a existir. Abandono pensamentos lineares, rotas de fuga, e me permito ficar vulnerável. Absolutamente. 
Tão difícil, mas tão bom.
Sinto-me viva. Como nunca. E você nem sabe.
Acredito, sem entender.
É o que você chama de fé.
Eu, de amor.
Desejo então, que não me escape mais essa fome.
Que não me roubem mais de mim.
É que ando aproveitando a nossa paz, relaxando todos os meus músculos, atravessando todas as fronteiras. Celebro o desejo. Desculpo a preguiça. E quero continuar inebriada... para que possamos viver eternidades, a despeito de durarem minutos, segundos, ou séculos. Porque é com você que eu quero estar.

Sim, sou grata aos meus caminhos porque eu estava pronta no exato instante em que você cruzou a minha vida.
E grata aos meus olhos que puderam ver faíscas onde sabiam que haveria fogo.
Estava tudo lá, amor.
Antes mesmo da nossa história começar.
Antes mesmo que eu tivesse aberto aquela porta.

Solange Maia

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

amar não cansa...

"Porque tu sabes que é de poesia minha vida secreta."
Hilda Hilst 

Eu não entendo quando você franze a testa e faz um esforço danado para acreditar quando digo com todas as letras que te amo como nunca amei antes, ou quando digo que minhas palavras eram feitas de espera, porque no fundo era você que eu queria, embora achasse que talvez você só existisse no território ébrio das minhas fantasias.
Você quase duvida quando digo que meu coração andava blindado, ou que morava em mim uma menina desinteressada, muito desinteressada, com preguiça dessa gente que me dizia tão pouco. Tão pouco.
Não que eu não quisesse amar, não era isso. Nem acreditar. Eu queria. É que, de alguma maneira, achava que não era possível.
Apaixonar-se sim. Mas o que vinha depois, ahh, o que vinha depois era o amor, e o amor era outra coisa. O amor era um patamar inatingível. E eu sabia que só ele seria capaz de alguma mudança.

Mas você apareceu, amor. 
Absolutamente ao acaso, mas apareceu.
E agora preciso te contar sobre essas coisas. É que você não sai da minha cabeça, e desde que chegou me deixou assim tão desarmada que nem sei. Já não resisto, já não duvido, nem tenho fronteiras, ou limites, não sou mais minha.
Foi a nossa paixão que nunca acabou, que se misturou ao amor, e que acho até que me trouxe essa fé bonita que ando tendo em todas as coisas que eu chamava de ‘impossíveis’.
Então não entendo quando você franze a testa, amor, porque eu te amo, absurdamente, e, se você ler bem, vai ver que isso nunca aconteceu antes. Nunca.

Dei para ser permissiva, entregue, desprotegida, sua, só sua, totalmente sua. Tanto que preciso confessar : sirvo-me de você. Com apetite voraz. Sempre e muito, quero tudo, tudo... mas não é só isso, temos uma intimidade linda que eu nem sabia que existia. E em nós, como se já não se bastasse por si só, o erotismo tem um segundo viés, o do amor.

Ainda há tanto a dizer, e, ao mesmo tempo, nada a ser dito.
É que ando trocando palavras por gestos.
Então agora que eu sei que já leu estas linhas, vem pra cá, amor. Vem pra cá, que agora a gente já sabe que amar não cansa.
Não.
Amar não cansa.

Solange Maia

terça-feira, 18 de novembro de 2014

eu AMO aquele manobrista...

- Uma boa noite para o senhor e para a patroa ! – disse o manobrista fechando a porta do carro naquela noite fria. Fria e deliciosa.
Eu ? A patroa ?! E... melhor ainda : a patroa dele ?!
Sim. Eu, a patroa dele.
Fomos embora rindo.

E hoje é nisso que quero pensar, nessas pequenas alegrias escondidas entre as coisas supostamente grandes que tão infantilmente esperamos do outro. Quero pensar nas delicadezas cometidas, que são muitas. Nas escolhas que fizemos e que nos trouxeram até aqui. Nesse nosso bem querer nascido ao acaso e movido só por desejos, não por necessidades. Quero sonhar com quanto tempo você vai ficar... e se preparo um café, ou minha vida inteira. Pensamentos desalinhados, leves, felizes. Nem precisam ser pensamentos lógicos. Não há lógica alguma, na verdade.
Mas há o amor, que já é tanto.
E tem durado.

Então, mesmo que eu minta pra minha terapeuta dizendo que você é mau, muito mau, mesmo que depois, arrependida, eu fique te persuadindo a chegar mais perto, mais 'dentro', mais tudo, mesmo que eu use minha fala mais mansa e o sorriso que você mais gosta, mesmo que eu pareça menina, e não sou, mesmo que eu tente te confundir entre tantos beijos, ou desejos, mesmo que eu deslize a mão contornando a cintura da sua cueca, mesmo assim, preste atenção. Tudo o que eu quero é que seja leve. E que seja livre. E de verdade.
Também estou aprendendo.
Também estou aprendendo...
E sei que ainda vou te amar amanhã de manhã.

Quer saber ? 
Posso até ser 'desequilibrada, passional e mentalmente inconstante'. Posso até confessar, muito constrangida, que dei para ser ciumenta também. Muito, muito, muito ciumenta. Mas isso nem importa.
O que importa é que aquela foi mais uma das nossas noites lindas.
E que eu AMO aquele manobrista !

Solange Maia

domingo, 9 de novembro de 2014

250 quilômetros...

Eu não quis abrir os olhos, mas o cheiro de café entrando no quarto me fez saber do começo de mais um dia. Ouço uma risada deliciosa vindo do quarto ao lado, um casal de hóspedes conversando no corredor e os passarinhos lá fora. Ainda sem abrir os olhos deslizo as mãos pela cama imensa e percebo que você não está. Sou solteira, penso sorrindo. E 'moderninha'. Dirigi 250km para me lembrar disso, afinal. 
Viro de lado e já não acho mais o sono que eu tanto queria, e olha que o quarto está completamente escuro e delicioso, o blackout daqui é perfeito, pensei. Em você. Foi em você que pensei. E sorri mais uma vez.


Na cama ainda, estendo a mão e alcanço o celular. Música. Aperto o play em Brooke Fraser, Sound of  Silence. Penso em tanta coisa... mas filosofo sobre esse tal 'tempo certo' para todas as coisas. Nunca sou simultânea a ele, porra.  Não consigo me submeter. A vida é mais forte, e tem sido ela quem pontua o meu tempo e os meus sentimentos. Ainda conservo alguma ousadia para reconhecer pequenas grandes coisas e grandes coisas pequenas. E esse é o relógio que obedeço, então me perdoe, mas meu tempo é o agora.

É domingo de manhã, estou sozinha,  desço pra tomar o café e brindar à vida. Ergo a xícara, sorrio, e penso : - Foda-se o 'tempo certo' ! Foda-se o meu lado 'moderninho' também ! Adoro uma estrada, mas se minha liberdade pudesse escolher teria amanhecido ao seu lado.
Gosto mesmo é de conter o amor.
E de ser contida por ele.

Solange Maia

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

me leve para onde bem entender...

Não há porque cortar caminho.
Não há porque ir direto à linha de chegada.
Sei agora que no amor beija-se com o corpo todo, na contramão da pressa. Cuida-se para que nada escape ao olhar.
São assim os passeios que temos feito um no outro.
Nenhum dos nossos sentidos está dormente, tudo vibra, tudo comunga, tudo deseja.
Não temos uma única intenção no nosso amor, não é só sexo, nem só bocas, ou beijos, ou delicadeza, não é só coisa alguma. Somos plurais em nossos quereres, desejamos o caminho todo. Cada curva, cada fresta, cada vão.
Percorrer uma trilha demorada, fazer amor mesmo sem o ato, provocar excitação intensa, despertar desejos lentamente, perder o fôlego...
Somos feitos desses abraços cheios de segredos ao pé do ouvido, das vontades nunca antes confessadas, dos beijos infinitos, de conversas sérias e de conversas tolas, somos riso e bilhetinhos, somos flor, somos água, palavras e silêncios.
Você segura a minha mão, e no minuto seguinte puxa o meu cabelo. Somos tanta coisa.
Não damos ouvidos à pressa do resto do mundo, flertamos com a vida. Nosso beijo demora, sempre e muito, não sabemos o que é ‘selinho’, vergonha ou censura. A gente se dá. É fato. E gosta. É fato também.
É por isso que deixo que você me leve para onde bem entender.
Porque nosso caminho é mais importante que nosso destino.
Nossa companhia é mais importante que a geografia.
Muito mais.

Solange Maia

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

alguma coisa está muito errada...

Na menina bulímica no sofá, nos garotos que brincam com armas, no homem solitário que ninguém vê, na moça que está realizando a sétima cirurgia plástica, mas que nunca fica satisfeita, na pessoa que escolhe morrer, na que vê diferença na cor da pele, em quem come demais, em quem tem medo de Deus, em quem acredita nas próprias mentiras, em quem dá a mão para a culpa, na coragem que não vem, na buzina insistente e agressiva do carro detrás, no cara que resolve no braço possíveis diferenças, em quem bate, e em quem apanha, no sequestro, no consumo, na droga, na tão descabida guerra, no dinheiro que mente comprar tudo, em quem decide, mas não vira a página, e em quem não sabe quando parar.
Na arte que ninguém vê, na música que ninguém ouve, no beijo que não demora, no amor que não se dá...
Na criança que não brinca, no adulto que não se entrega, no sexo sodomizado e não consentido.
Na soberba, na arrogância, e na indiferença.
Alguma coisa está muito errada na solidão.
Está, mas ainda assim, agradeço. 
Agradeço a bendita precariedade de todos nós, porque ela é baliza que indica prováveis caminhos.
Agradeço e torço para que nunca me falte o senso agudo da responsabilidade, porque sou eu quem faço essas escolhas. 
Sou eu quem traço os meus caminhos, e não quero nunca 'não ver'. 
Não quero nunca minha vida reduzida em opções.
Sim, alguma coisa está muito errada, mas ainda assim, ainda assim, agradeço, afinal a gente ainda pode fazer escolhas.

Solange Maia

(imagem : fragmento vazio - pablo herrerias)

terça-feira, 28 de outubro de 2014

duas letras...

Sim, um novo fim de ano se aproxima, e, depois da primeira sessão de retomada na terapia, é inevitável que se faça um balanço.
Quanta coisa mudou ! 
Em ‘largura’, eu diria, não em ‘comprimento’.
Me dou conta agora que as mudanças ocorrem antes de ocorrer. Parece estranho, mas é assim mesmo que funciona, eu dei o primeiro passo sem saber que estava dando. De repente senti uma vontade indomável sei lá do que, respirei fundo e inventei uma coragem onde antes existia uma certeza. É que cansei de adiar a vida só porque isso era o que parecia mais vantajoso, ou confortável a fazer, cansei de inebriar-me com a exuberância só das idéias, de acreditar que minhas palavras bastavam, que o tempo seria o melhor oráculo.
Precisava viver. Infinita, imediata e irretratavelmente.
Era urgente.
E eu disse SIM.
Aquele ‘sim’ que transforma tudo.

Agora sei que a única estrada que merece adesão é a do amor.
2014 foi sim o meu Turning Point, mas, diferente do que escrevi, não eram essas duas palavras que traziam escondidas uma oração. Eram duas letras.
Duas letras.

Agora sei também que escrevo só por vocação, mas não é o que faço melhor.
Escrever tem limites estreitos.
O que faço melhor é viver.
E, desde então, a vida (mais uma vez diferente do que escrevi) tem me tirado do prumo, e mesmo assim, tem sido absolutamente maravilhosa pra mim.

                                                                           Solange Maia

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

o amor é normal...

Ele olhava pra ela com ternura. Ela sorria com o braço estendido sobre as costas dele e deixava escapar pelos olhos uma alegria simples, dessas de quem entende que o amor não devia mesmo ser nada demais. Aceita e acolhe como a coisa mais natural do mundo. Não tem medo. A mãe dela afasta o corpo só um pouco, o suficiente para poder olhar a cena. Eles cabiam inteiros, assim entrelaçados, na vida dela. Volta o corpo para perto dos dois. Agora eram os três numa preguiça generosa, dessas que só acontecem nas manhãs de domingo, dessas onde cabe tanta coisa, onde há tanto a ser dito, e mesmo assim a atmosfera é tomada por um silêncio amplo e confortável que muito se parece com um abraço. E, com uma naturalidade que é delas, iam fiando o afeto e reduzindo a fio tantos emaranhados que para elas estavam longe de parecerem grandes. Elas gostavam do amor. E gostavam dele. Descomplicadamente.

Ele, entre uma risada e uma história, engoliu as letras ásperas de resistência. Percebeu que já não cabiam. Na sua boca, até mesmo aquele punhado de regras a respeito do que devia ser feito, e do que não, ficaram mudas. Tudo se dissolvendo diante da simplicidade do gesto.  

Na boca dele só um sorriso de quem começava a desconfiar que o amor era mesmo a razão para que tudo aquilo que antes disso parecia absurdo, parecesse agora a coisa mais normal que existe.

Solange Maia

terça-feira, 21 de outubro de 2014

todas as águas...

Foi o primeiro sinal de água. Um mergulho dentro daquelas retinas líquidas. Olhos mansos, profundos, que, a despeito de conter um oceano inteiro por dentro, deixavam escapar uma sede, um paradoxo, uma vontade incontestável de transbordar.

E, água que são, transbordaram. Dentro da minha boca. 
Vertendo palavras marinhas na língua e na saliva. Água brotando em variações térmicas que iam do corpo quente ao vento gelado soprado pra dentro de nós. Tudo suave e voluptuoso. Fomos, ao mesmo tempo, tritões e languidez... 
Água molhando cada curva, cada vale, cada fenda. Cada gesto sustentado por um desejo nascido primeiro no imaginário das delicadezas e das preciosidades, mas que, ao primeiro toque, foi sentido como pedra sólida, palpável e tátil. Tudo virando sensações.
Nossos corpos sendo o próprio líquido.

E temos mergulhado desde então, sentindo o fluxo desse mar invisível que nos tornamos, nos liquefazendo no quarto, na sala, no banheiro... desfrutando a intensidade dos sentidos com nossas mãos de água, e com essa imensidão que tem deslizado pra dentro de nós.

Sensações hídricas e esse orvalho que nasce na pele, que lubrifica o desejo, molha a cama, inunda a boca e ebuli virando névoa que num ciclo tântrico vira água mais uma vez.
Temos sido essa represa inteira.
Sempre prontos pra jorrar. 


Solange Maia

domingo, 12 de outubro de 2014

in-fi-ni-ta-men-te maior...

O amor não força nada, ao contrário, ele abre caminho.
William P. Young
 
Há anos tenho falado sobre a vida e sobre o amor. 
Já escrevi antes sobre 'primeiras vezes', e sobre algumas pessoas especiais. Rotulei como 'grandiosas' muitas dessas experiências, porque sim, foram mesmo grandes momentos. 
Mas a vida, surpreendente que é, veio e me trouxe o novo, 
o in-fi-ni-ta-men-te maior, o inacreditavelmente mais bonito. 
E agora, que tudo foi redimensionado, só o que me vem à cabeça são as palavras de Clóvis de Barros Filho, numa entrevista que deu e que nunca mais me esqueci. Tenho-a gravada em meu celular, e ouço vezes sem fim, no trânsito, em casa, no escritório. Ele diz que devemos saber que estamos diante de um mundo extraordinariamente competente para nos entristecer, mas que, aqui e ali, esse mundo também é capaz de nos proporcionar grandes alegrias, grandes surpresas, e momentos que a gente nunca mais gostaria que acabassem. E são esses momentos que a gente ‘persegue’, que farão da vida, sempre alguma coisa digníssima de ser buscada, e fantástica de ser vivida.
Cheguei a duvidar dessa ‘grande alegria’, e dessa ‘grande surpresa’, mas agora, diante delas, e vivendo um desses momentos que eu gostaria que nunca acabasse, rendo-me.
Rendo-me completamente.
Rendo-me porque, de repente, sem planejamento algum, deixei você pegar na minha mão, e soube, naquele exato segundo, que você era a mão que eu havia esperado por tanto tempo.
Você foi a 'grande surpresa'.
E temos sido, desde então, essa 'grande alegria'.

E já não há mais verso. Nem prosa tampouco.
Não escolho mais as palavras.
Elas saem displicentes, indiferentes a mim. Já sabem o que querem contar.
Agora não escrevo mais para enfeitar a página.
Escrevo para enfeitar o nosso amor.
Para guardá-lo, para lermos juntos daqui a cem anos.
Escrevo porque preciso falar com você. Porque sinto saudade mesmo quando ainda está aqui, porque nosso querer não tem cabido só nos dias, só no tempo, só no agora.
Escrevo pra te fazer carinho, pra te alcançar nesse espaço mínimo antes de você chegar.
                                                                                            
E já não há mais verso. Nem prosa tampouco.
Já não escrevo palavras que alimentam o desejo, para que dele se alimentem depois. Nem faço poesias narrando incompletudes amorosas, em que amantes ora estão, oras não estão. Já não quero contar histórias de amores que se distanciaram, e que não se correspondem mais.
Já não vivo tentando lembrar qual era o gosto que faltava, o que não havia, ou onde doía.
Com você eu tenho tudo.
E, acredite, nem sabia que isso era possível.

Agora escrevo porque descobri que quero passar o resto da minha vida com você. E, porque desejo que o resto da minha vida comece o mais rápido possível.

Solange Maia