quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

fome é outra coisa...

Quando ele cozinhava, era imagem icônica, quase esfinge.
Algumas vezes era ele mesmo, em outras não era ninguém.
Seu compromisso nunca havia sido com a nutrição, era o desejo que o seduzia.
Nada acrescentava sem antes envolver no côncavo de suas mãos. Precisava sentir a textura, a forma, a temperatura.
Era um alquimista sensorial. Fazia de seu ofício um despertar de sensações.

Depurava, reduzia, misturava. Ultrapassava o paladar.
Sua pretensão era provocar espasmos, encantamentos, fragmentar a respiração, parar o tempo.
Sabia que o segredo era avivar os sentidos. Devolver prazeres tão esquecidos.
Aplacar a fome era consequência.
Todas elas.

Pertencia às pessoas e precisava quase nada além disso.
Era bruxo, holístico, e cozinhar era sempre encurtar o caminho até o outro.
Longe de ser cartesiano, fazia do seu ofício sempre uma presença inefável.

Aprendera faz tempo que vontade de comer se mata fácil, com a boca.
Mas não satisfaz.
Não a ele.
O negócio dele era satisfazer a fome.
E fome, fome é algo bem maior...

Solange Maia

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

palavras doces não ditas...

Palavras de ordem me causam desinteresse.
Pessoas que acham que pequenas feridas não doem, também.
Porque as vezes fica tudo entalado na garganta, num nó que não nos deixa nem falar.
Há uma crença de que teremos sempre tempo para dizer as palavras doces não ditas.
Até que a gente descobre que não tem.
E só então percebe que somos todos passageiros.

Solange Maia

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Maria da rua...

Maria fazia uma coisa com as mãos.
Segurava nas dele com firmeza, criando um elo, um vínculo, sem qualquer hesitação.
E permanecia nele até que o tempo sumisse.
A dor não. A dor, ela sabia, ainda estava lá.

O lugar era pequeno, muito pequeno, no rodapé sálvia, alfazema, alecrim e manjericão. Folhas quentes perfumando o ambiente.
Eram para proteção.
Algumas velas, ventania só lá fora.
Ali dentro tudo era densidade e calor.

Maria ecumênica, que veste branco e tem sempre os pés descalços. Maria generosa, que faz canjica e que abre as portas de sua casa.
Maria que é mãe, que é abrigo, que é densa.
Maria que é doce, que é abraço e que é coragem.
Maria das dores e das solidões.
Maria da rua.
Maria que eu nunca vi, mas sei que é boa.
Maria de fé, do cais e do caos.

Quietude. Até que, de repente, um arfar rompe o silêncio seguido por um choro doído.
Era Maria, ampla, levando embora aquela dor.
Era sempre assim. E dava sempre certo.
Ela fazia alguma coisa com as mãos.

Ave, Maria. Salve tua graça.
E rogai por nós.

Solange Maia
08/12/2015

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

então o amor esfria?

Hoje, lá perto de casa, um casal chamou minha atenção. Ele caminhava muitos passos na frente dela. Havia um vale imenso entre os dois, qualquer um podia ver. Essa indiferença me entristeceu. Onde foi que isto aconteceu? Ela tão bonita e ele tão interessante. Em que parte da relação eles pararam de se desejar? Porque ainda iam juntos ao mercado? E juntos na vida?

Lá dentro, nos cruzamos mais uma vez, ele perguntando se deviam levar pêssegos ou ameixas, ela erguendo os ombros sem mover os olhos, como quem diz, sem precisar de palavras, que pouco importava.
Já não havia paladar, nem vontade de experimentar, não diferenciavam mais os sabores. Um pêssego ou uma ameixa, tanto fazia, já não lembravam mais do gosto de um, ou do outro, não havia mais mimos ou dengos, não se descascava a fruta, enfeitava o prato ou aquecia o leite.
Tudo morno.

Mas em algum tempo haviam sido apaixonados, sentiram ternuras e arrepios, escreveram bilhetes, acariciaram-se, dormiram de conchinha, contemplaram paisagens no bom silêncio, riram deles mesmos, encontraram alegrias nas coisas singelas, esperaram o outro para jantar, tomaram vinho, fizeram planos, passaram perfume, levaram toalha seca na saída do banho, separaram o travesseiro mais macio para uma noite de sono especial, levaram café na cama e escreveram recadinhos no espelho do banheiro. Beijaram-se demoradamente, posso apostar.

Então como viraram aquilo que eu estava vendo?
Não havia mais nem admiração, nem amizade. O sentimento havia mudado, era evidente. Acreditavam não ter mais idade para febres ou paixões. Talvez tenham crescido em direções diferentes, talvez tenham negligenciado a relação, se acomodado na certeza de que as coisas eram assim para todo mundo e que, o que valeria a partir de agora, era saber que tinham alguém. E pronto.
Como assim?

A vida pode ser tão melhor...
E o amor precisa (e merece) ser cuidado, estimulado, desejado.
É atemporal. É delicioso.
E dá trabalho! Dá muito trabalho.
Porque morre no descuido, na preguiça, na maldita certeza do amanhã e, sobretudo, na indiferença branda que muita gente gosta de confundir com ‘efeitos do tempo’.

Não acredito nisso.
Dê àquele casal novos parceiros... e duvido que ele andasse tão à frente dela, ou que ela nem respondesse mais às perguntas dele.

O amor é uma das melhores coisas do mundo, mas não aceita indiferença.
Nela, morre.
Morre.

Solange Maia

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

experimentando o vazio...

(fotografia clicada por mim - Deserto de Mojave - 15.out.2015)

As 15h59 o termômetro marcava 117 °F, ou seja, 47,22°C, no Deserto do Mojave. Eu estava lá, contemplando aquele cenário inóspito chamado Vale da Morte.
Outubro. Ninguém num raio de 40 ou 50km. Nada, nem água, nem gente, nem casa, nem posto de gasolina. O GPS era uma tela em branco. Ninguém mapeou aquele lugar, o sinal desaparece. Desaparece a vida. Nenhum bicho, nenhuma ave, nenhum réptil, nenhuma planta.
Nenhum verde.
Aos poucos desaparece o tempo, a saudade, a memória. Desaparece o passado.
Nenhuma nuvem, nenhum som.
A impressão que tive é que de repente parei de respirar.
O sol irradiava um clarão ofuscante e dramático, mas parecia noite. De uma escuridão exagerada, interna, eu sabia. De uma rudeza áspera.
De uma beleza absurdamente solitária.
Olhar esse nada, estranhamente, me devolvia a mim.
Eu já havia sido cada uma daquelas pedras, cada centímetro daquele vazio.

Senti necessidade de fechar os olhos para existir.
E ali fiquei, experimentando aquela ‘não existência’  até que encontrasse o final dos meus medos.
Mas estava quente demais, e os quase 50°C me devolveram rapidamente à realidade.
Abri os olhos e o sol incandescente impunha seu calor, simplesmente. Cada coisa existindo, exatamente como devia ser.
O bicho pequeno, rasteiro, para diante de mim e riu.
O nada é habitado, eu já sabia.
Devagar, e aos poucos, fui voltando a respirar.
E lá estava o deserto e suas encostas coloridas, cheio de dunas onduladas e de um horizonte que não acaba.
Cheio de um vazio tão necessário.
Bonito é quando a gente percebe que somos todos feitos desses pedaços desabitados, embora, assim como no deserto, o vento, os cactos, o escorpião, a serpente, o falcão e o lagarto, estejam sempre ali.
Sempre ali.

Solange Maia

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Livro a VENDA !!!

Queridos amigos leitores,

O livro ficou pronto!
E está lindo... 
Uma experiência deliciosa nascida dos muitos encontros fantásticos que tivemos. Pessoas que nunca havíamos visto antes, mas que, aqui e ali, nessa imensa cidade em que moramos, chamaram nossa atenção e viraram nossos 'personagens'. São rostos cheios de histórias para contar!
Falamos sobre coragens, saudades, vazios, amores, e todos aqueles sentimentos dos quais não podemos nos esquivar...

Escrever com o Helder fez a coisa ser ainda mais gostosa!
Tem contos meus, dele, e nossos... todos feitos para vocês!

O livro está muito bacana, tem capa dura, 25x23, uma composição entre imagens e textos de tirar o fôlego... Não deixe de ter o seu!

beijos carinhosos... 

ESTÁ A VENDA AQUI !
R$ 60,00

PRESENTEIE QUEM VOCÊ AMA COM SENSIBILIDADE 
E COM DELICADEZA!
Podemos enviar com dedicatória especial...

A entrega pode ser feita pelos Correios em qualquer lugar do Brasil ou do Exterior.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

finalmente, o lançamento...

Será uma imensa honra ter vocês, meus amigos e leitores, presentes neste próximo dia 27 de novembro, domingo, lá na Livraria da Vila do Shopping JK Iguatemi (São Paulo).
Quero abraçar cada um de vocês!
O livro nasce maravilhoso... 

beijos,
Solange Maia

sábado, 29 de outubro de 2016

essa mulher não quis mais...


Sim, ela está acima do peso; O cabelo precisando de um corte, e a roupa meio fora de 'moda'.
Mas você já parou para conversar com ela? Sabe do que o abraço dela é capaz? Ela já te contou as coisas que viveu? Já sentiu o calor de sua mão, ou foi olhado demoradamente por ela?
Se não, você não sabe nada.
Não sabe o que pode estar perdendo.

Para ela, o único padrão aceito é aquele que a deixa feliz. Investe seu tempo em ser um ser humano melhor. Sabe tocar um coração e faz com os quilinhos extra o que bem entende!
Ela escolheu ser linda, exatamente como é.

Essa mulher representa milhares de nós. Afinal, atravessamos gerações de silêncios e de opressão, e ainda somos reféns de padrões e de modelos.
Até que algumas se cansam. Negam-se a continuar.
Como ela.
Ela não está mais disposta a isso.
Esta mulher não quis mais.
Ela gosta do seu corpo, das suas cicatrizes, das marcas de expressão, da vida impressa em seu rosto, dos eventuais cabelos brancos, e dessa liberdade conquistada a duras penas.

Essa mulher pode, e vai, ser sempre o que ela quiser!

Solange Maia


domingo, 25 de setembro de 2016

Lá no Fim da Infância

Um desejo narcísico e vaidoso o levou até onde estava. Era tido como uma das principais referências entre os grandes executivos do país.
Caçula de uma família de cinco irmãos, doce e sorridente, até perceber que nunca era visto. Não como alguém merece ser visto, com vagareza.
Todos o conheciam por Duda, mas seu nome era Pedro. Duda, na verdade, era o irmão mais velho, de quem herdara o guarda-roupa, e a identidade por consequência, tamanha a distração dos que o cercavam.
Sempre confundido com Duda, e cansado de tentar explicar, resignou-se.
Sufocado por esse anonimato doloroso, um dia, lá no fim da infância, decidiu que tudo seria diferente. Encontraria seu espaço, fosse qual fosse o preço a pagar.
Focado, logo se tornou Petrus, o melhor no que fazia. Mérito exclusivo dele. Soube percorrer com precisão a estrada até lá.
Mas nele, uma porção de sonhos ficava escondida atrás do olhar, quase sempre, à deriva.
Investia grande esforço para controlar variáveis incontroláveis. Perfeccionista ao extremo, dizia a ele mesmo, o tempo todo, onde devia chegar. E, de alguma forma, sempre chegava. Então, boa parte dele enchia-se de orgulho. Mas a outra parte, poucos sabiam, morria.
Morria porque estava exausto de fazer o que não amava, e, em dias assim, nem percebia, mas estampava no rosto uma austeridade assustadora, que o envelhecia muito. Nessas horas não era nem Pedro, nem Petrus. Tampouco era Duda. Era só um vazio, um oco, um eco.
Eram dias que viraram semanas, meses, anos, até que desaprendeu a sorrir.
Acumulava recompensas que não queria. Tinha motivos pelos quais muita gente se orgulharia, mas ele não. No final do dia, sempre sozinho e exaurido, na frente do espelho, seu semblante não mentia: tinha quase nada por dentro.
Muitas camadas por fora, sobrepostas umas às outras, mas elas não escondiam o menino que havia sido um dia. Não para ele.
Ninguém abandona a infância de onde veio, nem o menino que um dia foi.
Petrus, em noites assim, sentia saudades do Duda que, sem ser, havia sido.
Quando menino, sofria de alguma invisibilidade, mas sabia sorrir.
Sim, sabia sorrir.

Solange Maia


Este é um dos 22 contos do nosso livro "Histórias que os Rostos Contam"... o único que vamos publicar.
A história foi inspirada no rosto de Antônio, personagem que tem uma história de vida incrível. Foi motorista de noiva, Gerente de Telemarketing, teve carros e imóveis, mas depois de perder 3 filhos, teve uma depressão profunda que só curou no meio da natureza. Virou jardineiro!...
Quer saber mais?
Quer ler outras tantas histórias lindas, que falam de amor, de saudade, de coragem, de medo, de vergonha, de orgulho?
Estarão no livro, que será publicado em Novembro.
 Clique para conhecer mais...

terça-feira, 13 de setembro de 2016

ele queria uma mulher que tivesse fome...

 
Dessas mulheres que fazem parte do imaginário masculino desde o inicio dos tempos.
O corpo e o rosto pareciam esculpidos por Philippe Faraut.
Falava quatro idiomas, conhecia o mundo, portava-se com elegância, e perdoava tudo.
Olhou pra ela, ali, deslumbrante... mas ausente.
Apagada dentro dele.

E assim percebeu seu imenso cansaço.

Sentiu que não queria mais mulheres ótimas.
Estava cansado de Helenas.
Sempre encantadoras, boas de conversa, inteligentes, magras, perfeitinhas. Mas tudo nelas parecia atenuado, impassível até, se ousasse definir. Faltavam-lhes cores. Graça.
Boas para desfilar por ai, mas geralmente ilegíveis. E, quase sempre, ilegítimas.

Andava tendo pensamentos infinitamente miseráveis, sentia fome de crueza.
Queria alguém de verdade, que viesse com todas as emoções humanas, porque perdas e fracassos, além de inevitáveis, eram o tempero que andava lhe faltando.
Alguém que se divertisse com os próprios erros, que o fizesse sentir, pelo menos de vez em quando, que era ele o cara especial, o homem incrível.

Queria alguém que tivesse fome, que pedisse pizza, que escolhesse sabores que nunca tenham experimentado, que propusesse lugares triviais, fora do jetset, que não fosse previsível. Alguém que atravessasse o rio, que desejasse o outro lado, que conversasse com estranhos, que esquecesse vírgulas, que gostasse de prazeres sofisticadamente mundanos.
Uma mulher de excessos, ardente, intensa, curvilínea, com cheiro de pele, cabelo de ventania e olhos estrábicos.

Helena era incrível.
Mas era uma ausência.
Tinha certeza que se ela fosse menos, teria durado mais.

Solange Maia

domingo, 4 de setembro de 2016

sorte bonita e gratidão...

Escrever o "Histórias que os Rostos Contam" foi um presente cujo valor não consigo mensurar.

Saímos às ruas em busca de rostos interessantes (e quais não são?) que nos inspirassem a escrever contos. E escrevemos. Foi uma delícia. Rostos são jardins secretos...
Pessoas, nunca antes vistas, sentiram-se tocadas. Todas. Abordadas por estranhos, que éramos nós, abriram seus corações sem resistência, e, além de emprestarem suas imagens para que pudéssemos falar de saudades, de coragens, de vazios, de amores, ainda nos presentearam contando suas histórias. Ah.... e que histórias.... tão tocantes, tão comoventes. Sorte, sorte, sorte. Que lindo, meu Deus. Tanta sinceridade sendo acolhida por nosso amor maior. Tanta confiança, tanta ternura... e estão todas lá, no livro lindo que acabamos de escrever.

Parece inacreditável, mas tem acrobata que dá aulas de gramática para poder voar. Tem quem more na rua, mas que já foi jardineiro de presidente da república. Tem que sonhe com a volta de um pai que não aparece há mais de 50 anos. Tem quem escreva histórias para crianças cegas. Tem uma lindeza que está gravemente doente, mas é dona do melhor sorriso do mundo. Tem quem sonha com um grande amor. Tem ele. Tem ela, Tenho eu. Tem você...

Estamos todos lá, naquelas páginas...
Todos lá.

Porque depois de um tempo, a história do outro, nos atinge emocionalmente, é um espelho, não olhamos mais para ela como sendo a vida do outro, nossos olhos ficam voltados para nós mesmos, é a nós que estamos vendo.
É a nós...


Solange Maia

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

R$ 50,00 por um livro precioso....



Deutério, Tarsila e André são mais 3 personsagens do "Histórias que os Rostos Contam".

O livro já está pronto! 
Em novembro, você o terá em mãos. Só falta o 22º rosto, que pode ser o seu!

Comprando agora, na pré-venda, você ganha um desconto de 16%, terá seu nome nos agradecimentos do livro, recebe alguns "mimos" e nos ajuda a imprimir mais exemplares! 

Confira em http://bit.do/rostoscontam.
Saiba mais em www.historiasqueosrostoscontam.com.br.