domingo, 18 de março de 2012

ainda em cima do muro ?

Todo espelho, mais cedo ou mais tarde, não responde o que a gente quer. O relógio biológico não para, antes que a gente aja, age a vida.
E apesar de termos certeza da atemporalidade que nos habita, a gente ainda se assusta com essa coisa tão simples.

Triste quem faz uma escolha errada e a ela fica aprisionado.
Triste a falta de compromisso e interesse de quem escolhe passar a vida em cima do muro, porque de lá, a visão é a das possibilidades, acha-se então que se conhece uma e outra realidade, mas é só ilusão. De cima do muro a vida não passa de uma promessa.
E promessas são intangíveis.

Viver tem que ser hoje.
A dúvida é uma queda diária no abismo que fica entre o sim e o não.
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sexta-feira, 16 de março de 2012

das messalinas modernas...

A menina esguia sentada no banco do bar tinha dois mil anos. Vivia numa São Paulo arquétipa, na meca da liberdade, no universo das jovens mimadas, saturadas de seu próprio intelectualismo e independência. O rosto de aparência extrema, erotizado, pintado com tons fortes. É bonita.
Ela não disfarça, quer devorar os homens.
Precisa, antes que seja devorada.
E ocupa o bar todo.
Existe inteira, mesmo sem existir.
Não fosse o celular e a calça jeans, em nada se diferenciaria das cortesãs da Babilônia.
E seria incrível.
Se não fosse tão óbvia.
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domingo, 11 de março de 2012

das palavras que estragam tudo...

Amo as palavras, mas às vezes elas estragam tudo.
Se não são ditas no instante, estateladas na cara, se não são reproduções da verdade, então elas doem cronicamente, e correm o risco de demorar uma vida inteira para serem destiladas.

Lembro-me de uma reza, que ouvi uma vez, que dizia lindamente que o homem é senhor de todas as palavras que não disse, e escravo de todas as que proferiu...

Que o Universo me permita então, usar tanto as palavras quanto os silêncios.
Porque no fundo, são eles que me salvam. Os silêncios.
São eles que me dão a certeza de que em algum canto de mim estou sempre me refazendo.
Então me acalmo, e agradeço.
E torço por essa minha vontade de ser feliz que só eu sei...
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(imagem : Eu - fev.2012)

quinta-feira, 8 de março de 2012

dessas alquimias...

Como muitos brasileiros, tenho em mim a mistura dos povos. Avó italiana, avô libanês. Do outro lado, um pouco mais distante, portugueses. Deles herdei o hábito de me relacionar com a família à mesa. Muitas vezes foi na cozinha que atualizamos nossos afetos.

E não consigo partir do cheiro de lenha queimando e dos pinhões assando nas tardes de domingo na chácara do meu Avô, nem da Nena contando “causos” enquanto enrolava chineques de creme e côco, ou das fornadas que enchiam o ar de perfume do alecrim que temperava os lombos de Natal. Um pouco mais tarde minhas tias reunidas na imensa mesa oval da cozinha da Vovó, na praia, falando da vida enquanto faziam decorações na massa das tortas de camarão. Os mariscos lavados no tanque, o leite fervendo por horas até que surgissem os primeiros grumos da ambrosia, mamãe fazendo quirera de milho, papai arriscando um penne ao funghi secchi... e a gente em volta, a gente sempre em volta...

E ali, entre receitas e prosas, a vida era lindamente reinventada. Uma pitada de sal e nasciam soluções mágicas para as mesmas velhas questões.
Porque a vida não deixa de ser assim, essa alquimia que não se faz sozinha.

Ainda hoje, quando preciso definir felicidade, digo sempre que explicar eu não sei, mas que ela tem cheiro de bolo de fubá, e de café tirado na hora, ah... isso tem !
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sábado, 3 de março de 2012

cansei dos heróis...

Mais do que um elemento literário, o anti-herói é uma figura cotidiana que eu amo.
Amo por sua improbabilidade, por sua timidez iminente, porque ele rejeita as virtudes não se importando em ser considerado correto ou desejável. É um herói ao contrário, sem a soberba nem a malícia, quase nunca é compreendido, e, dificilmente segue rótulos ou se enquadra, o que é uma delícia, porque o torna uma figura humana absolutamente palpável. Nele a perfeição foi posta de lado, é o herói possível que habita cada um de nós.
Tinha tudo prá dar errado, mas deu certo. Podemos alcançá-lo.
Está longe de ser o vilão, mas longe também de um semideus.

Nele os olhos são sempre um sorriso, de alegria ou de deboche, pouco importa, o anti-herói reconhece suas falhas e dúvidas, e nele há sempre uma redenção possível, um perdão velado, pelo desajuste ou pela malandragem, que é sempre uma malandragem fora de moda, mas totalmente “do bem”.

Enfim, a vida é vasta e a peleja é longa, e naqueles dias em estamos fartos de soluções de revista, é aquele cara que ninguém dá bola, que ninguém aposta, que vai estar ali. E é nele que nos agarramos, no homem possível.
Nos maravilhosos e sedutores homens possíveis...
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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

sexo e promessas...

A promessa de sexo costuma ser tão excitante quanto o sexo em si.
Não falo da promessa que mora no território dos devaneios, mas da que é quase um prenúncio, daquela que é possível, que nos põe demoradamente no chuveiro, que nos faz perfumar, planejar, ensaiar... da que excita, expande, invade.
Da promessa que pode estar escondida num olhar mais demorado, manhoso, daqueles que acendem um fogo quase quieto, quase imóvel, que hiberna em cada um de nós. Da que pode estar no bilhete colado na geladeira, no bilhete do trem, no ombro a mostra, no que não mostra, na rima, no rumo, na data esperada, no encontro inesperado...
Porque fazer sexo é muito bom, mas o que o antecede também é.
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sábado, 25 de fevereiro de 2012

coisas novas, coisas velhas...

eu, com pouco mais de 1 ano...

Era uma vez, e...  43 anos se passaram.
Como se o meu inicio e o meu meio se conhecessem, e se misturassem. Como o instante que divide a noite do dia, que descubro que não existe, ou o horizonte, que é onde descansam nossos olhos, mas que também não está lá... porque a gente vive e vai descobrindo que tudo que é fim, também é começo em algum outro lugar...

Já houve o tempo em que eu não sabia, achava que as coisas novas apagavam as coisas velhas.
Mas não. Não apagam.
Elas só recobrem.
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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

dessas coisas da intimidade...

Já era madrugada, dessas abafadas de verão, quando ela disse a ele um sonoro  ‘obrigada”. Assim, simplesmente, meio fora de contexto.
É que ela sabia que ninguém nunca mais seria como ele.

Ninguém mais saberia escutar seus medos ou se dar a ela por inteiro. Ninguém nunca mais a amaria assim, no sentido empírico de amor, sem preparo nenhum, sem frases feitas ou cenários bonitos. Com ele o amor podia usar vestido de chita e ter os pés descalços, podia ser só boca, só mãos, só sexo, ou tudo isso misturado. Com ele mãos dadas eram sempre com os dedos entrelaçados, num jeito deles, como se assim dessem além das mãos, como se assim pudessem durar.

Ninguém mais sabia dizer a ela, a cada cinco segundos, e sem que perdesse a importância, que a amava.
Porque ele nem sabia, mas a fazia levitar, e assim ela entendia todas as coisas de intimidade.

“Obrigada”, ela disse, e ele não entendeu exatamente o quê ela estava agradecendo, mas olhou prá ela e sorriu.
Assim, simplesmente.
Porque era isso que ele era.
Um imenso sorriso... o melhor sorriso da vida dela.
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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

desse enorme desamparo...

Olga Curado conta que seu pai dizia :
- Vá para o mundo que eu estou aqui atrás.
Comento sempre sobre essa fala, não exatamente sobre a história de Olga, porque ela poderia ser a história de Maria, de Pedro, de Miguel, mas sim sobre o poder que tem um carinho desses, sobre a sensação mágica de se ter alguém que nos proteja, sobre a sorte de quem tem esse encorajamento emocional...

Na verdade acho que a sensação proporcionada é mais importante do que a proteção em si.
Porque no fundo a gente sabe que se vira, mas caminhar com essa blindagem faz um bem danado.
É que andamos precisando tanto dessa gente que fica no backstage, desse amor silencioso, desses anjos sem asas.

Comento sempre sobre essa fala porque é o meu jeito tímido de chacoalhar quem não se dá, é minha maneira de hastear uma bandeira, porque sei que no fundo somos todos iguais.
Sei que por trás de cada coragem há sempre uma renúncia,
e quase sempre um enorme desamparo....
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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

não estou nem aí...

A cama branca, a tarde quente, a pele bronzeada, o vento no final da tarde, o silêncio bom...
Tudo isso me leva a você, tudo me faz querer te amar.

A cama negra, a noite fria, a pele alva, vento nenhum, o barulhinho lá fora...
Ainda assim sou levada a você, ainda assim quero te amar.

Despia-me bem devagar, te olhando fixamente, sem deixar você me tocar. Pedia que tirasse tua roupa prá mim, e mais nada. Só um presente pro olhar.
Haveria aquela tensão que cresce antes dos desejos, porque sempre quero tua alma, é claro, mas na hora em que minha língua toca o teu lábio, desfaz-se o encanto da alma e começamos uma outra jornada...

Amar tem sido essa falta de importância pelo que me cerca, essa total indiferença ao julgamento dos outros, esse desinteresse por todo o resto.
Amar tem me feito relapsa.
E o pior (ou o melhor?): eu não estou nem aí.
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sábado, 11 de fevereiro de 2012

desse mergulho...

Cansei das nuvens.
Tenho buscado terra firme, mas diante de ti é como se eu estivesse na iminência de um salto, naquele minimo segundo em que a gente hesita, quando nossos insitntos ainda tentam nos proteger... é que nada sabemos sobre o amor quando saltamos.
Mas saltamos mesmo assim.
Vamos em direção ao ar, ou ao solo, pouco importa...
É o salto que nos chama, é o desgarrar... É desse mergulho que não conseguimos fugir.
Porque foi para isso que nascemos. Para amar.
Amar até perdermos as fronteiras... até não sabermos mais onde terminamos e onde começa o outro.
Amar é a fusão, o ópio, os sinos, os sonhos...
É a correnteza arrebatadora que não sabemos evitar.
É o mundo, é o medo, é o mar...

O amor nos assusta.
Porque diante dele... somos nada.
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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

do homem de meia-idade...

O homem maduro sempre me interessou. Diante dele sinto um misto de atração e respeito. Nele há sempre uma terna insegurança recoberta por uma camada incontestável de autoconfiança. E é justo essa ambigüidade que lhe confere tanto encanto. Afinal, não há nada mais sedutor do que a vulnerabilidade bem resolvida.

A vida lhe tornou criterioso e seletivo, então estar ao seu lado é estar no lugar da mulher eleita. E foram tantos os caminhos percorridos que dificilmente seria leviano com o coração dos outros. Ele já esteve lá. Talvez por isso seja sagaz, mas sem se impor. E nele há certo desalinho, o que nos põe mais a vontade, o que o torna ainda mais acolhedor...

É firme, embora saiba perfeitamente ser flexível.
Vazio de frivolidades. E cheio de possibilidades.
Um homem de meia-idade pode ser superabundante,
e pode caber como uma luva na vida de uma mulher... de qualquer idade.
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