quarta-feira, 9 de abril de 2014

daqui a 3 dias...

Tem gente que esconde, tem medo de falar, disfarça.
Eu não. Tenho o maior orgulho. 
Encho a boca e conto : faço 47 anos daqui a 3 dias. Gosto ainda mais quando percebo que 47 está na trave dos 50.
Número que tem força e fascínio.

Um tanto de estrada percorrida, outro tanto a percorrer.
Nem tanto ao mar, nem tanto a terra. Lugar onde euforia e serenidade comungam tão bem. Um não rouba mais a cena do outro. Aceito e acolho. Já sei o que procuro, e ouso dizer que o caminho me interessa bem mais do que a chegada.
Dou-me, mas só quando quero. E para quem quero.
Conheço coragens e medos, sonhos e desejos, gente boa, e gente que nem gente é. O tempo já não guarda tantos segredos. Sem a rigidez de antes, demoro mais no gesto, na entrega, no outro... Absorvo a existência, o amor, a graça. Livre de quaisquer cobranças.
Livre para viver melhor.

Já não me prendo ao tecido da lógica, não me importo se as coisas realmente fazem sentido. Respeito a autoridade da vida, mas flerto descaradamente com ela.
E, mesmo quando surpreendida por alguém, com um sonoro : – Senhora ? – não me incomodo.
Sou sim.
Sou, deliciosamente, senhora de mim !

Solange Maia

quinta-feira, 20 de março de 2014

verdade, as vezes eu minto.

Um dia ele disse estar desconfiado de mim. 
Supôs que eu talvez mentisse.
Não sobre o cotidiano ou sobre fatos, mas mais por dentro.
Era da minha alegria e das minhas coragens que ele falava.
Ele dizia que tudo parecia organizado demais, fluido demais.
Dizia achar que meu sorriso escondia alguma dor.

Estava certo.
Não conto pra ninguém, mas não sou capaz de apagar o que minha memória escolheu guardar.
Ele percebeu então, que sou também esse viés. Que muitas vezes prefiro sorrir só pra não ter que contar toda a minha historia.

Verdade. Às vezes eu minto.
E ele sabe o que eu sinto, sempre e a todo instante. 
Os outros não, os outros só imaginam.

Pedi então, que ele ficasse bem perto de mim.
E segurasse forte a minha mão. 
Afinal ele sabia...
não tenho mesmo toda essa coragem.

Solange Maia

domingo, 16 de março de 2014

o pedaço certo de mim...

Primeiro fui eu.
Agora era ele que namorava os meus pés.
Resolveu tirar o esmalte. Segurou um a um os meus dedos e envolveu-os com o algodão molhado sem desviar os olhos de mim. A tinta vermelha dissolvida manchava a cama formando flores e salamandras. Nem a toalha úmida e quente nos fez perder a conexão do olhar. Vendo que eu o via segurou firme minhas pernas e com a boca foi desenhando desejos em mim.
Os pés, tão sensíveis a pequenos toques, foram reagindo a tudo, à língua que deslizava por eles, e entre cada dedo, onde ninguém tocava, à respiração que fazia cócegas na pele fininha da curva, do arco, e ao beijo que molhava tudo.
Depois foram as pernas, o joelho, as coxas. A virilha, o umbigo, a cintura. E ele sentou na minha frente abrindo levemente a boca, fazia isso quando misturava no sorriso o tesão do instante. Ri. Ele era sempre tão impossível de resistir. Misturava alegria em tudo que fazia.
Acho que é por isso que pra ele quero dar sempre o pedaço certo de mim.

Solange Maia

quinta-feira, 13 de março de 2014

desejo embrulhado para presente...

Um dia chuvoso, reuniões tensas, trânsito.
Chego em casa cansada, mas no pé da porta percebo que um pacote chegou. Antes de mim.
Sei que é seu.
Impressionante como o clima muda.
Tudo o que existe lá fora fica suspenso.

Sento na cama com o presente no colo, abro, e é como se o vento usasse o teu perfume. Sinto você. 
O mel da tua boca escorrendo em mim.
Sinto tuas mãos deslizando nas minhas costas, no meu peito, a respiração tropeçando no desejo, tudo pulsando uma canção. Uma vez, duas, três, sei lá. 
Uma vontade que não gasta. 

E essas são as coisas que vão nos levando ao limite do querer. Suspiro (...). Perco o fôlego.
Ainda assim consigo pronunciar algumas palavras, úmidas. 
Pergunto como foi que você pôs tudo isso num pacote ?

Solange Maia

quinta-feira, 6 de março de 2014

não há colo que baste...

para Claudia...

E, de repente, havia muitos mundos entre nós.
E uma estrada de sentimentos complexos.
Parece bobagem, mas numa relação sedimentada nas diferenças, palavras mínimas criam distâncias homéricas.

Num círculo familiar denso e complicado, nos deixamos ficar mais frágeis do que gostaríamos.
Às vezes, e por causa disso, sentia um cansaço de ser.
Numa historia de explosões que se esvaziam sozinhas, não há vitimas nem algozes.
Todos perdem.

Muitas vezes só tardiamente descobre-se que não havia competição. Não havia corrida. Nunca houve um rival.
Tudo o que se queria era o oposto dessa solidão.
                                                                             
Os anos que levei para me olhar com olhos isentos e imparciais foram cobrados com cicatrizes, eu sei, mas a gente sempre encontra uma fenda na dor, e, se tem uma coisa que sei fazer, é florir.

Aceito e transformo, mas confesso, queria fronteiras mais permeáveis, porque como diz uma amiga minha, para algumas faltas não há colo que baste. Não, não há.

Solange Maia

quarta-feira, 5 de março de 2014

com você...

Por vezes,
por algumas vezes,
a vida foi exatamente como eu queria.

terça-feira, 4 de março de 2014

saudade é o upgrade do desejo...

Era aniversário dele, e estávamos chegando de Inverness. Eu tinha escolhido um roteiro sobre trilhos, atravessando fronteiras e fusos horários, conectando as paisagens deslumbrantes ao nosso desejo. Ambos nos faziam perder o fôlego. Havia tempo que queríamos estar ali, não necessariamente em Inverness ou no trem, mas em qualquer lugar onde fossemos só nós dois.

Assim que pôde ele fez como sempre fazia, só que mais livremente. Malicioso atravessou a cabine com os olhos e foi logo tirando a camisa. Era quase como se me tocasse. Sem nem pensar tirei a camisa também. Na gente os espaços se encaixavam com naturalidade... era tanta vontade, tanta fome que qualquer gesto solto causava uma infinidade de palpitações. Sem mise-em-scéne, sem nada, éramos sempre reféns ofegantes de nós mesmos. 
A superfície gelada me fez perceber a urgência dos nossos corpos, senti o peso dele me fazendo grudar na janela, me fazendo tremer de vontade. O mundo passava lá fora, o vagão, as pessoas, a Escócia, a neve, os vales, as florestas, a cidade antiga, as ovelhas, mas nada, nada importava mais.
Éramos só bocas, beijos, pele, nuca, sexo. Éramos pleno verão.

O trem parou. A viagem chegou ao fim.
E algumas vezes parecia ser só isso.
Então eu pensava em fugir.
Mas desistia sempre.
De desistir.
Porque ficava travada na garganta a palavra saudade.

Solange Maia

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

quando a memória me devolve alguns presentes...

Lembro-me de ter sido levada, numa manhã gelada, ao andar de cima daquela casa de vidro onde ficava o escritório dele. Uma enorme sala vazia, com teto abobadado e sem paredes. Através das enormes janelas a luz entrava enviesada formando lindos fachos luminosos que riscavam o ar e aqueciam o assoalho de madeira.
Ele pediu que eu deitasse no único tapete que havia ali, e que fechasse os olhos. Deitou ao meu lado. Uma música linda foi invadindo o ambiente, era um som acústico e acolhedor, e ficamos assim, imóveis, por uns dez minutos.

Muito próximo a mim, mas sem me tocar, ele pediu que me entregasse aos meus sentidos mais refinados até que minha percepção estivesse aguçada a ponto de sentir cada músculo meu que se movesse, cada nota que entrasse em sintonia com o meu corpo, com a minha respiração, com a nossa pulsação... Aquilo criava um diálogo entre os nossos sentidos, uma intimidade poucas vezes experimentada. Até que ele me tocou delicadamente, entrelaçando as mãos nas minhas, e falou alguma coisa bonita.

O que vivemos ali, a atmosfera e o despertar sensorial, nos elevaram a outro patamar. 
Engraçado como muitas vezes são as atitudes que permanecem, porque as palavras, as palavras voam...
Pensei nas relações que acabam, e no que nossas memórias, tão equivocadamente, levam com elas. A lembrança daquela manhã foi um presente que me permiti.
Muita coisa só faz sentido depois.
E aquele instante, tenho que admitir, foi incrivelmente vivido. 
E foi com ele.
Foi sim.


Solange Maia

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

sem anestesia...

para minha prima Fernanda, com amor...

O problema não é a dor.
O que machuca é não achar sentido para tanta coisa.
É que algumas memórias nos atiram mesmo pra fora da estrada. Muita vida passou, e de vez em quando o ar ainda parece inconstante e rarefeito.
Seria ingenuidade acreditar que permaneceríamos impunes.

A gente vai crescendo e percebe quanta tolice havia em nossos desejos de querer construir mundos que durassem para sempre. Não duram. Os mundos não.
A gente dura.
Porque a despeito de tudo a vida nos invade com toda sua intensidade, por mais que tentemos nos esconder sob as cobertas, às vezes.  E graças a Deus. Porque só assim temos certeza que lá dentro, em algum canto, a gente ainda preserva aquela menina que comia no prato colorido da casa da Avó e que tinha tantas certezas e tantos sentimentos.
Os sabores são outros, eu sei. As sensações também.
Mas a menina de cada uma ainda é a mesma.
Eu sei que é.

Algumas coisas não serão nunca, nunca compreendidas. 
E talvez isso nem tenha mais importância.
Muita coisa ganhou novo significado.
Perdemos algumas certezas, ganhamos outras...
O tempo passou sim, sem anestesia.
Mas aprendi que alguns desencantos se curam mesmo é no abraço.
Abro então, Nana, e imensamente, meus braços pra você...
Vem.

Solange Maia

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

porque eu conto histórias...

Um texto é uma entidade viva, e contém um mundo imenso dentro dele, tentei explicar. É o velho clichê sobre a ponta do iceberg. É muito mais sobre abandonar palavras do que sobre acumulá-las. Escrever é coagular, é comprimir... é deixar partir tudo que não é necessário, só pelo prazer de sabê-lo devolvido na imaginação de quem lê. É falar de uma vida que nem é mais só a sua. É por isso que uma história é bonita, completei, porque é tecida com componentes de todos nós, porque passa a ser de quem a lê.

Conto histórias por tantas coisas.
Conto por ser a maneira que sei de estender as mãos, porque minhas narrativas me humanizam, porque é um jeito de confessar meus medos e minhas coragens, porque preciso espantar tantos monstros e tantos dragões.

Escrevo como quem tira uma fotografia. Para guardar, para proteger. Escrevo para que o instante não sofra o desgaste do tempo, ou de outras experiências que muitas vezes apagam as anteriores.

Conto histórias por tantas coisas.
Conto para me lembrar de quem sou, para aproximar fronteiras, para comungar. Conto porque as historias têm aptidões para transportar quem as lê, e criam sensações, que de outra forma, provavelmente seriam inacessíveis. Conto por isso, porque sei que cada pequena prosa, cada par de linhas, contém uma vida inteira. Mas ele, ao ouvir tudo isso, e me achando tão prolixa, pediu bem menos, queria sim me entender, mas só o podia com poucas palavras...
Disse então, que conto histórias porque por mais que a vida me esfregue na cara que tudo é absolutamente temporário, ainda assim, desejo algum tipo de permanência

Solange Maia

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Dona Perfeitinha...

O verdadeiro amor não se conhece por aquilo que exige,
mas por aquilo que oferece.
-Jacinto Benavente-

A menina era limpinha. Muito limpinha.
O cabelo sempre esticadinho, as meias brancas, os pés cheirosos. Os dentes escovados, as mãos lavadas.
Estudava sem reclamar, sempre boas notas, e não falava palavrão. Sempre de bom humor, pronta para agradar a quem fosse. A menina era perfeitinha. Muito perfeitinha.
Só não sei se era feliz.

A outra menina era do avesso.
O cabelo desgrenhado era moldura para um rosto vivo. Muito vivo. Roupinha básica, colares grandes, alegrias soltas.
Se pudesse vivia sem roupa, enfeitada só pelas fitinhas do Bonfim, que adorava. Andava descalça e o troféu da sua liberdade eram os pés estarem sempre pretos. Muito pretos.
Não havia no mundo riso mais lindo.
E mais honesto.

Lembro que Marcelo Gleiser, o físico, disse uma vez que não fossem nossas imperfeições ainda seríamos bactérias. Disse ainda que o Universo era feito de assimetrias e de desequilíbrios, e que era exatamente isso que nos tornava fantásticos.
Então, Dona Perfeitinha, me desculpe, mas deixo um imenso ‘salve’ para tudo o que nos tira dessa tão limitante linha de produção !
Salve !

Solange Maia

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

borogodó...

Do jardim da casa da Avó dela,
o que mais gostava eram as flores.
Mais especificamente suas pétalas,
e as vermelhas.

O jardim era cheio de outras plantas,
mas isso nunca a interessou.
Só o que ela queria era aquele colorido.
Corria para a calçada com a saia cheia delas.
Aos poucos ia colando, uma a uma, as pétalas sobre as unhas.

Com a ponta dos dedos assim, se sentia pronta para sair.
Não era preciso nem vestido, nem nada.
Só aquele vermelho.

Tinha borogodó.
Tinha sim. Desde menina.

Solange Maia