sexta-feira, 19 de setembro de 2014

nem sabia que isso existia...

Também não acredito em destino.
Mas então me explica : que alegria é essa ?
Você tem feito com que um sorriso caiba dentro de um beijo, e eu, que me achava tão mulher, nem sabia que isso existia.
Não sabia também que existiam cinco tipos de sorriso, e que, cada um deles nos conduz a um novo lugar.
Oscilamos da ternura ao desejo, da calma à urgência, do inverno ao verão.

Já disse, também não acredito em destino, mas o que dizer de todos os caminhos espirais que nos trouxeram até aqui, e desse carinho que não cansa ?! É tudo imenso, e ao mesmo tempo fragmento. É tudo novo, e ao mesmo tempo muito antigo. 
Estamos presos e sorridentes. E é dessa vontade esmagadora que eu falo, dessa saudade física, desse fôlego que nunca basta.

Se isso não é destino, então é capricho dos Deuses, que fizeram lindamente a parte deles ao desenhar essa linha convergente que nos jogou dentro da história um do outro. E só o que penso é no teu corpo respondendo ao mínimo toque, nas tuas pálpebras se agitando sob os meus lábios, tudo bonito, tudo denunciando que talvez o destino realmente não exista, mas que, com certeza,  esperávamos um pelo outro.

E se agora eu te digo que estou muito, muito, muito feliz, ainda assim não estou falando tudo.
Fica faltando uma porção de coisas, ainda maiores, que já não cabem nas palavras.
Não. não cabem.

Solange Maia

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

para v.o.c.ê, meu 'alvo' muito específico.

Já perdi a noção do tempo. Só o que sei é que estamos aqui, nos beijando há horas, em pé no meio da sala, como se fossemos adolescentes.
Há um desenho de água na mesa, onde estavam nossos copos. Sua camisa jogada na cadeira ao lado. A carteira num canto. A torneira que ainda pinga. O ar tem o nosso cheiro. E, por mais que seja muito cedo, já sinto o corpo entorpecido por uma saudade bonita.
Meu cabelo despenteado no rosto. Uma janela acesa e alguém que espia. Teus olhos que fecham enquanto me sente percorrer cada canto do teu corpo. Chamadas perdidas em nossos celulares. O ar denso e absolutamente palpável. Toques leves que fazem o corpo inteiro arrepiar. A mão estendida que apaga a luz. A música que nem lembramos porque ficamos cantando outra canção. Todos os sentidos hiperdimensionados. Tudo a flor da pele. Não tem mundo lá fora.

Voltar pra casa agora ficou chato.
Mas vamos embora com a boca cheia de beijos.
Lá fora as pessoas não sabem, mas aqui dentro tudo foi ventania.
É.
E quero que saiba que gosto de você.
Gosto porque os dias passam e você não desiste de me descobrir.

Solange Maia

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

barba por fazer...

Não era exatamente uma barba. Era uma displicência sexy e máscula. A contramão do dia a dia, o abandono da rotina, a urgência ainda velada de não querer ser tão dócil, embora passasse longe da vontade de ser truculento.
E fazia com que ele, um homem adulto, parecesse muito, muito adulto. Testosterona pura. Adulto e primitivo. Ãh ? É que mulher gosta de homem doce, inteligente, sensível, mas não resistimos à virilidade, e, nesse caso, à barba. Aahhh... a barba. Acho que deve ser uma das melhores imagens dessa 'masculinidade'.

Mudo o ângulo e percebo que ele tem acolhimento nos olhos, não... não resisto. Mas é a barba por fazer que me distrai, parece trazer implícita aquela mensagem de ‘me garanto’. Resisto menos ainda.

Gosto de cara limpa, rosto lisinho, do contato da pele, mas nele a barba cerrada revelava atitude, despertava em mim o velho clichê : ‘quero descobrir o que esse cara tem’.
Desculpem-me os ‘sarados’, mas esse ar de ‘eu nem ligo’ é muito mais eficaz que um abdômen definido.

Difícil é encontrar racionalidade diante de um homem assim.
Inevitavelmente saio com o rosto arranhado.
Um pecado.
Mas, como todo pecado, absolutamente indispensável.

Solange Maia

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

amigo, amigo, amigo...

E a gente se distrai de todo o resto investindo horas longas e boas em conversas que pareceriam aos olhos alheios uma grande bobagem. Sabemos rir a toa, chorar também, e temos aquela conexão mental, intelectual e emocional que nos põe num patamar de intimidade leve e doce. Somos a mão estendida antes de qualquer vazio.
Tudo o que estava ali já dizia : somos amigos.
Mas gostava de falar de novo, e sempre, mesmo assim.
Quero que saiba que nossas almas singulares viraram par em algum lugar. Estamos conectados em muitos níveis diferentes, temos nossa própria espécie de carinho, e nossa deliciosa perenidade.

A amizade tem respostas emocionais menos fortes, é fato, mas é que às vezes flagro você demorando o olhar em mim, e sinto a eletricidade que nos percorre chegando a nós como uma corrente mágica. É a química do desejo... nós sabemos, é a química do amor, e nessas horas isso é tão maior que a nossa vontade da permanência do afeto, que a gente se perde.
Amigo, amigo, amigo.
Melhor assim.
Amigo fica. Mario Quintana dizia que amizade, afinal, é um amor que nunca morre.

E agora a gente anda fazendo conta pra não confundir nunca essa equação, pra que a nossa amizade não tenha vontade de abrir outras portas...
É que de vez em quando nos apaixonamos um pelo outro.
Percebo, faço cara de aflita e você nem liga. 
Rouba um beijo, sorri o seu sorriso mais bonito, e diz : 
- We’re so, so, so good together !

Solange Maia

terça-feira, 9 de setembro de 2014

pensamentos felizes fazem a gente voar, dizia Peter Pan...

Assistia repetidas vezes um desenho que gostava.
Era assim com o Peter Pan. 
Decorava as falas, sabia as cenas, conhecia o final.
E, por saber, permitia-me a antecipação de algumas alegrias que, mesmo já muito sentidas, eram quase tão deliciosas quanto as da primeira vez.
Eu sabia que todas as primeiras vezes carregavam uma espécie de eternidade, mas naquela hora não me importava com a repetição, gostava do prazer que sentia durante aquele momento, gostava daquela fantasia, da atmosfera, e acrescentava sempre algo novo ao meu repertório sensorial.
"Pensamentos felizes fazem a gente voar", explicava Peter à Wendy, e eu repetia.

Cresci. Mas em muitos aspectos continuo exatamente a mesma.
Ouço infinitas vezes uma música que gosto.
É que a gente quer repetir o prazer.
Somos fisicamente suscetíveis a essas pequenas alegrias.
E, mesmo depois que silencio a música, fica sempre comigo alguma nota.

Então, sim.                                                                       
Claro que sim. Quero ganhar música de presente.
Quero desde muito antes daquele agosto de 2013... quero pela música em si, que é tão perene e causa sempre tanto impacto em mim, mas quero também porque, de alguma forma, você vem dentro dela.
Sim, principalmente por isso.
Porque pensamentos felizes fazem a gente voar.

Solange Maia

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

do que me atravessa...

Mesmo se todas as construções ainda estivessem lá, 
a cidade não seria mais a mesma. 
 - Ian Buruma em 'A Amante da China' -

Também estou me devendo “O Nome da Rosa”. O livro já esteve em minhas mãos uma porção de vezes, e não sei exatamente por que ainda não o li, sobretudo por conta do mistério acerca das várias interpretações sobre a que o titulo escolhido por Umberto Eco se refere. Respeito todas, mas tornei uma delas minha escolha particular : na época retratada no livro, Idade Média, a expressão “O Nome da Rosa” significava “o infinito poder das palavras”.
É assim que começo a escrever sobre essa admiração que agora nutro por você, Helder, da mesma forma como começou, em 2011, seu blog. Falando afinal, sobre o que nos aproximou, o implícito e infinito poder das palavras, e de tudo que se esconde dentro, entre, e através delas. Escrever já vale só por isso, por essa mágica e por essa possibilidade.

Um amigo disse uma vez que as palavras são o mapa de quem as escreve, um mapa químico, orgânico, visceral... e, sim, nos revelam, escancaram, expõem... mas também, de certa forma, nos salvam, protegem e aproximam.
E assim, de trás pra frente, de uma maneira terna e bonita, também posso dizer que te conheço, embora nunca tenha te encontrado !

É que sua escrita me atravessa...  assim mesmo, a-tra-ves-sa, cheio de hífens porque me atravessa vagarosamente. Faço com tuas palavras o que faço com tudo que me atrai, demoro em cada uma delas, até que comecem a povoar meus pensamentos, tomando cor, volume, dimensão. Cheiro tuas palavras, vejo-as, ouço-as. Guardo-as. Porque tua escrita é sólida. Modifica-me.
Você fala das coisas ‘simples’ da vida como se também se sentisse atravessado por elas, e torna divina e encantadora cada cena em que pousou esse teu olhar tão ávido e tão lúcido.
A partir daí é só sentir... as palavras somem e o que reverbera é essa sua maneira intensa de comunicar.

Obrigada por escrever.
Ler você “- É como andar nas nuvens”, Helder !!!

Solange Maia

um privilégio que compartilho... http://helderconde.blogspot.com.br/

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

devia ser proibido...

E tanta gente presa nessa neve.
Tantas quantas as explicações, que a gente nem pede e vão logo desandando a dar... ‘foi a vida que amargou, foram as feridas do passado, tudo o que nunca cicatrizou, foram as traições, o cotidiano que me endureceu, a matemática sendo sempre maior que as relações...’
Como se fosse tudo uma coisa só.
Como se fossemos todos iguais.

Tem gente que vive nesse perpétuo estado de defesa, a memória convertendo-se num cárcere, a alegria esvaindo pelo ralo da razão. E vive-se assim, eternamente à margem.
Eternamente quase sendo.

A vida pode sim ser violentamente invadida por alguma fatalidade, a realidade de vez em quando pode nos fazer faltar o chão, a alma vai doer, o corpo quase arrebentar, mas devia ser só isso. Só esse instante agudo de dor.
Proibido virar crônico.

Tanta gente sem lembrar que o amor é sol que derrete toda neve. Há que se sair detrás dessa trincheira...
Correr riscos ainda é a maneira mais bonita de amar.
Tenho medo, é fato, mas mostrar o coração tem me dado uma alegria que nem sei...
E acredito.
Ainda acredito.

Solange Maia

sábado, 16 de agosto de 2014

cereja, poeira, cadeira...

Estou no limite do inefável. Não lembro de ter perdido as palavras assim antes. É que nunca contei, mas meus textos só nascem diante de algum vazio. E, hoje não me falta nada.
Estou cheia desse amor bonito que acabamos de viver.
Ademais, minhas palavras já foram tão lidas, e já estão tão gastas...

Pra você quero dar mais do que o verbo, quero dar o que nunca dei, meus olhos cheios desse inverno, minha mansidão, o bom silêncio, e um amor que precisa de cada uma das entidades sensórias, que não dispensa nada. Quero bocas, beijos, mãos. 
Quero a alma, e o mergulho que vem depois. Quero a pele, a fenda, o gozo.

Estou no limite do inefável, amor, mas pela primeira vez o silêncio que se seguiu não foi um vazio.
A despedida não foi um fim.
Amanhã já sei : ainda te quero.

Solange Maia 

sábado, 26 de julho de 2014

tento não amar você...

Vai logo colocando a mão na minha nuca, segurando do seu jeito másculo o meu cabelo enquanto com a outra mão fecha a porta que acabei de abrir. Vira minha cabeça de encontro ao beijo que sua boca me dá antes mesmo de eu falar qualquer coisa. Afasta a alça da minha blusa e morde meu ombro, saliva. Respira tudo o que imaginava e que agora tem.
Falta-me voz, falta-me fôlego, e sinto ainda o mesmo desejo da primeira vez.

Busco o pouco de clareza que resta quando teu corpo ebule assim, tão perto de mim. É que preciso lembrar que prometi a mim mesma que seria sempre só o beijo, só o desejo, só o momento. Lambo tua boca e busco com a mão tudo o que poderia estar contido num instante.
Mas é pouco.
No inicio é sempre o desejo, mas nunca é só isso.
Três segundos ao seu lado são suficientes para criar raízes, começo a me apaixonar violenta, profunda e imediatamente.
Finjo que não, e deixo a noite acontecer.
Deveria ser só bom, mas nasce uma falta no lugar do beijo.
E só o que enxergo é um provável buraco, grande e fundo.

Acho que não sei lidar com tão pouca permanência.
Sou das eternidades, e agora tenho passado meus dias tentando não me apaixonar. É.
Tento diariamente não amar você.

Solange Maia

sexta-feira, 11 de julho de 2014

para ele, o mesmo mantra de sempre...

Ele não vai embora. Tampouco fica.
Anda cheio de ressentimentos e faz um esforço danado para entender onde foi que as coisas pararam de acontecer.
E, de tanto tentar entender, tem vivido virado para trás. Investe seu tempo juntando cacos e fazendo colagens com os pedaços dessa história que já acabou.
A tristeza tem dessas coisas... faz acreditar em mentiras bonitas, promessas que nem sempre foram feitas, e nos põe agarrados a qualquer noticia que alimente nossa esperança. Tudo tão pouco, tudo tão quase nada.
A tristeza é honesta, você diria, e eu sei. É fratura exposta.
O perigo é acostumar-se com ela.

Mas o fato é que você nunca está aqui. Não no agora.
Ergue o cálice, mas não faz o brinde.
Oras...

Penso em Sérgio Godinho, que disse com razão, que a vida é feita de pequenos nadas. 
Chego perto do seu ouvido e sussurro o mesmo mantra de sempre :
- Chega de choramingos ! Perfume-se com um novo cheiro, mergulhe nu, faça uma batida de fruta do mato, fotografe paisagens, deixe a barba crescer, acredite quando ouvir um elogio, caminhe descalço, compre discos novos, beije como se tivesse 20 anos, compre uma cueca nova, e linda, veja um filme bom, escreva um poema num guardanapo, descanse numa rede, dance pela casa, coma risoto de limão siciliano, faça uma tatuagem...
Cometa pequenos nadas!
Afinal, posso jurar que foi pra isso que Deus criou o Universo !

Solange Maia

terça-feira, 1 de julho de 2014

o que eu queria tanto te dar...

Um sentimento que sobrevivia sempre a pequenos abandonos e à espera do momento perfeito.
Mas um desejo maciço teimava em crescer dentro da gente.
Estava cansada do niilismo inumano da ausência.
É que às vezes parecia que o amor queria ser notado.
Dessas noites em que se deve deixar a cabeça de lado e dar ouvidos só ao coração.
Afinal, não se pode acostumar com a renúncia.

Abri a porta sabendo que depois daqueles segundos tímidos meu corpo começaria a falar por mim, por nós, e por todos aqueles anos permeando o vale quente e silencioso de um possível vir a ser.
Tínhamos os versos, eu sei, mas o melhor de mim era o que estava escondido por trás deles, e que eu queria tanto te dar. Talvez por isso a noite tenha sido tão linda, tão de verdade...

Fui. Para que fôssemos.
E fomos.
Esses momentos têm essa generosidade... a de nos permitir ‘ser’. Momentos que nunca vou me esquecer.
Nosso desejo, finalmente, virou a boca acolhida no beijo.

Solange Maia

quarta-feira, 25 de junho de 2014

cento e vinte e sete beijos...

A luz obliqua suavizava a noite sem perder seus amarelos.
Uma formalidade preguiçosa.   
A mesa posta, embora eu tivesse sentido vontade de cantar Chico: ‘ponha os pratos no chão e o chão ta posto’... é que ainda não te contei, mas gosto tanto desses cenários que nos aproximam. Terno como a água que me serviu em cristais. Delicadezas deixam a atmosfera tão leve.

Contamos histórias que tinham vontade de continuar, mas não, ficamos quietos, presos um no outro, num discurso de palavras mudas e poucos gestos. Era como se o ar precisasse ser preenchido, como se você precisasse ser preenchido.
Um instante afável, como se eu já o tivesse vivido, mesmo sem nunca ter passado por ali.

Tuas mãos no meu rosto branco eram boca.
Tua boca no meu corpo tonto era beco.
Fui embora devagar, como quem nunca quer partir.
E acordei cedo, com vontade de te beijar.
Cento e vinte e sete beijos. Tantos.

Solange Maia