terça-feira, 13 de agosto de 2019

pedala, pai...

Era um dia cinzento de vento fininho. Gotículas geladas se desprendiam do mar e umedeciam toda a orla.
Ele, de cócoras, olhando-a profundamente nos olhos:
- Pega impulso e vai. Mais do que pedalar o importante é a atitude, seja firme e corajosa. Estou aqui, não tenha medo, você vai conseguir.
E ela saiu pedalando. Sorrindo e olhando para frente. Como se fosse fácil.
A fé é tão linda e tão misteriosa.
Foi assim que Bebela, em apenas 2 minutos, aprendeu a andar de bicicleta.

O tempo correu e nem sei bem se eu vi.
Só o que sei é que os últimos dias têm tido um ritmo estranho, tudo parece mais desconectado e mais lento. Mudaram as urgências.
Não existem respostas para tantas perguntas. E mesmo que isso não seja nenhuma novidade para nós, ainda assim me assusto.
E penso em como acontecimentos inesperados nos põem diante de imensas janelas pelas quais podemos ver, mais uma vez, as paisagens de todos os lugares em que já estivemos. Estão lá todas as crianças que já fomos, os quintais da nossa infância, o velho cachorro, os cheiros, as músicas, as histórias, os encontros, os encantos, os almoços de domingo, os vazios, os portões, todos lá, enfileirados, todos. Assim como a bicicleta na praia.

Sentada ali, ao lado dele, olhando profundamente em seus olhos, eu disse:
- Pega impulso, pai. Mais do que tentar o importante é a atitude, seja firme e corajoso. Estou aqui, não tenha medo, você vai conseguir.
Mas, bem lá no fundinho, sei que com gente grande as armadilhas podem ser maiores.
Então fecho os olhos e rezo baixinho para que ele também pedale.
Em 2 minutos.

Solange Maia

terça-feira, 23 de julho de 2019

Sem coragem de fechar a porta da infância...

A calça estampada, cintura baixa, um pouco mais curta do que deveria ser. A blusa justinha também um pouco mais curta do que deveria ser. Não havia nenhuma pretensão na escolha das roupas, ia comer bolo com a Avó. O casaco de gola peluda e a boina branca com uma imensa flor na lateral davam a ela um ar de ventania. Ontem mesmo era uma menina.
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Agora, deslumbrante, sem saber que é. E isso a faz ainda mais bonita.
Sem os vincos do tempo, sem os cansaços ou quaisquer histórias desenhadas sem legitimidade.
Não sabe ainda o que são renúncias. Tudo nela é de verdade.
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Conversamos sobre todas as coisas. Não que antes não o fizéssemos, mas agora é diferente.
Ela olha em meus olhos, segura na minha mão e começa a falar. Ouço atenta, interessada.
Tem impressões sólidas sobre assuntos diversos. Me escuta também, curiosa, interessada, acolhedora. E sem saber me ensina tanta coisa. Agradeço em silêncio, porque tenho mesmo muito a aprender.
Ela me educa para o amor.
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Sigo desejando a você coragem para viver mesmo sem saber o que será o amanhã. E que, ainda assim, viva com gosto, intensamente, apreciando cada pequeno milagre que a vida oferece. Desejo que continue encantada, com ou sem asas, sendo você, sempre. Que queira morar em Washington, mesmo que seja em outro lugar. Que seja procuradora pública, mesmo que fora dos tribunais. Que tenha dúvida sobre a temperatura do corpo humano, mas que sempre experimente o toque, porque afeto e ternura são suas maiores qualidades. Que saiba que a Bisa gosta que desabotoem os seus sapatos, mas que é ela que os quer descalçar. Siga observadora e atenta, as delicadezas moram nos gestos mais minúsculos, você já sabe. Que tenha personalidade, forte, vertical, sabemos que mais vale um mergulho fundo, intenso e particular, parecido com a vida, do que movimentos apáticos e amedrontados. Que você se apaixone: por pessoas, por causas, bichos, obras de arte, cheiros, lugares, memórias... E que lembre para sempre que um dia falou “Gulira” quando viu um macaco grandão, e que esta foi a última palavra da infância que falou errada, a última a ser corrigida porque sua mãe não tinha coragem de fechar a porta da infância, e que isto a faça rir, leve e divertida, porque são essas as riquezas que quero te ensinar.
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Desconfio que já seja uma mulher.
Mas, em meus braços, será sempre Bebela. Sempre minha menina.
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Solange Maia

sábado, 11 de maio de 2019

onde moram os milagres...

Para Isabela...
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Você era pequenininha e eu te levava para ver o sol se pôr.
Ficávamos 1, 2, 3 horas olhando o céu e conversando. Você ainda conhecia poucas palavras, mas apontava para o céu e olhava para mim. Era o seu jeito de dizer tanta coisa. Quando via um pássaro arregalava os olhos. Quando o céu mudava de cor ficava em silêncio. Quando a noite chegava, abandonando os últimos laranjas, você apertava ainda mais o seu corpo no meu.
Lembro de pessoas me perguntando se isso não era uma atividade chata para uma criança tão pequena. Talvez fosse mais interessante se você a levasse a um parquinho, se fossem assistir um filminho ou simplesmente brincar com outras crianças, diziam. Fazíamos isto também. Mas o que eu queria mesmo era que você conhecesse o sagrado.
E não renunciava a te levar para ver o sol se pôr.
Presenciar aquele espetáculo tão singelo e ao mesmo tempo tão potente era exatamente o que eu queria te mostrar.
Queria te ensinar a ver. A sentir. A contemplar.
Queria aprender a ver o que os seus olhos viam. Outros ângulos, outras percepções.
Queria que nunca fossemos reduzidas em nossa capacidade de existir.
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E lá ficávamos, na beira da represa, algumas vezes sozinhas, mas sempre tão absolutamente habitadas.
Havia muita grandeza nos envolvendo.
Muito de Deus estava ali.
A verdade é que não o imagino distante, inatingível, assustador. Sinto-o perto. Sinto-o no ar, no pulsar, no desconhecido, no chão e em cada célula sua.
Viver é muito essa capacidade que desenvolvemos de olhar. Olhar para o mundo e entender que somos um pouco de tudo aquilo.
De cada imensidão e de cada pequenez. De cada mistério e de cada revelação. De cada recuo e de cada investida.
É assim que a gente enriquece, filha, neste acolhimento do sagrado.
E, como sei que a gente aprende observando, quero ser, para você, sempre oferta.
Sempre sua mãe.
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Penso em Mia Couto. E em como ele também descobriu esse tipo de abundância.
Ele conta que em muitos lugares pelos quais viajou encontrou pessoas que não sabiam ler livros, mas que sabiam ler o seu mundo. Liam os sinais da terra, das árvores e dos bichos. Sabiam ler as nuvens e o prenúncio das chuvas. Naquele universo de outros saberes, havia a compreensão de que era ele o analfabeto.
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Torço para que saibamos reconhecer essas riquezas.
E para que sejamos sempre uma pergunta, meu amor.
Porque, se nesta missão de ser mãe, eu tiver lhe ofertado esse olhar sempre faminto e absolutamente encantado, sou então, a pessoa mais feliz do mundo.

Te amo, filha.
Mamãe

domingo, 5 de maio de 2019

porque as coisas estão mudas...

Devo desculpas a Lacan que dizia que numa frase pronunciada, alguma coisa se estatelava. Sim, Lacan, pode ser, mas agora sei que é na mudez das coisas que ouço ainda mais alto a vida se estatelando.

Miudinha e amuada, não se parece em nada com o mulherão que fora um dia. Já não nos olha mais enviesadamente. Algumas vezes pergunta por que tem tanta gente almoçando na casa dela. Não estão. Lá não é mais a casa dela. Ou, não deveria ser. Mas ela não sabe, esquece o que houve. E eu, que sempre pensei que esquecimento era um tipo de castigo, agora me pego pensando que talvez possa ser benção. Presente amoroso do tempo.

Tudo arrumadinho, sereno, limpo e silencioso. Uma paz maior do que a gente pode suportar.
Demorei para descobrir em qual parte daquela calmaria se encaixava a minha tormenta por vê-la ali.
Não parecia fazer o menor sentido. Senti raiva e fiquei virada para dentro.
Desentendia a lógica. Para mim era uma traição vestida para festa. Uma elegância feita de gestos estéreis, brancos, tão imaculados que se tornavam intransitáveis. Um acolhimento às avessas.

Enquanto estou mergulhada em meu inconformismo, vejo ele, meu pai, tirando da bolsa da minha mãe um frasco de acetona. Sentado na cama dela, segura suas mãos delicadas, oferece um beijo enquanto molha um algodão no líquido e começa a remover o esmalte já descascando das unhas dela. Dedo a dedo, um de cada vez. Em seguida tira o esmalte da bolsa e dá a ela nova cor. Dá muito mais, sabemos.

E meu coração, que é maior que a razão, chora.
Só o que penso é que se não cuidarmos corremos o risco de ficarmos cada vez mais impermeáveis.
É. Dentro da gente existem mundos inteiros a serem remendados.

Enquanto escolhi me fechar em desapontamento e tristeza, ele escolheu fazer suas mãos.
E porque as coisas estão mudas ele me ensina que podemos falar com os gestos.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

dos sonhos e dos desejos que ainda cabem em mim...

Sexta-feira. Acordo feliz, com 52 anos. Sorrio enquanto penso em quantos sonhos e desejos ainda cabem em mim.
Minha vida sempre me pôs à prova, acho que pouco sei sobre o que são “zonas de segurança”. Conheci o bicho papão muito cedo, mas, forjada por minhas próprias coragens, aprendi a olhar fundo aqueles olhos assustadores e enfrentá-lo. Nunca me senti nem refém nem vítima. Cresci com a valentia de quem tem o sol em áries.
É que amo viver. E isso sempre foi tão maior.

Sou das fronteiras, dos ventos, do outro, das retinas enxaguadas pela água da chuva e da imensidão.
Em mim há um personagem invisível e sempre ativo: o encantamento.
Sou entregue, e, embora saiba que viver assim pode ser mais arriscado, nem ligo. Não caibo na monotonia dos isolamentos ou em fases desérticas. Gosto de gente.

Vivo o ‘poder do agora’ e, se tenho menos tempo, procuro acertar mais o gesto.
Não quero mais tentar entender os vazios. Nem os vales ou os abismos.
Cansada de discutir importâncias. Ou de ter razão. Tenho preguiça de formalidades. Sou dos abraços.
Me reconcilio com a vida todas as manhãs, com facilidade.
Cada vez mais interessada em pés descalços e em almas leves.
Cada vez mais interessada no instante.

Fios de cabelos brancos não me assustam. Nem as marcas do tempo, ruguinhas ou quilos a mais.
Sinto que, finalmente, a menina que me habita, tirou a mulher para dançar.
E sigo bailando, sendo protagonista da minha própria história.
Me sinto orgulhosa do que semeei.

Adoro saber que ainda tenho muito a aprender.
Mas agora, neste momento, meu foco é outro:
Tenho tido a espetacular intenção de viver cada vez mais feliz!

Solange Maia

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

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Caramelos Espanhóis

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Embora fosse feita de vastidões, a menina morava numa cidade pequena de passarinhos nos quintais.
Aprendera desde cedo que o mundo existia imenso além daquele lugar. Queria saber das coisas, das diferenças e das riquezas além daquelas fronteiras. Era observadora, atenta e amava ler. Por conta disso, e de sua imaginação, tinha certeza de já ter ido à Índia, conhecido o Paquistão, as geleiras da Islândia e os casebres coloridos de Manarola.
Era lendo que fugia da monotonia.

Ou com aquelas mulheres.
De vez em quando batiam à porta de sua casa umas ciganas que vendiam latas de pêssegos em calda e caramelos espanhóis. Sabia que estavam chegando pelo tilintar dos berloques de suas pulseiras. Eram muitos e todos tinham sua própria história. Estrelas, ânforas, sereias, mas o preferido da menina era um enorme dente de onça que, uma delas dizia ter sido morta por seu avô, numa luta que teria salvo a vida de um garotinho na Bahia.

Aos olhos da menina as ciganas eram um recorte da realidade, uma ousadia, a lembrança mais colorida da sua infância. Desconfiava que eram nascidas por aqui, embora falassem romanês. Tinham a pele cor de jambo e o corpo curvilíneo, mas para ela, eram sempre estrangeiras.
Madalena era o nome da cigana mais velha, uma mulher misteriosa que contava ter pai romeno e mãe basca. Dizia ter orgulho de suas raízes, e contava exaltada que muitas pessoas famosas tinham origem cigana: Elvis Presley, Charles Chaplin e havia até quem considerasse Jesus Cristo um cigano.

Aquelas mulheres falantes eram figuras literárias, personagens escapados de um dos livros da menina. Era impossível desviar o olhar. Tinha na memória a tarde em que uma delas tomou suas mãos, enquanto contava ser neta, bisneta e tataraneta de oraculistas. Dizia ser benzedeira, vidente e cartomante. Com olhos arregalados a menina ouviu com atenção as previsões para o seu futuro: casaria tarde, percorreria o mundo por causa de sua inteligência, ganharia um prêmio importante e, madura, sentiria saudade daquela casa em que estavam.

E assim eram as tardes em que as ciganas estavam na cidade. Cheias de burburinho, curiosidades e momentos inesquecíveis.
Depois que partiam, a mãe da menina, sabendo de seu encantamento, fazia sempre a mesma coisa: colocava os pêssegos e os caramelos sobre a mesa da sala de jantar permitindo assim, que a mistura dos aromas doces perfumasse deliciosamente a casa, e a vida, deixando tudo com cheiro de fruta, açúcar queimado e amêndoas.

Os anos passaram, a menina cresceu, não se casou, foi estudar em outro país e por lá ficou. Numa cidade vertical de sombras firmes e gente apressada. Tornou-se mais árida do que gostaria, e, embora fosse presidente de uma premiada ONG que promovia alimentação sustentável, sentia uma saudade que era quase fome. Precisava ter de volta aqueles aromas e sabores da sua infância.

Ela sabia que os caramelos representavam o limite daquela fronteira. A passagem de volta.
O único pecado gastronômico permitido.
Em noites mais frias, sozinha, em sua casa de paredes impecavelmente brancas, ela acendia um fogo brando.
Enquanto derretia o açúcar na panela, voltava à pequena cidade e às tardes com as ciganas.
Naqueles segundos, de olhos fechados para aguçar o olfato, tinha dúvidas se não seria, ela própria, Madalena.


Órfãos de filhos vivos...

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Aos 91 anos Cid Moreira posta um vídeo em que está sendo delicadamente cuidado por sua esposa: - Amor que transcende - diz ele.
Tão lindo.
Alegro-me por ele. Muito. Mas não consigo evitar que meus pensamentos caminhem na contramão dessa benção: lembro dos milhares de idosos que já não têm mais ao seu lado seus companheiros e que se tornaram órfãos de seus filhos vivos. Esquecidos em asilos ou em residenciais luxuosos para a terceira idade. O lugar não importa. A dor é exatamente a mesma. O dinheiro vale infinitamente menos que o acolhimento.

Abandono é crime previsto em lei, muito embora todos saibam que garantias legais têm sido violadas indiscriminadamente. Isto é grave. Mas mais grave ainda é a absoluta falta de amparo afetivo. E a rejeição.
Consigo até compreender que para alguns o amor pode não ser possível. Que exerçam então ao menos o seu dever moral. Que sejam minimamente solidários. Que tenham compaixão. Ou vergonha.

Tenho 51 anos e uma das poucas coisas que tenho certeza é que ninguém passa indiferente ao tempo.
Daqui a muito pouco tempo, pode ser você neste lugar.

Solange Maia

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

- Me ajuda, gente, puxa aqui comigo...

Morre Ricardo Boechat.
O silêncio devastador que notícias assim impõem é interrompido por um grito:
- Me ajuda, gente, puxa aqui comigo...
Por alguns instantes os 5 ou 6 rapazes à sua volta nada fazem. Buscam registrar imagens do acidente em tempo real, ensurdecidos e ensimesmados, indiferentes à presença real de um homem precisando ser salvo. Filmam a tragédia, enquanto Leiliane age. Tenta sozinha tirar o motorista do caminhão atingido pelo helicóptero.
Morre Boechat e, confesso, um pouco da minha fé.

A vida alheia machuca menos, alguns diriam.
Para mim não.
Dói todo o meu corpo.
E torço pela dissipação dessa sociedade cada vez mais narcísica e pelo fim desse período de alienação.
Torço por mais Leilianes. Por um mundo gregário, por gente de verdade.
Vivemos numa epidemia de distração, numa ausência.

Precisamos sair mais de nós mesmos.
Abandonar essa fronteira vazia.
Temos que reencontrar nossa humanidade.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Odoyá!

Deus, queria te contar que, como as férias da minha filha acabaram, voltamos a acordar antes do sol nascer. Ando alegre por causa disso. Tenho te visto mais. Enquanto espero o leite dela esquentar sento num cantinho da sala e o espio pela janela. Você é cor de rosa nessas horas. Penso que, se não soubesse das coisas, acharia que o mundo tinha acabado de nascer, naquele instante. Bem na minha frente.

Tenho te visto em tantos lugares, de tantas formas e com nomes diferentes, mesmo assim não sei lhe atribuir características ou qualidades humanas, nem pretendo desvendá-lo. Acho bonito assim, esse sentir sem sabermos ao certo. Esse milagre diário.
Sei que está comigo quando flutuo no mar, quando calo minhas dores e em cada uma das minhas cicatrizes.
Está na minha impotência, nas minhas inabilidades e até nas minhas faltas.

Mas, sobretudo, sei que está em cada sino, em cada canto, nos mantras, nas kalimbas e nos atabaques.
Na nave de cada altar, nas sinagogas, no quarto dos idosos, na solidão que nos assola, nos terreiros e nos quintais.
Está na hóstia sagrada, no pão sovado, na farinha de matzá, na sopa de cebola com mandioquinha e em todas as canjicas.
É qualquer abrigo, qualquer presença. É pertencimento e permanência. Está em quem fica. E em quem parte.

Está nas velas que choram, nos incensos perfumados, nas espirais de fumaça, nas ofertas e em cada tapete virado para Meca. Está nos anjos, nas divindades, nas imagens dos santos e nos orixás.

Mas, Deus, amanhã será sábado e não vou acordar antes do sol nascer. Não vou te ver no céu rosado, mas sinto um estranho orgulho porque sei que pertenço a cada um desses fragmentos. Mesmo quando não vejo.
Agradeço por ser eu também um pouco o vento, um pouco a lua, o cordeiro e a serpente.

Essa mistura é tão bonita que já não acho mais tão necessário dar nomes às coisas.
Então, meu Deus, é assim que me despeço: grata como sempre, mas te chamando de Iemanjá.
Só porque sei que você também é o peixe, o cardume, a água, a mulher e o sal.
E porque amanhã o dia é dela!