segunda-feira, 19 de novembro de 2018

minha alegria é coisa séria...

Em mim, a poeira do quarto refletida num raio de sol, gera um sorriso. Parece a coreografia celestial das minúsculas fadas do ar. Demonstrações públicas de ternura causam estado de graça e vontade de abraço. Luzinhas de Natal fora de época emprestam uma felicidade duradoura ao meu coração. Alguém cantando no chuveiro confirma a existência daqueles prazeres que não sabem ficar contidos. Bolo que desmorona de tanto recheio acolhe minha alma e me faz lamber os lábios, quase vejo a confeiteira que não está ali, transbordando afetos em seu feitio. 

Em outros, um raio de sol refletindo poeira é sinal de que a casa precisa de limpeza. Afeto em lugares públicos é inconveniente ou inoportuno. Luzinhas de Natal são feitas para enfeitar dezembro, fora deste contexto destoam dos ambientes. Quem canta no chuveiro não respeita o resto dos moradores. Bolos que desabam são feitos por quem não sabe cozinhar.

Toda moeda tem duas faces, eu sei. Toda história tem seu revés.
Não existe o certo ou o errado, também sei. Mas suspeito que anda faltando poesia no mundo.
Pior que isso, anda faltando alegria.

Respeito as escolhas que incluem outros substantivos que não a alegria: a reticência, a quietude, o desinteresse, a circunspeção e a indiferença.
Respeito sim, respeito até as ausências.
Mas comigo não funciona. Não posso permitir que alegrias escapem.
Já estive em lugares muito escuros e sei que elas são faróis.

Minha alegria é conquistada, encho a boca para dizer.
Levo a sério. Fruto de uma insistência amorosa, da minha paixão pela vida e de um descaso imensa pela rigidez.
Uma benção que aprendi no susto. E que não se ensina. 
Meu patrimônio.

Tem horas que, claro, sinto um desabar, uma desistência e confesso: flerto com o cansaço.
Mas nunca, nunca me relaciono com a ausência de alegrias. 
Não quero.

Posso até decepcionar quem acha que alegria em demasia é esconderijo de dor, ou quem espera por olhares mais contidos e gestos mais “maduros”, eu sei.
Não ligo. Seguirei sentindo alegrias. Sem mágoa alguma por quem não o faz.
Só um lamento.
E uma torcida secreta para que, quem sabe um dia, por sorte ou descuido, sejam surpreendidos por um abraço apertado, inesperado e emocionado. Alegria é assim, não tem orgulho, é disponível.
Basta querer servir-se.

Solange Maia

terça-feira, 13 de novembro de 2018

de carneiros e lobos...


Minha irmã sempre diz que têm noites em que os carneiros viram lobos escuros, peludos e com muitos dentes.
Nessas horas há dores que não passam e feridas que não fecham.
Tanta gente que nos falta.

Mas na escuridão a vida lá fora se aquieta como se quisesse que a gente escutasse as palavras de dentro.
Como se La Fontaine sussurrasse em nossos ouvidos que, infelizmente, algumas vezes o desejo do "mais forte" prevalece sobre o mais fraco.
E que isso acontece a despeito dos lobos ou daquela parte da gente que sabemos que se foi, e que não volta.
Como se fosse preciso nos lembrar que existem coisas que duram mais do que achamos que conseguimos suportar.

Carneiros espúrios fazem doer pedaços que a gente nem sabia mais existir.
Abrem cadeados de gavetas secretas sem precisar de chaves, só para colocar à vista autoridades ilegítimas e tiranos sorridentes.
Alguns deles nos levam ao chão e mal conseguimos respirar.
Mas nunca, nunca duram para sempre.
E, o irônico é que, são os próprios lobos escuros que nos salvam.

Nos salvam porque quando saem das sombras já não são mais nossos. Ficam à deriva. 
São lobos bobos, donos de discursos ocos e muito, mas muito, mais fracos que os nossos desejos.
Talvez eles não saibam, mas há sempre um sol amanhecendo em outro lugar. Sempre um modo de sair do escuro.

Noites assim me fazem desejar que prevaleça a verdade.
Prefiro distâncias honestas a aproximações hipócritas.
Me sinto livre. E triunfante.
Os lobos que me desculpem, mas sou feita de amor


Solange Maia

sábado, 27 de outubro de 2018

ne me quitte pas...

 
O amor vinha sempre revestido de uma escolta de aspereza, eu sei.
Nem mesmo palavras escolhidas em compotas açucaradas conseguiam encobrir seu maior desejo: queria ser livre.
Livre e desobrigada das pessoas.
E a ideia do desprendimento era sempre tão tentadora que te fazia desejar viver distante.
Não gostava nem de interferências nem de opiniões.
Reservava para si seu recôndito em frente ao mar.
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Você não sabe, mas eu torcia para que fosse mentira, só um capricho, uma teimosia.
Ficava imaginando que talvez tivesse havido um tempo em que você gostasse mais dos afetos e das presenças.
Mas de tanto repetir que amava sua independência só o que criou foi um distanciamento. Uma ausência.
E o tempo, impetuoso, decorre insensivelmente sem conceder chances de bis.
Passou.
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E agora? Agora é como se houvesse um toque de recolher mudo: não se ouve, mas sabemos que está lá.
Talvez por isso os dias estejam nascendo mais escuros, cheios de horas vagas, cheios de vazios.
Encolho-me de frio. Sinto um cansaço tão grande que dá vontade de chorar.
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Quando penso onde você está agora, tudo em mim desmorona.
Então fecho os olhos e te tiro dali.
É de novo aquela mulher linda. Segurando o microfone com os olhos fechados, num bar perto da praia.
Sua voz aveludada começa a canção: “Ne me quitte pas” ... Engulo em seco.
Finjo que não morro por dentro e torço para que o tempo lhe devolva o seu mar.
Acreditar é meu modo de tornar suportável o insuportável.
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Solange Maia

sexta-feira, 6 de julho de 2018

os números já não têm a menor importância...

A cada manhã o mundo é outro.
Acordei com 51 anos e, sabendo disso, os números já não têm a menor importância.
Não se pode pretender segurar o tempo uma vez que é ele que me presenteia com tantos encantamentos: Bebela já lê livros inteiros, o cabelo da minha irmã está crescendo, meu amor plantou jasmins comigo, e eles estão florindo, mantenho amigos da infância, faço novos amigos, aprendi a fazer estrogonofe de shimeji e a cantar o Gayatri Mantra sem errar. Vou abandonando meus desassossegos e conquistando uma aceitação dos fatos que é muito tranquilizadora. O chão onde piso faz mais sentido agora. E nunca, nunca desejei tanto a paz.
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Tenho algumas tristezas que ainda ontem não estavam aqui, mas vivo, apesar delas. Já aprendi o estrago que palavras ditas no escuro do inverno podem fazer.
Com mais estrada sob os meus pés, percebo que algumas coisas reclamam consistência: gente monocromática me cansa, palavras ácidas revelam muito sobre quem as diz, excluir é um verbo que deveria ser excluído, desamparo é condição, não verbo, mas também não deveria existir. Uma mentira precisa de muitas outras para se sustentar. E, infelizmente, falta muita ternura nesse mundo, e gente com coragem para mudar tudo isso.
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Alguns sonhos permanecem suspensos. Os outros realizo nas pequenices dos dias: tenho manjericão no terraço, luzinhas de Natal o ano inteiro, uma lista dos lugares que ainda vou conhecer e uma coleção de palavras e frases que amo: minarete é uma delas, e “Alice tirava o silêncio dos cantos da casa” é outra. Estão entre as minhas preferidas.
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Ainda ‘sofro’ de encantamentos, graças a Deus: todas as manhãs me surpreendo com a alvorada e suas cores incríveis, amo ver os pontinhos de poeira brilhando no quarto, na luz que entra pela fresta da janela, são quase vagalumes diurnos. Estradas me fazem sentir uma alegria tola, pudim de caramelo também. Música me comove, ver gente dançando também. O amor renova minha fé. Sempre.
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Algumas coisas já sei, aprendi: trocar palavras por gestos. Rezar. Ouvir o sagrado. Agradecer. Sei também das portas que um sorriso abre. Que relações precisam de mãos. E de olhos. Sei escutar e sei acolher. Sei fazer panquecas. Sei que a verdade é absolutamente libertadora, mas que deve ser dita com delicadeza. Sei que a maturidade só vem depois que nos faltam pessoas. E afetos. Que desonestidade é uma questão de caráter. Que longas explicações desejam esconder longas faltas, ou medir milagres usando matemática. Quero, cada vez mais, estar perto de gente nutritiva, mas hoje, reconheço que distâncias também me socorrem.
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Celebro meus 51 anos ciente de que a vida nunca foi fácil, mas sorrio secretamente por dentro, pois nunca, jamais, perdi a doçura.
A cada manhã o mundo é outro. Tudo diferente.
Só uma coisa não muda: preciso acabar os dias com o coração completamente cheio!


Solange Maia

sábado, 16 de junho de 2018

do que potencializa a vida...

Gosto de escrever a noite quando as palavras são só vultos e não podem ser maiores que os gestos.
Foram tantas conversas boas, tantas histórias, tanta partilha, mas ando numa fase que é o não dito que alcança minha alma, que conversa comigo: o macarrão quente perfumando a mesa, o arroz tão branco, posto nas duas extremidades, comunicando que a todos serve, a casa coloridinha de ternura, os olhares, as pausas, as risadas e todas aquelas temperaturas... 
Falamos da vida, das nossas experiências, de como as coisas nos tocam. Fomos das profundezas ao riso em segundos, voltamos ao fundo e à superfície outras tantas vezes. 
A velocidade interna e a externa, por vezes, entrava em descompasso e a gente se desequilibrava, mas não caia. Naquela tarde tudo era amparado pelos afetos, pelo colo vindo em forma de riso, por outras conversas que se sobrepunham e por um acolhimento que se precisa tanto, mas que, de tão escasso, a gente se esquece.
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Com eles acontece de não nos protegermos. De nada. A gente fica tão legítimo que as emoções não permanecem retidas em nenhum filtro da razão ou da lógica. Tudo flui: leve, engraçado, honesto, humano.
Aprendo, acolho e guardo.
E a semana vai me devolvendo, devagarzinho, cada coisa aprendida, com novas cores e novos sentires. Em câmera lenta recebo esse presente silencioso que vai me tornando um ser humano melhor. Agradeço.
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Penso que tardes assim deviam ser embrulhadas em laços de fita e oferecidas de presente a tanta gente que anda perdendo a esperança nas pessoas, deviam virar música num coral de crianças que sensibiliza adultos com tanta facilidade, deviam fazer parte de biografias de gente que a gente admira e que consegue ser feliz nas simplicidades. Tardes assim vão nos devolvendo a fé.
A vida pode ser dolorida em muitas circunstâncias, eu sei, mas nego-me, veementemente, a viver com o coração amortecido.
Aprendi ontem que o universo sempre diz sim. Seja qual for o nosso pensamento. Nada nos é negado, e, por isso mesmo, devemos estar atentos ao nosso desejar.
Mais um motivo para querer repetir dias assim. 
São eles que salvam o mundo. 
É o amor que sempre, sempre, sempre potencializa a vida.
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Solange Maia

quinta-feira, 31 de maio de 2018

esferas de luz...

Existe uma praia na Califórnia, chamada Glass Beach.
Por cima da areia ela tem um tapete de pedrinhas de vidro multicoloridas que brilham sob a luz do sol. O lugar é lindo. Mas, mais do que isso, aquela praia é um convite à reflexão.
Durante anos os moradores da região jogaram lixo doméstico naquele lugar, sobretudo garrafas de vidro. Faltava-lhes consciência, é claro, e as autoridades proibiram que se jogasse qualquer vidro no local. Glass Beach tornou-se área de proteção ambiental, deslumbrante, e, embora hoje seja proibido recolher os pedaços de vidro que lá estão, tem gente que ainda o faz. Ironicamente, em uma região onde se tornou proibido jogar pedaços de vidro, agora é proibido retirá-los.
Mas não é sobre isso que escrevo. É sobre o mar.

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O mar e seu infinito mistério. O mar e suas ondas que foram quebrando, sem pressa, cada uma das garrafas abandonadas em suas profundezas. Que foram lapidando aquele lixo. Cada caco, com o passar do tempo, foi se transformando numa pequena obra, lisa e esférica. Até que os lindos pedaços de garrafa descartados no mar se misturassem à areia da praia formando um dos mais fantásticos caleidoscópios de luz, um presente da ação do tempo. Um mosaico de cores para o nosso deleite. A natureza simplificando, solucionando um “erro” sem se focar nele.
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Aquela praia, que fez do lixo seu tesouro, me ensina tanto sobre a vida. É que de vez em quando a gente precisa deixar a luta de lado e entender que a dor que nos emudece é a mesma que nos amacia logo adiante. E, se o mundo segue nessa espiral ascendente sem fim, devíamos aprender com ele. Devíamos confiar no tempo, acolher sem medo o que “os moradores da região” jogam em nosso mar, e ter fé. Ninguém faz esferas de luz tão bem quanto pessoas feridas. Alguns chamam isso de pedagogia divina. Eu chamo de renascimento, resiliência.
Porque aprender é sempre um presente, mesmo que, vez ou outra, nosso mestre seja a dor. 

Solange Maia

terça-feira, 27 de março de 2018

melhor coisa do mundo...


Eu trabalhando na mesa da sala e Bebela lendo um livro da escola no sofá.
De repente, ela interrompe o silêncio e fala:
- Mamãe, esse livro parece você. Posso ler?

Era incrível, mas nem a fome conseguia silenciar seu jeito de olhar as coisas. Via verde na terra seca, comida em prato vazio, flores em galhos secos”.

Meus olhos encheram d’água.
É, acho que ela conhece bem a mãe que tem!

( “As Cores da Escuridão” - de Ieda de Oliveira)

sexta-feira, 9 de março de 2018

ela nunca foi um lar...


Ela não queria ficar velha. Conseguiu.
Tinha quase 100 anos e nela não se via o tempo, vivia ao sabor dos seus desejos e conveniências, nascia junto com o sol, todos os dias, e punha-se somente se quisesse.
Construiu suas relações de forma elegante e líquida. Sempre cordial, educada, mas sem entregas reais.
Para ela, o afeto e as longas conversas eram tolices, incômodos, na verdade.

Investia seu tempo na aquisição de conhecimentos acadêmicos, idiomas, culturas, livros, músicas, mas nunca, nunquinha investiu na construção de alianças, nunca em relações duradouras e nutritivas. Nunca se demorou em alguém.
Como desconfiava que o mundo podia ser muito mais do que um conjunto de conhecimentos, construiu defesas emocionais que mais se pareciam com fortes prontos para esvaziar qualquer apreço familiar. Tolices.

Passou a vida estabelecendo prioridades, enfileirando preferências, porém, sempre lhe foi custoso demonstrar seus sentimentos. Faltam-lhe experiências táteis. Faltava-lhe o outro.
Com uma resposta sempre pronta na boca ia gravitando entre suas erudições e suas ausências, metade orgulho, metade falta.

Viveu por conta própria, curando feridas emocionais que eventualmente não pôde evitar, polindo seus afastamentos.
Construiu distâncias.
Agora, secular, torço para que seu patrimônio seja o esquecimento. Torço para que não se sinta tentada a fazer um balanço, para que suas ausências a salvem, para que não se sinta afetada, para que seja seu próprio abrigo.
Tanto esforço para preservar suas convicções, que acabou inconsistente.
Faltou-lhe repertório.
Era uma casa bonita, mas nunca havia sido um lar.

Solange Maia