quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

só uma mulher sabe...

Há um trançar metafísico, onde quer que eu vá.
E, cada vez que tentar definir alguma coisa, vou perdê-la num resumo tolo.
Nem tudo carece de significado.
Trançar é para sentir.
Não para entender.

Será que só uma mulher sabe salvar a outra ? Trançam seus cabelos num ciclo interminável de afeto e vagareza.
Só para estarem presentes, sem precisar de longas explicações.
Mãos seculares separando mechas, levando-as de um lado ao outro, sem precisar de razões. O tempo envelhece lentamente enquanto elas ouvem e contam histórias, enquanto acolhem solidões e aplacam dias em que não queriam existir.
Mãos ungindo cabeças, conferindo-lhes de volta dignidades perdidas, consagrando o fato de serem mulheres, parideiras, companheiras, complexas, amplas, agridoces. Até mesmo em tempos exaustos cheiram a gengibre e a caramelo.
Trançam sem descanso.
Morrem um pouco.
Depois renascem.

Trançam hoje, para fazê-lo de novo amanhã. Para lembrar que o amor existe.
Trançam porque sabem que o vento e o tempo as desfarão.

A vida segue o rumo que pode.
Sem permanências.
Mulheres sabem: sempre haverá tranças por fazer.

Solange Maia

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

não vale a pena...

Acho a arrogância um estado solitário.
Custo a entender porque tanta gente precisa desse subterfúgio.
Pra mim a soberba é sempre uma denúncia, é feita de uma nobreza que não chega. Tem urgência, tem pressa, não sabe ficar.
E nem conseguiria, afinal, nela a verdade nunca vem.

A arrogância é cheia de uma fragilidade que não se esconde, de uma demência, uma ausência.
Um modo tolo de atribuir a si um poder que não se tem.
É prerrogativa de gente que julga que, por ter certa superioridade, seja hierárquica, intelectual ou econômica, merece mais.
A arrogância um estado vazio.

E dura pouco, garanto, afinal é um estado vítreo de estrutura sólida desordenada.
Se você observar bem o arrogante está lá, mas sempre, sem estar.


Solange Maia

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

de algumas fragilidades...

A menina era forte, sabida e muito corajosa.
Mas acordou um dia sentindo medo da solidão. 
Não era medo de escuro ou de fantasmas, embora às vezes os confundisse.
O medo que sentia era abstrato, muito mais uma sensação.

Sabia que a solidão era uma coisa diferente de estar sozinha.
Ela não estava.
Mas sentia um buraquinho, um vazio, um vento gelado por dentro.
E quase ninguém via... é que muita gente não percebe pedidos de socorro.

Rezava para que não acontecesse, mas ele vinha.
Era um velho conhecido, antigo mesmo, desses que sentam sempre na mesma velha poltrona.
E o medo sussurrava uma voz de mulher: estou indo embora, e não vou voltar.
Então, só o que restava era a solidão. Bem grandona.

A menina ficava triste porque sabia que tudo isso só acontecia dentro dela.
Não contava para ninguém, mas sabia mais 2 coisas: que o medo era sua alma pedindo algo, e que tudo isso ia passar.
Só não sabia ainda o que era...
Nem quando.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

carta para Bia...

Chegou, mana.

Amanhã você vai dar um passo tão importante que jamais se esquecerá. Vai enfrentar, como já tem feito, uma “dor” que não devia existir, um problema que não foi merecido, que não é justo, mas que está lá. Está lá porque a vida é assim, porque às vezes nos põe à prova, nos leva ao limite, nos apresenta de novo para nós mesmos.
E a gente descobre coragens e forças que nem sabíamos possuir. E se respeita ainda mais.
E nasce de novo. Mais forte e, paradoxalmente, mais suave.

Não tente encontrar explicação. Não há.
O que vai encontrar é outro tipo de riqueza: são estes anjos que a tem acompanhado, esses encontros mágicos, esta lista de milagres que construiu e que tem compartilhado com quem ama.
E mais, o principal, terá muito, muito, muito respeito pela vida.

Amanhã, se tiver um tempo, deitada no hospital, pense em Chiang Mai.
Chiang Mai naquelas noites em que milhares de pessoas levam suas lanternas iluminadas para a beira d’água. São noites de muito amor e alegria. Pense na sensação de estar vendo a sua lanterna subindo, se juntando às lanternas das outras pessoas, até que sumam no céu. É um momento mágico em que você percebe que sua lanterna é única e importante, mas que faz parte de um todo, e que juntos iluminam todo o céu, tornando o lugar ainda mais bonito... ou seja, é a sua luz individual fazendo parte do coletivo universal...

Amanhã estaremos assim, Bia, cada um dos seus amigos e dos seus amores com sua lanterna, nos lugares mais diferentes, te enviando a melhor de nossas energias, e faremos tanta luz, tanta, que no instante em que estiver sendo operada haverá um céu iluminado e lotado de amor.

Em Chiang Mai comemora-se a vida, o amor e a gratidão.
No Sírio Libanês também.
Prometo um dia te levar lá...
Te amo. Vai com Deus e volta logo.
Estou te esperando.

Soli

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

fome é outra coisa...

Quando ele cozinhava, era imagem icônica, quase esfinge.
Algumas vezes era ele mesmo, em outras não era ninguém.
Seu compromisso nunca havia sido com a nutrição, era o desejo que o seduzia.
Nada acrescentava sem antes envolver no côncavo de suas mãos. Precisava sentir a textura, a forma, a temperatura.
Era um alquimista sensorial. Fazia de seu ofício um despertar de sensações.

Depurava, reduzia, misturava. Ultrapassava o paladar.
Sua pretensão era provocar espasmos, encantamentos, fragmentar a respiração, parar o tempo.
Sabia que o segredo era avivar os sentidos. Devolver prazeres tão esquecidos.
Aplacar a fome era consequência.
Todas elas.

Pertencia às pessoas e precisava quase nada além disso.
Era bruxo, holístico, e cozinhar era sempre encurtar o caminho até o outro.
Longe de ser cartesiano, fazia do seu ofício sempre uma presença inefável.

Aprendera faz tempo que vontade de comer se mata fácil, com a boca.
Mas não satisfaz.
Não a ele.
O negócio dele era satisfazer a fome.
E fome, fome é algo bem maior...

Solange Maia

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

palavras doces não ditas...

Palavras de ordem me causam desinteresse.
Pessoas que acham que pequenas feridas não doem, também.
Porque as vezes fica tudo entalado na garganta, num nó que não nos deixa nem falar.
Há uma crença de que teremos sempre tempo para dizer as palavras doces não ditas.
Até que a gente descobre que não tem.
E só então percebe que somos todos passageiros.

Solange Maia

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Maria da rua...

Maria fazia uma coisa com as mãos.
Segurava nas dele com firmeza, criando um elo, um vínculo, sem qualquer hesitação.
E permanecia nele até que o tempo sumisse.
A dor não. A dor, ela sabia, ainda estava lá.

O lugar era pequeno, muito pequeno, no rodapé sálvia, alfazema, alecrim e manjericão. Folhas quentes perfumando o ambiente.
Eram para proteção.
Algumas velas, ventania só lá fora.
Ali dentro tudo era densidade e calor.

Maria ecumênica, que veste branco e tem sempre os pés descalços. Maria generosa, que faz canjica e que abre as portas de sua casa.
Maria que é mãe, que é abrigo, que é densa.
Maria que é doce, que é abraço e que é coragem.
Maria das dores e das solidões.
Maria da rua.
Maria que eu nunca vi, mas sei que é boa.
Maria de fé, do cais e do caos.

Quietude. Até que, de repente, um arfar rompe o silêncio seguido por um choro doído.
Era Maria, ampla, levando embora aquela dor.
Era sempre assim. E dava sempre certo.
Ela fazia alguma coisa com as mãos.

Ave, Maria. Salve tua graça.
E rogai por nós.

Solange Maia
08/12/2015

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

então o amor esfria?

Hoje, lá perto de casa, um casal chamou minha atenção. Ele caminhava muitos passos na frente dela. Havia um vale imenso entre os dois, qualquer um podia ver. Essa indiferença me entristeceu. Onde foi que isto aconteceu? Ela tão bonita e ele tão interessante. Em que parte da relação eles pararam de se desejar? Porque ainda iam juntos ao mercado? E juntos na vida?

Lá dentro, nos cruzamos mais uma vez, ele perguntando se deviam levar pêssegos ou ameixas, ela erguendo os ombros sem mover os olhos, como quem diz, sem precisar de palavras, que pouco importava.
Já não havia paladar, nem vontade de experimentar, não diferenciavam mais os sabores. Um pêssego ou uma ameixa, tanto fazia, já não lembravam mais do gosto de um, ou do outro, não havia mais mimos ou dengos, não se descascava a fruta, enfeitava o prato ou aquecia o leite.
Tudo morno.

Mas em algum tempo haviam sido apaixonados, sentiram ternuras e arrepios, escreveram bilhetes, acariciaram-se, dormiram de conchinha, contemplaram paisagens no bom silêncio, riram deles mesmos, encontraram alegrias nas coisas singelas, esperaram o outro para jantar, tomaram vinho, fizeram planos, passaram perfume, levaram toalha seca na saída do banho, separaram o travesseiro mais macio para uma noite de sono especial, levaram café na cama e escreveram recadinhos no espelho do banheiro. Beijaram-se demoradamente, posso apostar.

Então como viraram aquilo que eu estava vendo?
Não havia mais nem admiração, nem amizade. O sentimento havia mudado, era evidente. Acreditavam não ter mais idade para febres ou paixões. Talvez tenham crescido em direções diferentes, talvez tenham negligenciado a relação, se acomodado na certeza de que as coisas eram assim para todo mundo e que, o que valeria a partir de agora, era saber que tinham alguém. E pronto.
Como assim?

A vida pode ser tão melhor...
E o amor precisa (e merece) ser cuidado, estimulado, desejado.
É atemporal. É delicioso.
E dá trabalho! Dá muito trabalho.
Porque morre no descuido, na preguiça, na maldita certeza do amanhã e, sobretudo, na indiferença branda que muita gente gosta de confundir com ‘efeitos do tempo’.

Não acredito nisso.
Dê àquele casal novos parceiros... e duvido que ele andasse tão à frente dela, ou que ela nem respondesse mais às perguntas dele.

O amor é uma das melhores coisas do mundo, mas não aceita indiferença.
Nela, morre.
Morre.

Solange Maia

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

experimentando o vazio...

(fotografia clicada por mim - Deserto de Mojave - 15.out.2015)

As 15h59 o termômetro marcava 117 °F, ou seja, 47,22°C, no Deserto do Mojave. Eu estava lá, contemplando aquele cenário inóspito chamado Vale da Morte.
Outubro. Ninguém num raio de 40 ou 50km. Nada, nem água, nem gente, nem casa, nem posto de gasolina. O GPS era uma tela em branco. Ninguém mapeou aquele lugar, o sinal desaparece. Desaparece a vida. Nenhum bicho, nenhuma ave, nenhum réptil, nenhuma planta.
Nenhum verde.
Aos poucos desaparece o tempo, a saudade, a memória. Desaparece o passado.
Nenhuma nuvem, nenhum som.
A impressão que tive é que de repente parei de respirar.
O sol irradiava um clarão ofuscante e dramático, mas parecia noite. De uma escuridão exagerada, interna, eu sabia. De uma rudeza áspera.
De uma beleza absurdamente solitária.
Olhar esse nada, estranhamente, me devolvia a mim.
Eu já havia sido cada uma daquelas pedras, cada centímetro daquele vazio.

Senti necessidade de fechar os olhos para existir.
E ali fiquei, experimentando aquela ‘não existência’  até que encontrasse o final dos meus medos.
Mas estava quente demais, e os quase 50°C me devolveram rapidamente à realidade.
Abri os olhos e o sol incandescente impunha seu calor, simplesmente. Cada coisa existindo, exatamente como devia ser.
O bicho pequeno, rasteiro, para diante de mim e riu.
O nada é habitado, eu já sabia.
Devagar, e aos poucos, fui voltando a respirar.
E lá estava o deserto e suas encostas coloridas, cheio de dunas onduladas e de um horizonte que não acaba.
Cheio de um vazio tão necessário.
Bonito é quando a gente percebe que somos todos feitos desses pedaços desabitados, embora, assim como no deserto, o vento, os cactos, o escorpião, a serpente, o falcão e o lagarto, estejam sempre ali.
Sempre ali.

Solange Maia

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Livro a VENDA !!!

Queridos amigos leitores,

O livro ficou pronto!
E está lindo... 
Uma experiência deliciosa nascida dos muitos encontros fantásticos que tivemos. Pessoas que nunca havíamos visto antes, mas que, aqui e ali, nessa imensa cidade em que moramos, chamaram nossa atenção e viraram nossos 'personagens'. São rostos cheios de histórias para contar!
Falamos sobre coragens, saudades, vazios, amores, e todos aqueles sentimentos dos quais não podemos nos esquivar...

Escrever com o Helder fez a coisa ser ainda mais gostosa!
Tem contos meus, dele, e nossos... todos feitos para vocês!

O livro está muito bacana, tem capa dura, 25x23, uma composição entre imagens e textos de tirar o fôlego... Não deixe de ter o seu!

beijos carinhosos... 

ESTÁ A VENDA AQUI !
R$ 60,00

PRESENTEIE QUEM VOCÊ AMA COM SENSIBILIDADE 
E COM DELICADEZA!
Podemos enviar com dedicatória especial...

A entrega pode ser feita pelos Correios em qualquer lugar do Brasil ou do Exterior.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

finalmente, o lançamento...

Será uma imensa honra ter vocês, meus amigos e leitores, presentes neste próximo dia 27 de novembro, domingo, lá na Livraria da Vila do Shopping JK Iguatemi (São Paulo).
Quero abraçar cada um de vocês!
O livro nasce maravilhoso... 

beijos,
Solange Maia

sábado, 29 de outubro de 2016

essa mulher não quis mais...


Sim, ela está acima do peso; O cabelo precisando de um corte, e a roupa meio fora de 'moda'.
Mas você já parou para conversar com ela? Sabe do que o abraço dela é capaz? Ela já te contou as coisas que viveu? Já sentiu o calor de sua mão, ou foi olhado demoradamente por ela?
Se não, você não sabe nada.
Não sabe o que pode estar perdendo.

Para ela, o único padrão aceito é aquele que a deixa feliz. Investe seu tempo em ser um ser humano melhor. Sabe tocar um coração e faz com os quilinhos extra o que bem entende!
Ela escolheu ser linda, exatamente como é.

Essa mulher representa milhares de nós. Afinal, atravessamos gerações de silêncios e de opressão, e ainda somos reféns de padrões e de modelos.
Até que algumas se cansam. Negam-se a continuar.
Como ela.
Ela não está mais disposta a isso.
Esta mulher não quis mais.
Ela gosta do seu corpo, das suas cicatrizes, das marcas de expressão, da vida impressa em seu rosto, dos eventuais cabelos brancos, e dessa liberdade conquistada a duras penas.

Essa mulher pode, e vai, ser sempre o que ela quiser!

Solange Maia