sexta-feira, 5 de maio de 2017

pra comer de colherzinha...

Na Rua Comte Félix Gastaldi, no condado de Mônaco, existe um restaurante que serve massas tão delicadas, que envolvidas por nata, ricota e basílico vêm à mesa de um jeito diferente: ao lado do prato somente talheres de sobremesa, sim, aqueles menores. Nada de garfos comuns.
Fazem assim para que a gente coma aos bocadinhos. Para que possamos degustar cada mínima nuance do sabor, da temperatura e da textura. Lá eles fazem com que o caminho entre o talher e o estômago passe pelo coração. É uma experiência que não se esquece jamais.

Porque eles sabem que comer é uma coisa, e degustar é outra.
Degustar faz você se emocionar. Transcende o ato.
Assim como sabemos que o amor que é uma coisa, e sexo é outra.
No amor prolonga-se o prazer para que o perfume do outro demore dentro da gente.

E, nos dois casos, a satisfação está no tempo que se demora, não no que se arrasta.
No saborear sem pressa e atento, para que se recolha o prazer na boca, mas não o derreta.
Para que o resultado compense o tempo dispensado no preparo...
Na feitura é necessário vigor, nunca força.
As vezes é preciso  diminuir a tensão, nunca afrouxar.
Bons temperos, mas sem exageros. 
Afinal, queremos nos sentir saciados, nunca extenuados.

Comer e amar são delícias permeadas de mistérios.
Nossos precisam, sempre, enxergar uma promessa.
E, tanto um quanto o outro, sendo bem feitos, 
são para se comer de colherzinha...

Solange Maia

quinta-feira, 13 de abril de 2017

ela sabe tudo do amor...




Ela me deu um pastel de queijo.
E uma surpresa: em meio ao caos conseguiu reunir meus pais e, de uma forma tão doce e criativa, minhas 2 irmãs (elas ao telefone). Colocou sobre a mesa da sala o bolo, já aberto e de antes de ontem, de limão siciliano. As velas, com os números 1 e 2, haviam sido usadas no seu aniversário. Finalizou com um bilhete lindo. Exatamente como sabe que eu amo.

Ela me deu TUDO, sem precisar de quase 'NADA".
Tão nova e já entende do amor e de seu desprendimento.
É, ela me deu um pastel de queijo.
E, mais uma vez, fez meu coração transbordar.

Solange Maia

quinta-feira, 30 de março de 2017

dessas Deusas sem cabelo...

para minha irmã Bia

A menina, muito pequenina, era guardiã de um segredo.
Mas há muito tempo não se sabia dela.
Até aquela tarde.
Costumo dizer que a aridez dos desertos parece convidar aos milagres.
E que os Deuses agem nas sutilezas, quase sempre em silêncio.

A primeira tesourada foi acre. Nada parecia justo.
Cortes secos, marciais. Linhas retas.
As mechas longas no chão pareciam querer ensinar àquela mulher o que ela já sabia: a vida tem suas próprias leis.
Ainda faltava um sentido, precisava entender os propósitos.
Engoliu seco, baixou a cabeça e chorou.

Até que, buscando encher os pulmões de ar e de vida, levantou a cabeça mais uma vez.
Foi neste exato instante que o milagre aconteceu.
Era a menina, muito pequenina, que olhava para ela no espelho a sua frente, vinda lá da infância, com seus olhos doces, lembrando-a de coragens ancestrais e mostrando a ela que seu grande patrimônio era a vida.
Demorou o olhar nela mesma. Sorriu. A partir daí, quanto mais os cabelos caiam no chão, mais leve ela se sentia. Seu corpo, agora, parecia envolvido por uma espiral de luz.
Sentiu-se majestosa. Percebeu-se incansável.
Estava pronta.
Podia ser, a qualquer momento, mais uma dessas Deusas sem cabelo...

Solange Maia

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

duas formas de oração...

A vela é só um modo de tornar visível a nossa fé. sabemos que Deus está ali, e independe dela. Mas, de vez em quando, a gente precisa "ver" a oração.

Assim como a mulher muda a cor dos cabelos.

O que menos importa ali é o tom ou o comprimento. Aquela mulher quer dizer alguma coisa. E, naquele instante, como se assim fortalecesse o que vem construindo por dentro, ela precisa "ver" sua transformação. Qualquer que seja ela.
E, assim, reproduz exatamente o mesmo gesto da vela.
Muda o cabelo,
mas só o que quer é enxergar a sua oração.

Solange Maia


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

só uma mulher sabe...

Há um trançar metafísico, onde quer que eu vá.
E, cada vez que tentar definir alguma coisa, vou perdê-la num resumo tolo.
Nem tudo carece de significado.
Trançar é para sentir.
Não para entender.

Será que só uma mulher sabe salvar a outra ? Trançam seus cabelos num ciclo interminável de afeto e vagareza.
Só para estarem presentes, sem precisar de longas explicações.
Mãos seculares separando mechas, levando-as de um lado ao outro, sem precisar de razões. O tempo envelhece lentamente enquanto elas ouvem e contam histórias, enquanto acolhem solidões e aplacam dias em que não queriam existir.
Mãos ungindo cabeças, conferindo-lhes de volta dignidades perdidas, consagrando o fato de serem mulheres, parideiras, companheiras, complexas, amplas, agridoces. Até mesmo em tempos exaustos cheiram a gengibre e a caramelo.
Trançam sem descanso.
Morrem um pouco.
Depois renascem.

Trançam hoje, para fazê-lo de novo amanhã. Para lembrar que o amor existe.
Trançam porque sabem que o vento e o tempo as desfarão.

A vida segue o rumo que pode.
Sem permanências.
Mulheres sabem: sempre haverá tranças por fazer.

Solange Maia

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

não vale a pena...

Acho a arrogância um estado solitário.
Custo a entender porque tanta gente precisa desse subterfúgio.
Pra mim a soberba é sempre uma denúncia, é feita de uma nobreza que não chega. Tem urgência, tem pressa, não sabe ficar.
E nem conseguiria, afinal, nela a verdade nunca vem.

A arrogância é cheia de uma fragilidade que não se esconde, de uma demência, uma ausência.
Um modo tolo de atribuir a si um poder que não se tem.
É prerrogativa de gente que julga que, por ter certa superioridade, seja hierárquica, intelectual ou econômica, merece mais.
A arrogância um estado vazio.

E dura pouco, garanto, afinal é um estado vítreo de estrutura sólida desordenada.
Se você observar bem o arrogante está lá, mas sempre, sem estar.


Solange Maia

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

de algumas fragilidades...

A menina era forte, sabida e muito corajosa.
Mas acordou um dia sentindo medo da solidão. 
Não era medo de escuro ou de fantasmas, embora às vezes os confundisse.
O medo que sentia era abstrato, muito mais uma sensação.

Sabia que a solidão era uma coisa diferente de estar sozinha.
Ela não estava.
Mas sentia um buraquinho, um vazio, um vento gelado por dentro.
E quase ninguém via... é que muita gente não percebe pedidos de socorro.

Rezava para que não acontecesse, mas ele vinha.
Era um velho conhecido, antigo mesmo, desses que sentam sempre na mesma velha poltrona.
E o medo sussurrava uma voz de mulher: estou indo embora, e não vou voltar.
Então, só o que restava era a solidão. Bem grandona.

A menina ficava triste porque sabia que tudo isso só acontecia dentro dela.
Não contava para ninguém, mas sabia mais 2 coisas: que o medo era sua alma pedindo algo, e que tudo isso ia passar.
Só não sabia ainda o que era...
Nem quando.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

carta para Bia...

Chegou, mana.

Amanhã você vai dar um passo tão importante que jamais se esquecerá. Vai enfrentar, como já tem feito, uma “dor” que não devia existir, um problema que não foi merecido, que não é justo, mas que está lá. Está lá porque a vida é assim, porque às vezes nos põe à prova, nos leva ao limite, nos apresenta de novo para nós mesmos.
E a gente descobre coragens e forças que nem sabíamos possuir. E se respeita ainda mais.
E nasce de novo. Mais forte e, paradoxalmente, mais suave.

Não tente encontrar explicação. Não há.
O que vai encontrar é outro tipo de riqueza: são estes anjos que a tem acompanhado, esses encontros mágicos, esta lista de milagres que construiu e que tem compartilhado com quem ama.
E mais, o principal, terá muito, muito, muito respeito pela vida.

Amanhã, se tiver um tempo, deitada no hospital, pense em Chiang Mai.
Chiang Mai naquelas noites em que milhares de pessoas levam suas lanternas iluminadas para a beira d’água. São noites de muito amor e alegria. Pense na sensação de estar vendo a sua lanterna subindo, se juntando às lanternas das outras pessoas, até que sumam no céu. É um momento mágico em que você percebe que sua lanterna é única e importante, mas que faz parte de um todo, e que juntos iluminam todo o céu, tornando o lugar ainda mais bonito... ou seja, é a sua luz individual fazendo parte do coletivo universal...

Amanhã estaremos assim, Bia, cada um dos seus amigos e dos seus amores com sua lanterna, nos lugares mais diferentes, te enviando a melhor de nossas energias, e faremos tanta luz, tanta, que no instante em que estiver sendo operada haverá um céu iluminado e lotado de amor.

Em Chiang Mai comemora-se a vida, o amor e a gratidão.
No Sírio Libanês também.
Prometo um dia te levar lá...
Te amo. Vai com Deus e volta logo.
Estou te esperando.

Soli

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

fome é outra coisa...

Quando ele cozinhava, era imagem icônica, quase esfinge.
Algumas vezes era ele mesmo, em outras não era ninguém.
Seu compromisso nunca havia sido com a nutrição, era o desejo que o seduzia.
Nada acrescentava sem antes envolver no côncavo de suas mãos. Precisava sentir a textura, a forma, a temperatura.
Era um alquimista sensorial. Fazia de seu ofício um despertar de sensações.

Depurava, reduzia, misturava. Ultrapassava o paladar.
Sua pretensão era provocar espasmos, encantamentos, fragmentar a respiração, parar o tempo.
Sabia que o segredo era avivar os sentidos. Devolver prazeres tão esquecidos.
Aplacar a fome era consequência.
Todas elas.

Pertencia às pessoas e precisava quase nada além disso.
Era bruxo, holístico, e cozinhar era sempre encurtar o caminho até o outro.
Longe de ser cartesiano, fazia do seu ofício sempre uma presença inefável.

Aprendera faz tempo que vontade de comer se mata fácil, com a boca.
Mas não satisfaz.
Não a ele.
O negócio dele era satisfazer a fome.
E fome, fome é algo bem maior...

Solange Maia

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

palavras doces não ditas...

Palavras de ordem me causam desinteresse.
Pessoas que acham que pequenas feridas não doem, também.
Porque as vezes fica tudo entalado na garganta, num nó que não nos deixa nem falar.
Há uma crença de que teremos sempre tempo para dizer as palavras doces não ditas.
Até que a gente descobre que não tem.
E só então percebe que somos todos passageiros.

Solange Maia