segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

história ou estória ? ...para meu leitor anônimo

E que fique muito mal explicado.
Não faço força para ser entendido.
Quem faz sentido é soldado...
Mario Quintana

Minha última postagem me ofereceu uma rara oportunidade. A de confessar, como diz meu namorado, que sou muito melhor fotógrafa do que escritora.
Não dou às palavras uma forma manejável, não as limpo. Não estou atrás de prêmios literários.
Escrevo o que sinto, a respeito do que quero. Não sou presa a regras, tendências ou métricas. Sou em primeira pessoa, em segunda, me escondo, sou tantas. Sou metáforas, prosa, poesia, versos, contos e cantos. Sou verdade, e sou mentira.
Escrever me faz sorrir.

Que importância então, poderia ter, saber se o que escrevo são histórias ou estórias ?
Agarro-me humildemente à definição de que a palavra estória não tem respaldo etimológico algum, anda em desuso, e gosto da idéia de que estamos na era da abrangência. Nada deveria ser absoluto, fechado em quadrados, endurecido ou cerceado. Então, sinto muito, mas toda estória é uma história.

Perdoe-me querido leitor, se tem achado que apresento tanta coisa desconexa ou sem sentido. Sinto muito por deixá-lo tão confuso, sem saber se escrevo meus reais sentimentos, aqueles que vêm de dentro, ou se é tudo material literário.
Só o que posso dizer é que é tudo sentimento, então tudo vem de dentro. Este é o material do qual sou feita.
É que, para mim, escrever trata de realidade, mesmo na ficção.
E a verdade, tão absolutamente relativa, deve ser medida por quem a escreve, e também por quem a lê... como naquele dito popular que nos lembra que existem sempre três verdades : a minha, a sua, e a verdadeira.
Não quero eleger nenhuma.
Prefiro continuar livre.

Então, caro leitor, se te incomodo tanto, lamento.
Lamento ainda mais porque diz que não me reconhece.
É que estou amando.
Nem mesmo eu me reconheço mais.

Tenho investido meu tempo em viver.
Perdoe-me mais uma vez, já confessei : sou melhor fotógrafa.
E escrever tem sido isso. 
Só fotografar.
Solange Maia

strip-tease...

Nenhuma vela acesa, nem música do Joe Cocker ou cinta-liga.
O rosto levemente cansado, a maquiagem gasta pelo dia, a luz acesa.
Sem truques de sedução.
Foi assim que aconteceu.

Amar dava um medo danado.
Mas teus olhos foram desabotoando os fios da minha fala.
Fui contando de todas as coisas que, definitivamente, ficavam pequenas diante de ti.
Sei que não gosta que eu fale isso, mas é fato, nenhuma história foi tão grande. Nenhum personagem.
Nossa intimidade descobrindo o último pano que calava o meu corpo. Tudo ali.
E, embora amar desse um medo danado, mesmo assim eu confessava : meu único amor é você. Desde sempre.
Tudo posto.
Tudo seu.

Mas o amor é deliciosamente benigno.
E a vida é curta.
Então vem logo, vem beijar minha boca.
E dane-se todo o resto...

Solange Maia

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

taraguela...

Taraguela.
Acho que é a única palavra errada que restou. 
Ta-ga-re-la, corrijo sorrindo, sem vontade alguma de consertar essa 'meninice' que restou. Tagarela é o que ela é. Menina falante, 'conversadeira', expansiva... mas sabe, sim, sabe ouvir. E adora. Ouve demoradamente. Se interessa pelas histórias, pelas pessoas e pela vida. 
É surpreendente como tem um olhar terno sobre todas as coisas, como sua persuasão é sempre afetiva, como sua fala é a de uma criança, mas tem sempre uma inquietação adulta, uma sede, uma fome...
Bebela quer mais.
É ampla, plural.
Bebela é presente dos céus.
Há 10 anos ta-ra-gue-lan-do doçuras por onde vai.
Feliz aniversário, amor !
Te amo tanto...

Mamãe

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

se Sartre estava certo...

porque eu te amo, MB...
e porque é assim que me sinto livre,
estando ao seu lado.

A menina queria alguém que conduzisse a carruagem.
Queria descansar.
Parar um pouco de tentar ser sempre tão corajosa.
Queria alguém que quisesse as mesmas coisas que ela, e achava que eram coisas tão simples, como alguém que entrelaçasse os dedos aos seus enquanto lhe desse as mãos, alguém que dissesse 'eu quero estar aqui, porque te amo, porque reconheço a imensidão e a raridade do que temos, mas, sobretudo, porque é assim que me sinto livre, estando ao seu lado'.

A menina queria ser cuidada.
Queria não ter que fingir o tempo todo que era forte, muito forte, e madura, muito madura.
A menina era só uma menina.
E torcia para que ele percebesse.
Urgentemente.

É que às vezes a gente sucumbe. Desaba mesmo. Como se todas as bênçãos não segurassem a lágrima gorda que insiste em pesar na pálpebra. Sente medo. E chora. A gente chora as histórias de uma vida inteira. E deseja um colo que dure.
A menina parecia tola, mas Sartre também era.
Se ele estava certo, 'fomos sim, condenados à liberdade'.
E ao peso de poder escolher.
Condenados.

Solange Maia

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

alegria vem por acaso... já dizia Lacan

Já se passaram quase 4 anos desde o dia em que esse cartão postal aí em cima (foto) chegou dentro de um envelope para mim. Nâna Pessoa me enviou. Junto com outros doces mimos. Mal sabia ela que esse sorriso, tão simples e tão surpreendentemente emblemático, seria tão importante pra mim. É que ele, o sorriso (sobretudo o sorriso com o olhar), virou um símbolo, uma brincadeira entre minhas irmãs e eu. É que achamos a menina retratada dona de uma alegria tão ‘de verdade’ que prometemos guardar a imagem e enviar uma para a outra somente no dia em que vivêssemos algum episódio que justificasse uma alegria dessas dentro da gente.
Desde então, ter esse postal enviado ou publicado seria o mesmo que dizer : - Manas, sabem aquela ‘alegria de verdade’ ? A supreendente ? A da menininha do postal ? Pois é, ela está aqui, bem agora, comigo.
E teríamos algo a brindar !

Cumprimos a promessa. A menina do cartão postal ficou guardada esperando tal momento.
Não que não tivéssemos tido alegrias. Tivemos. Muitas. Alegrias cotidianas, pequenos presentes, momentos mágicos, mas confesso, nada que justificasse tirar da gaveta da memória nossa doce menina sorridente.
Até ontem.
Ontem, quando me olhei no espelho escovando os dentes, a menina estava lá. Reconheci na hora.
Meus olhos transbordando uma ‘alegria de verdade’.
E alegrias de verdade são surpreendentemente simples.

Não podem ser metas, porque não são um destino a se chegar, agora eu sei. Escondem-se no caminho, e correr atrás seria o mesmo que correr atrás do vento, ele nunca está lá. Alegria é mistério do instante, é fugaz, pertence ao agora.
E vem por acaso...

Olhei no espelho mais uma vez, já com os dentes escovadas, e era óbvio : estava feliz.

É, Nâna, estou feliz.
Estupidamente feliz.
Como a menina do postal.
E reconheço na minha felicidade o quanto a alegria é poderosa.
Embora sutil e discreta.
Como a poesia que vejo numa maçã.


 Solange Maia

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

alguma coisa está muito errada...

Na menina bulímica no sofá, nos garotos que brincam com armas, no homem solitário que ninguém vê, na moça que está realizando a sétima cirurgia plástica, sem nunca ficar satisfeita, na pessoa que escolhe morrer, na que vê diferença na cor da pele, em quem come demais, em quem tem medo de Deus, em quem acredita nas próprias mentiras, em quem dá a mão para a culpa, na coragem que não vem, na buzina insistente e agressiva dos carros pela manhã, no cara que resolve no braço possíveis diferenças, em quem bate, e em quem apanha, no sequestro, no consumo, na droga, na tão descabida guerra, no dinheiro que mente comprar tudo, em quem decide, mas não vira a página, e em quem não sabe quando parar.
Na arte que ninguém vê, na música que ninguém ouve, no beijo que não demora, no amor que não se dá...
Na criança que não brinca, no adulto que não se entrega, no sexo sodomizado e não consentido.
Na soberba, na arrogância, e na indiferença.
Alguma coisa está muito errada na solidão.
Está, mas ainda assim, agradeço. 
Agradeço a bendita precariedade de todos nós, porque ela é baliza que indica prováveis caminhos.
Agradeço e torço para que nunca me falte o senso agudo da responsabilidade, porque sou eu quem faço essas escolhas. 
Sou eu quem traço os meus caminhos, 
e não quero nunca 'não ver'. 
Não quero nunca minha vida reduzida por falta de opções.
Sim, alguma coisa está muito errada, mas ainda assim, ainda assim, agradeço, afinal a gente ainda pode fazer escolhas.

Solange Maia


(imagem : fragmento vazio - pablo herrerias)

terça-feira, 4 de novembro de 2014

nem queria te contar...

Tenho te amado em silêncio também.
Verdade. Às vezes te amo assim, sem precisar te contar.
Te amo quando flagro aquele instante sutil em que morde o lábio inferior e sorri ao mesmo tempo, quando põe as duas mãos envolta do meu rosto, me olha demoradamente e só depois me beija, quando escova o cabelo, primeiro com a escova e depois com as mãos, quando fala todo empolgado sobre ferver durante sete dias e sete noites as folhas venenosas que farão a maniçoba. Te amo quando me conta que todos os dias beija o teu pai, quando leva semanas pensando num presente bem legal pra tua menina, quando funde todas as nossas músicas num único pendrive, e diz todo bobo que gosta mais das minhas, amo também quando me pede para levá-lo conosco seja onde for. Te amo quando me conta que deixou de ganhar a corrida mais importante da tua infância só para não atropelar uma menina, quando fala palavrões pra aumentar a força das suas exclamações, quando deitados recua o corpo pra me ver melhor, quando sorri de olhos fechados diante das minhas ‘experiências sensoriais’. Te amo todas as vezes que sussurra em meu ouvido “foi a primeira vez que fiz isso na vida”, e quando, em contrapartida, cheio de soberba se diz o melhor cara no teu negócio,  e depois ri. Te amo quando dormindo me puxa pra mais perto de ti, e quando põe uma camiseta qualquer em cima da luzinha da tv a cabo, só pra deixar o escuro ainda mais escuro. Te amo quando me conta dos teus quadrados, quando sorri ao ouvir minhas bobagens, e quando cuida dos meus 'medinhos' que nasceram depois que me apaixonei. Te amo quando descobre que agora sinto ciúmes, e sorri porque eu disse toda adulta que nem sabia o que era isso, e quando pede desculpas por me interromper, sendo que o faço vezes sem fim. Te amo quando me conta que gosta de comédias românticas, de Carpinejar, do meu bolo de chocolate, e, na verdade, de qualquer coisa doce, e qualquer bolo de chocolate, mas que não gosta de Ana Carolina, nem de pimentão. Te amo quando quer saber se fica mais bonito com gel ou sem gel, com barba ou sem barba, quando faz perguntas, muitas, quando procura respostas, quando encanta-se com frases, com palavras, e com silêncios. E, toda vez que você sorri, te amo ainda mais.
Não. Talvez eu não tenha te contado, talvez eu nem queira te contar, mas sei que você sabe... 
É que o meu silêncio 'guarda' a tua presença o tempo todo.
Mas o meu olhar não.

Solange Maia

terça-feira, 30 de setembro de 2014

de joelhos...

Afundado entre as almofadas da sala vejo teus olhos fechando devagar ao mesmo tempo em que inspira mais ar do que precisa... desliza a mão pelo peito demorando na curva da nuca como se não percebesse que é assim que me despeço da menina tímida que mora em mim.
Sopra o ar, com o desejo atrelado à sua boca em “ó”, expira lânguida e lentamente, e assim acelera-me o pulso. Sinto a ventania que vem de dentro de você num espasmo orgânico e visceral.
Não tiro o olhar de ti enquanto afasto a tua roupa e passeio devagar por tua pele.
Arqueia o corpo e me encaixo no seu côncavo.
Abro mão de sussurros para que as palavras cheguem sonoras e quentes ao teu ouvido. 
Quero que escute que te desejo.
Escorrego no teu peito até cair de joelhos.
Quero que saiba que te desejo.
Meu cabelo faz sombra onde somos só um. Afasto para que me enxergue.
Quero que veja que te desejo.
E a esta altura somos só sentidos. Tudo exposto, e tudo dito.

Afundado entre as almofadas da sala você devia saber, mas acho que não sabe. É que se chegar mais perto, corre o risco de eu nunca mais te deixar partir.

Solange Maia

sábado, 27 de setembro de 2014

20 segundos de coragem...

'...e nada mais te prende aqui
dinheiro, grades ou palavras
partir, andar, eis que chega
não há como deter a alvorada'
PARTIR, ANDAR - Herbert Vianna

A malabarista no farol tem 9 anos. 10 talvez.
Chove.
As gotas deixam o rosto dela orvalhado, nem se nota o frio.
A menina tem um brilho que é quase um desdém. Uma ironia.
Joga as bolas para o alto, mas não desvia o olhar do moço que a observa de dentro do carro.
Sorri tão sutilmente que nem sei se ele vê, é só um canto da boca que mexe, e o corpo que brilha. Como brilha.

Tem quem pense que a menina não tem nada.
É magra, pálida, e talvez não devesse estar ali.
Mas a menina é livre, uma outsider corajosa, dona de um riso franco. Nada nela é óbvio, tudo está subentendido.

Os olhos são desconcertantes.
O moço do carro nunca se sentiu tão preso, tão pequeno, tão assustado.
E pensava no que tinha para oferecer. Moedas ?
O quanto valem diante dessa menina tão solta, dessa alma tão desalgemada, desses pés descalços ?
O moço, 'protegido' no carro, lembrou-se de um filme que contava a historia de Benjamin Mee, e de uma cena específica, belíssima, em que ele falava que “às vezes tudo que você precisa na vida é de 20 segundos de coragem extrema, 20 segundos de bravura insana...”, e que a partir daí tudo muda, tudo começa a acontecer.
É.
O mundo lhe dá milhões de razões para que você não mude, mas a malabarista no farol gritava o contrário.
Só quem se desprotege sente o sabor da liberdade.
E o moço foi outro pra casa.
Faltava-lhe ar.
Sabia agora o que tinha quase esquecido...
a vida é urgente.

Solange Maia

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

barba por fazer...

Não era exatamente uma barba. Era uma displicência sexy e máscula. A contramão do dia a dia, o abandono da rotina, a urgência ainda velada de não querer ser tão dócil, embora passasse longe da vontade de ser truculento.
E fazia com que ele, um homem adulto, parecesse muito, muito adulto. Testosterona pura. Adulto e primitivo. Ãh ? É que mulher gosta de homem doce, inteligente, sensível, mas não resistimos à virilidade, e, nesse caso, à barba. Aahhh... a barba. Acho que deve ser uma das melhores imagens dessa 'masculinidade'.

Mudo o ângulo e percebo que ele tem acolhimento nos olhos, não... não resisto. Mas é a barba por fazer que me distrai, parece trazer implícita aquela mensagem de ‘me garanto’. Resisto menos ainda.

Gosto de cara limpa, rosto lisinho, do contato da pele, mas nele a barba cerrada revelava atitude, despertava em mim o velho clichê : ‘quero descobrir o que esse cara tem’.
Desculpem-me os ‘sarados’, mas esse ar de ‘eu nem ligo’ é muito mais eficaz que um abdômen definido.

Difícil é encontrar racionalidade diante de um homem assim.
Inevitavelmente saio com o rosto arranhado.
Um pecado.
Mas, como todo pecado, absolutamente indispensável.

Solange Maia

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

devia ser proibido...

E tanta gente presa nessa neve.
Tantas quanto as explicações, que a gente nem pede e vão logo desandando a dar... ‘foi a vida que amargou, foram as feridas do passado, tudo o que nunca cicatrizou, foram as traições, o cotidiano que me endureceu, a matemática sendo sempre maior que as relações...’
Como se fosse tudo uma coisa só.
Como se fossemos todos iguais.

Tem gente que vive nesse perpétuo estado de defesa, a memória convertendo-se num cárcere, a alegria esvaindo pelo ralo da razão. E vive-se assim, eternamente à margem.
Eternamente quase sendo.

A vida pode sim ser violentamente invadida por alguma fatalidade, a realidade de vez em quando pode nos fazer faltar o chão, a alma vai doer, o corpo quase arrebentar, mas devia ser só isso. Só esse instante agudo de dor.
Proibido virar crônico.

Tanta gente sem lembrar que o amor é sol que derrete toda neve. Há que se sair detrás dessa trincheira...
Correr riscos ainda é a maneira mais bonita de amar.
Tenho medo, é fato, mas mostrar o coração tem me dado uma alegria que nem sei...
E acredito.
Ainda acredito.

Solange Maia

sábado, 16 de agosto de 2014

cereja, poeira, cadeira...

Estou no limite do inefável. Não lembro de ter perdido as palavras assim antes. É que nunca contei, mas meus textos só nascem diante de algum vazio. E, hoje não me falta nada.
Estou cheia desse amor bonito que acabamos de viver.
Ademais, minhas palavras já foram tão lidas, e já estão tão gastas...

Pra você quero dar mais do que o verbo, quero dar o que nunca dei, meus olhos cheios desse inverno, minha mansidão, o bom silêncio, e um amor que precisa de cada uma das entidades sensórias, que não dispensa nada. Quero bocas, beijos, mãos. 
Quero a alma, e o mergulho que vem depois. Quero a pele, a fenda, o gozo.

Estou no limite do inefável, amor, mas pela primeira vez o silêncio que se seguiu não foi um vazio.
A despedida não foi um fim.
Amanhã já sei : ainda te quero.

Solange Maia 

sábado, 26 de julho de 2014

tento não amar você...

Vai logo colocando a mão na minha nuca, segurando do seu jeito másculo o meu cabelo enquanto com a outra mão fecha a porta que acabei de abrir. Vira minha cabeça de encontro ao beijo que sua boca me dá antes mesmo de eu falar qualquer coisa. Afasta a alça da minha blusa e morde meu ombro, saliva. Respira tudo o que imaginava e que agora tem.
Falta-me voz, falta-me fôlego, e sinto ainda o mesmo desejo da primeira vez.

Busco o pouco de clareza que resta quando teu corpo ebule assim, tão perto de mim. É que preciso lembrar que prometi a mim mesma que seria sempre só o beijo, só o desejo, só o momento. Lambo tua boca e busco com a mão tudo o que poderia estar contido num instante.
Mas é pouco.
No inicio é sempre o desejo, mas nunca é só isso.
Três segundos ao seu lado são suficientes para criar raízes, começo a me apaixonar violenta, profunda e imediatamente.
Finjo que não, e deixo a noite acontecer.
Deveria ser só bom, mas nasce uma falta no lugar do beijo.
E só o que enxergo é um provável buraco, grande e fundo.

Acho que não sei lidar com tão pouca permanência.
Sou das eternidades, e agora tenho passado meus dias tentando não me apaixonar. É.
Tento diariamente não amar você.

Solange Maia

sexta-feira, 11 de julho de 2014

para ele, o mesmo mantra de sempre...

Ele não vai embora. Tampouco fica.
Anda cheio de ressentimentos e faz um esforço danado para entender onde foi que as coisas pararam de acontecer.
E, de tanto tentar entender, tem vivido virado para trás. Investe seu tempo juntando cacos e fazendo colagens com os pedaços dessa história que já acabou.
A tristeza tem dessas coisas... faz acreditar em mentiras bonitas, promessas que nem sempre foram feitas, e nos põe agarrados a qualquer noticia que alimente nossa esperança. Tudo tão pouco, tudo tão quase nada.
A tristeza é honesta, você diria, e eu sei. É fratura exposta.
O perigo é acostumar-se com ela.

Mas o fato é que você nunca está aqui. Não no agora.
Ergue o cálice, mas não faz o brinde.
Oras...

Penso em Sérgio Godinho, que disse com razão, que a vida é feita de pequenos nadas. 
Chego perto do seu ouvido e sussurro o mesmo mantra de sempre :
- Chega de choramingos ! Perfume-se com um novo cheiro, mergulhe nu, faça uma batida de fruta do mato, fotografe paisagens, deixe a barba crescer, acredite quando ouvir um elogio, caminhe descalço, compre discos novos, beije como se tivesse 20 anos, compre uma cueca nova, e linda, veja um filme bom, escreva um poema num guardanapo, descanse numa rede, dance pela casa, coma risoto de limão siciliano, faça uma tatuagem...
Cometa pequenos nadas!
Afinal, posso jurar que foi pra isso que Deus criou o Universo !

Solange Maia

terça-feira, 1 de julho de 2014

o que eu queria tanto te dar...

Um sentimento que sobrevivia sempre a pequenos abandonos e à espera do momento perfeito.
Mas um desejo maciço teimava em crescer dentro da gente.
Estava cansada do niilismo inumano da ausência.
É que às vezes parecia que o amor queria ser notado.
Dessas noites em que se deve deixar a cabeça de lado e dar ouvidos só ao coração.
Afinal, não se pode acostumar com a renúncia.

Abri a porta sabendo que depois daqueles segundos tímidos meu corpo começaria a falar por mim, por nós, e por todos aqueles anos permeando o vale quente e silencioso de um possível vir a ser.
Tínhamos os versos, eu sei, mas o melhor de mim era o que estava escondido por trás deles, e que eu queria tanto te dar. Talvez por isso a noite tenha sido tão linda, tão de verdade...

Fui. Para que fôssemos.
E fomos.
Esses momentos têm essa generosidade... a de nos permitir ‘ser’. Momentos que nunca vou me esquecer.
Nosso desejo, finalmente, virou a boca acolhida no beijo.

Solange Maia

quarta-feira, 25 de junho de 2014

cento e vinte e sete beijos...

A luz obliqua suavizava a noite sem perder seus amarelos.
Uma formalidade preguiçosa.   
A mesa posta, embora eu tivesse sentido vontade de cantar Chico: ‘ponha os pratos no chão e o chão ta posto’... é que ainda não te contei, mas gosto tanto desses cenários que nos aproximam. Terno como a água que me serviu em cristais. Delicadezas deixam a atmosfera tão leve.

Contamos histórias que tinham vontade de continuar, mas não, ficamos quietos, presos um no outro, num discurso de palavras mudas e poucos gestos. Era como se o ar precisasse ser preenchido, como se você precisasse ser preenchido.
Um instante afável, como se eu já o tivesse vivido, mesmo sem nunca ter passado por ali.

Tuas mãos no meu rosto branco eram boca.
Tua boca no meu corpo tonto era beco.
Fui embora devagar, como quem nunca quer partir.
E acordei cedo, com vontade de te beijar.
Cento e vinte e sete beijos. Tantos.

Solange Maia

quinta-feira, 12 de junho de 2014

só um dia para os namorados ?

Sentimentos não se quantificam e não podem ser elencados em listas.
Embora eu as faça.
Listo todas as coisas boas que sinto quando estou ao teu lado. Cada minuto é o milagre que pedi.

E nem foi preciso Verona.
Dispensamos o anel e as cenas na varanda. Até mesmo o vinho foi redundante. Nossa embriaguez era a do amor, a dos devaneios, dos excessos. Shakespeare também achava o amor a mais discreta das loucuras.

Temos tudo o que o nosso coração conquista, a cada dia. 
E é tanto. E pouco também. Por isso ainda faço como antes, guardo você.
Decoro tuas frases, desenho teus sorrisos, toco suas canções. Embrulho com laço de fita esses sentimentos todos, só para abri-los de novo mais tarde.
É que o tempo nunca é suficiente pra nós.

Talvez por isso tenhamos casado secretamente.
Assim, de camiseta surrada e pés descalços, bem ali, no jardim dos amantes. Tentando a todo instante enganar o tempo.

Solange Maia 

domingo, 8 de junho de 2014

boa de cama...

Gabava-se aos sete ventos que era boa de cama.
Eu, recém-saída da adolescência, imaginava-a pendurada no lustre, só podia.
Mas o tempo, generoso que é, mesmo sem pedir licença, me colocou contra a parede. Fui viver minhas histórias.

Aprendi que a linguagem dos corpos habita um terreno misterioso, e que para funcionar sexualmente é preciso atitude. É preciso estar despido de pudores para permitir que a ocitocina invada nossa corrente sanguínea e confunda nossos neurônios. Nessas horas perder-se é achar-se.
De resto, não há receitas.

Sorte de quem, como eu, descobriu como transformar o corpo (muitas vezes longe de ser perfeito) num delicioso parque de diversões.
No sexo, gosto do amor.
E no amor, gosto do que excede, invade, avança, dessa matéria intangível moldada a quatro mãos, das sensações embriagantes que me deixam sempre com vontade de querer mais. Viro verbo conjugado no corpo do outro.

Se sou boa de cama ? Não sei.
Só sei que no amor meu corpo entende tão bem o corpo do outro, que diante de qualquer mínimo estimulo o resultado é sempre sexy, erótico, envolvente e visceral.
É.
Sexo sublime também merece ser valorizado.
Pendurados, ou não, no lustre !

Solange Maia


segunda-feira, 2 de junho de 2014

o desenrolar da vida...

Preciso deles. Dias de descanso me fazem lembrar quem sou.
Passeio pela casa e me sinto salva quando vejo que ainda guardo meus livros separados por cor.
Que a ordem é o movimento cadenciado da desordem.
Que é só descalça que me sinto importante.

Sou hemisfério direito, feito costureira de colcha de retalhos, conto histórias bordadas no tempo, alinhavo sentimentos, componho um jardim intuitivo de flores.
Ou não. 
Preciso de pausas.
A vida se desenrola aos poucos, já sei.

Em horas de paz tornam-se indispensáveis as coisas comuns. Rego plantas, acendo velas pela casa, leio matérias já lidas em revistas guardadas, tomo chás perfumados, hidrato as mãos preguiçosamente, sento no chão, e passo horas ouvindo as músicas que amo de olhos fechados.
Com a percepção aguçada. 
Busco ecos.
Na solidão brutal da minha consciência vejo a vida em flashbacks. Aproveito a alegoria para contar minhas bênçãos.
Sinto-me bem.

Passo a alma a limpo.
Nesses dias o amor faz tanto sentido...
E sou tudo o que eu queria ser.

Solange Maia

fotografia - meus livros - 2014

segunda-feira, 26 de maio de 2014

x...

Hoje fiz uma promessa.
Vou sair dessa floresta.
E só o que consigo é pensar em Ralph W. Emerson. Ele estava certo quando disse que devemos fazer sempre o que temos muito medo de fazer.
Só assim se escapa dos nossos esconderijos emocionais.

Cansei de dever a mim mesma e à minha própria história.
E se, como você disse, o 'Eucaliptos' é um mapa, então é aqui que vou fazer um imenso "X".
É aqui que eu começo.

Solange Maia

domingo, 11 de maio de 2014

quando o amor faz sentido...

Domingo era dia que podia.
Então caminhávamos na ponta dos pés até o quarto dela. A imensa cama era um convite que não sabíamos resistir, o lugar mais afetivo e mágico do mundo. A impressão era de que na hora em que tirávamos os pés do chão, a vida parava.
O amor fazia tanto sentido ali...
Acho que foi assim que aprendemos o amor.
O engraçado é que ainda hoje, quando subo o elevador da casa dela faço-o em silêncio. Caminho no pequeno hall na ponta dos pés, e na hora em que a porta abre, sinto a mágica acontecer, exatamente como quando subia na cama dela.
O amor faz tanto sentido ali...
Mas agora já sei que não era a cama, e que não é a casa.
É a mãe.
Minha mãe é o lugar sagrado.

Solange Maia

(fotografia - mamãe e eu - 1968)

quinta-feira, 8 de maio de 2014

pelo êxito...

Se existia a possibilidade do fracasso, existia também a do êxito. Era o que latejava entre a lona e o chão daquele picadeiro. Havia um saber antigo ali, uma soma de metáforas coloridas e de projeções profundas. Aquela casa de espetáculos circular era um espaço afetivo, não restava dúvida.

O trapezista solto no ar, entre as duas barras, tinha coragem de abandonar o lugar seguro e mergulhar no abismo do desconhecido, mas só o que eu via era o futuro, que, embora estivesse logo ali, nunca estava pronto...

O palhaço, que errava onde não esperávamos, e acertava, igualmente onde não esperávamos, traduzia em alegria as melancolias e os enganos de todos nós. Rindo, denunciava a ordem vigente. Me fez lembrar de Nietzsche, que dizia que o estado de genialidade do homem era aquele em que ele podia, simultaneamente, amar uma coisa e rir-se dela.

Naquele circo era a proeza que delimitava o encantamento. Era justamente a incerteza que fazia o êxito do espetáculo, a permanente construção do sonho de sermos mais e melhores. Acolhi em mim cada pequeno gesto, e minha capacidade de escolha nunca se fez tão clara.
Existiria sim, sempre, a possibilidade do fracasso, mas era pelo êxito que nos movíamos.
Pelo êxito.

Solange Maia

sexta-feira, 2 de maio de 2014

fazendo a festa...

Tanta gente pela casa, música alta, uma luz avermelhada atravessando a névoa fina, as sombras nas paredes, velas pelo chão, vinho, taças... levou um tempo até que eu o visse. Camiseta branca, calça preta, cabelo despenteado, e aquele ar sério que sempre destoava do resto. Ele nunca estava totalmente integrado a lugar algum, sempre um pouco ‘ausente’, sempre um pouco forasteiro. Mas naquela noite a festa era dele. A casa era dele. As coisas deviam ser diferentes.

Eu sabia que ele, de alguma forma, estava me esperando. Então, sem pensar muito puxei suas mãos, deixando-o sem tempo pra reagir. Ergueu as sobrancelhas e sorriu gostoso.
Fugimos dali.
Na escada para o andar de cima senti que as mãos dele impunham-se sobre mim, puxavam minha roupa e meu cabelo. Nem bem subimos e eu já estava presa entre as suas pernas, ali, no chão da sala íntima, sem porta, sem nada. A respiração dele, na minha nuca, desencadeou um desejo mais instintivo, menos estudado. Era sempre assim que povoávamos nossas histórias, com esses desejos fora de lugar.
Os corpos suados, misturados, mas foi a música bonita que me levou para o colo dele, que então mordeu meu queixo e depois me beijou. Ficamos assim, com os lábios colados. Cinco minutos. Dez. Vinte. Mais.
Beijar era mais íntimo do que todo o resto.
E ele sabe, nunca, nunca resisto a um beijo.
Tantas pessoas pela casa, e a gente ali.
Fazendo outra festa.

Solange Maia

domingo, 27 de abril de 2014

tenho uma coisa contigo...

Pra você sempre escrevo da pele, do tato, do cheiro.
Sempre da boca, da cama, do chão.
Mas hoje, hoje não.
Hoje quero escrever sobre como o tempo tem sido bacana com a gente. Como com o seu passar fomos descobrindo beleza em um monte de coisas que pareciam ocultas, em como, num mundo de poucos laços, construímos um que não sucumbe, em como soubemos solidificar nosso afeto.
Quero escrever sobre essa 'coisa' bonita que nos põe num 'lugar' isolado de todo o resto, sobre estes nossos olhos que se comunicam tanto, e as coisas que achamos importantes e que são tão parecidas... mas, sobretudo quero escrever sobre essa nossa sorte. E como é gostoso isso.
Em geral, acredito, o bem querer é assim.

Sei que tudo muda, que tudo se transforma, e nem dá pra dizer que somos os mesmos, mas é fato : 
Tenho uma coisa contigo...
Talvez sejam nossas palavras.
Talvez sejam elas, que insistem em nos reunir para sempre.

Solange Maia 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

daqui a 3 dias...

Tem gente que esconde, tem medo de falar, disfarça.
Eu não. Tenho o maior orgulho. 
Encho a boca e conto : faço 47 anos daqui a 3 dias. Gosto ainda mais quando percebo que 47 está na trave dos 50.
Número que tem força e fascínio.

Um tanto de estrada percorrida, outro tanto a percorrer.
Nem tanto ao mar, nem tanto a terra. Lugar onde euforia e serenidade comungam tão bem. Um não rouba mais a cena do outro. Aceito e acolho. Já sei o que procuro, e ouso dizer que o caminho me interessa bem mais do que a chegada.
Dou-me, mas só quando quero. E para quem quero.
Conheço coragens e medos, sonhos e desejos, gente boa, e gente que nem gente é. O tempo já não guarda tantos segredos. Sem a rigidez de antes, demoro mais no gesto, na entrega, no outro... Absorvo a existência, o amor, a graça. Livre de quaisquer cobranças.
Livre para viver melhor.

Já não me prendo ao tecido da lógica, não me importo se as coisas realmente fazem sentido. Respeito a autoridade da vida, mas flerto descaradamente com ela.
E, mesmo quando surpreendida por alguém, com um sonoro : – Senhora ? – não me incomodo.
Sou sim.
Sou, deliciosamente, senhora de mim !

Solange Maia

quinta-feira, 20 de março de 2014

verdade, as vezes eu minto.

Um dia ele disse estar desconfiado de mim. 
Supôs que eu talvez mentisse.
Não sobre o cotidiano ou sobre fatos, mas mais por dentro.
Era da minha alegria e das minhas coragens que ele falava.
Ele dizia que tudo parecia organizado demais, fluido demais.
Dizia achar que meu sorriso escondia alguma dor.

Estava certo.
Não conto pra ninguém, mas não sou capaz de apagar o que minha memória escolheu guardar.
Ele percebeu então, que sou também esse viés. Que muitas vezes prefiro sorrir só pra não ter que contar toda a minha historia.

Verdade. Às vezes eu minto.
E ele sabe o que eu sinto, sempre e a todo instante. 
Os outros não, os outros só imaginam.

Pedi então, que ele ficasse bem perto de mim.
E segurasse forte a minha mão. 
Afinal ele sabia...
não tenho mesmo toda essa coragem.

Solange Maia

domingo, 16 de março de 2014

o pedaço certo de mim...

Primeiro fui eu.
Agora era ele que namorava os meus pés.
Resolveu tirar o esmalte. Segurou um a um os meus dedos e envolveu-os com o algodão molhado sem desviar os olhos de mim. A tinta vermelha dissolvida manchava a cama formando flores e salamandras. Nem a toalha úmida e quente nos fez perder a conexão do olhar. Vendo que eu o via segurou firme minhas pernas e com a boca foi desenhando desejos em mim.
Os pés, tão sensíveis a pequenos toques, foram reagindo a tudo, à língua que deslizava por eles, e entre cada dedo, onde ninguém tocava, à respiração que fazia cócegas na pele fininha da curva, do arco, e ao beijo que molhava tudo.
Depois foram as pernas, o joelho, as coxas. A virilha, o umbigo, a cintura. E ele sentou na minha frente abrindo levemente a boca, fazia isso quando misturava no sorriso o tesão do instante. Ri. Ele era sempre tão impossível de resistir. Misturava alegria em tudo que fazia.
Acho que é por isso que pra ele quero dar sempre o pedaço certo de mim.

Solange Maia

quinta-feira, 13 de março de 2014

desejo embrulhado para presente...

Um dia chuvoso, reuniões tensas, trânsito.
Chego em casa cansada, mas no pé da porta percebo que um pacote chegou. Antes de mim.
Sei que é seu.
Impressionante como o clima muda.
Tudo o que existe lá fora fica suspenso.

Sento na cama com o presente no colo, abro, e é como se o vento usasse o teu perfume. Sinto você. 
O mel da tua boca escorrendo em mim.
Sinto tuas mãos deslizando nas minhas costas, no meu peito, a respiração tropeçando no desejo, tudo pulsando uma canção. Uma vez, duas, três, sei lá. 
Uma vontade que não gasta. 

E essas são as coisas que vão nos levando ao limite do querer. Suspiro (...). Perco o fôlego.
Ainda assim consigo pronunciar algumas palavras, úmidas. 
Pergunto como foi que você pôs tudo isso num pacote ?

Solange Maia