segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

turning point...

Papel e lápis na mão. Nunca entendi a ‘força’ embutida nessa coisa de listarmos nossos desejos e promessas para o novo ano, mas, mesmo que às vezes só mentalmente, listo-os sempre.
Reagindo ao esgotamento inevitável dos finais de ano, e diante da pouca coisa que nessa época me basta, resta-me sempre listar desejos. Eles me salvam internamente e me fazem acreditar mais uma vez. Listo também promessas. Tenho a impressão que elas me concedem outra chance, e que, por isso mesmo, me redimem das minhas tantas ‘não’ realizações.
Gota a gota vou esquecendo o que ‘não foi’, e desenhando um novo tempo...

Na minha lista deste ano coloquei só duas palavras.
Turning Point.

Duas palavras que trazem escondidas uma oração.
Que tenhamos então, a coragem para dizer o SIM que transforma tudo, esse que nos tira do automático, que nos põe no prumo, e que nos permite desfrutar a extraordinária experiência da mudança.
Uma simples atitude e 2014 será sim nosso Turning Point.

Papel e lápis na mão porque este será o melhor ano de nossas vidas !

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

o que perder tem feito comigo...

Já não ando mais apressada, pelas grandes vias.
Tenho estado nas vicinais, muito mais vazias, muito mais serenas. As estradas de terra e sua ancestralidade criam irreproduzível intimidade em mim.
Sou essa terra, sou essa calma.

Acho então que só agora começo aprender um pouco a vida.
Talvez pelo tanto de vezes que me lancei ao novo, ao outro, ao éter, sempre em busca de um prazer que não vinha. Talvez pelo ar que muitas vezes me faltou e ninguém viu, talvez por um cansaço precoce...

Parece loucura, mas o suprassumo tem sido aprender a perder. Perco a pressa. Perco as certezas. Perco a imensa coleção de pensamentos endurecidos que acumulei em mim.
Perco a ansiedade e as reações exageradas, o medo paralisante e o interesse por pessoas que estão, mas não estão. Esvazio a cabeça caminhando, e já não me preocupo em agradar a toda gente. 
Perco até mesmo a mim,
e só ganho com isso.

A esta altura, já não tenho a ilusão da eternidade, e assinaria embaixo a deliciosa frase dita por Gilberto Gil em seu aniversário de 70 anos :
- Me dou cada vez menos importância !

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Deus me proteja desse maldito medo empírico...

Recomeçar devia ser tão mais fácil.
Devia. Mas não é.
A gente erra uma vez, duas, três.
Sofre, desacredita, encolhe, mas jura que aprende, e que está pronto para o novo.
Até que ele acontece, normalmente surgido do acaso.
Às vezes acanhado e fugidio, mas sempre convidativo e tentador.
E há uma possível (e incrível) chance de sermos felizes mais uma vez.
E a gente quer.

Mas é exatamente aí que surge o medo.
Antes do esboço de um novo sorriso, antes que nossas mãos se estendam para o toque, para a troca.
O medo é o truque, o troco, o troço...
e está sempre ali, afetando meu julgamento, nascido das historias tortas que ficaram pelos caminhos.

Torço então para que Deus me proteja desse maldito medo empírico, porque recomeçar devia mesmo ser mais fácil, e porque não quero mais ver minhas coragens derretendo.
Quero entrar na boca desse dragão, caminhar dentro dele ignorando a possibilidade de me dissolver. Quero enfrentar o monstro até que eu me sinta em paz.
O medo é feito de um silêncio resignado,
e não é isso que eu quero.
Eu quero o amor.
E o amor é para os fortes.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

sorry...

Gente ferida
fere outras pessoas
com muita facilidade...
John Maxwell


E não houve lealdade alguma. Nessas horas nunca há.
Talvez tenha sido só a tua natureza egocêntrica.
Talvez só o teu medo.
Não sei.
Só sei que fracasso miseravelmente tentando te entender.

Há na tua alma uma Amazona versada nas artes da guerra, 
sal
rocha
empunhadura
mas tua espada são tuas palavras duras. Duras, mas tão vazias de solidez que me atravessam feito espectros de um vento frio. 
Mas já foi tão mais cheia de fé um dia... e acredite, era tão melhor. Não quero esse inverno em mim, então, sorry, continuo trabalhando na manutenção da minha paz.
E torcendo para que seja feliz.
Para que não perca definitivamente a doçura, 
porque de vez em quando a vida é dura, eu sei...
mas deve haver alguma coisa que ainda te emocione.
Deve sim.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

fato novo...

Ando faltando pra mim. É fato.
Como se morasse num jardim vazio que encerra um conteúdo claro : não estou.
Mas você nem liga.
E é esse teu jeito de fingir que não percebe a porta fechada, que tem me feito prestar atenção em você.
Esse teu jeito de rir de mim, ou comigo, sei lá.

Desmorona minhas crenças com esse teu olhar estupidamente doce. Fala tantos sins que enfraquece meus nãos.
Até minhas desculpas têm derretido antes mesmo de serem ditas.
É que a tua presença tem me feito sentir tão à beira do amor que nem sei...
Ou, pelo menos, ainda nem sei.

Por enquanto, eu falto.
Você, fato.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

já fui santa...

Ando cansada demais para longas explicações, e já nem me importo se em mim o desejo anda quase sempre maior que a razão.
Já fui branca, já fui santa, já fui tantra.
Agora só o que sinto é fome de ti.
Porque de vez em quando é bom esse desejo primitivo que afasta de lado toda água, e todo açúcar.
Minhas mãos fortes na tua nuca, palavras noturnas ditas às claras, a respiração atropelando o beijo. Sexo sendo a melhor poesia.
A pele arranhada pela pressa de quem quer a eternidade dentro de um segundo.  
Sem preparo algum a natureza da experiência é outra.

Sou gruta e sou mirantes.
Sou por dentro e sou paisagem.
O milagre será encontrar em mim um lugar esquivo.
Esqueça o que já fui.
É que agora sou tantas...

domingo, 1 de dezembro de 2013

minha Bebela...

Bebela é sargitariana, falante, persuasiva, amorosa e absolutamente entregue. 
Sorridente, mas de temperamento firme. Sabe exatamente o que quer. 
Decidida, nunca gostou de chupeta, não foi de chororô e nem de nhe-nhe-nhém. Logo cedo trocou o balé por capoeira, bonecas por quebra-cabeças, e preferiu os meninos às meninas.
Bebela dos colares coloridos, dos acessórios e dos balangandãs. 
Gasta horas no chuveiro, ama lápis de cor e instrumentos musicais, antes de andar já dançava. Antes de falar, cantava. Ultimamente passa horas no piano, enchendo o ar de um som mágico, celestial e acústico.
Bagunceira disfarçada, não consegue assobiar, embora tente infinitas vezes. Detesta errar, e prefere qualquer coisa a peixe e berinjela.
Bebela ri enquanto dorme.
Impossível passar diante de alguém sem se sentir tocada. Gosta de gente. Gosta de gostar.
Filha única, também sabe brincar sozinha, e parece que nessas horas festeja a liberdade da sua imaginação.

Bebela faz 9 anos, e segue sendo o que quer ser, com delicadeza, porque é só assim que sabe fazer.
Não são poucas às vezes em que, de noite, cobre meu cansaço com seus infinitos beijos.
Uma filha que, ao tentar ensinar, aprendo.

Confesso que já sinto saudades dessa criança linda que beijo agora.
E desejo que ela more em você, filha, por todo o sempre. Porque isso sim é benção bonita.
Feliz Aniversário, amor !

Mamãe


Solange Maia

sábado, 23 de novembro de 2013

a despeito das questões sociais...

Guimarães Rosa diz que quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo, mas não nessa imagem, nela o milagre se esparrama ensolarado pelo sorriso dos meninos.
Eles têm seu universo particular.
Divertem-se num tempo intangível e perdido.
Há mais ternura nesse metro e meio do que em edifícios inteiros.

Vendo uma cena destas percebo mais claramente o mundo adulto de onde nunca mais voltei.
Ando cansada demais para ser revolucionária, mas a previsão para amanhã é de sol, e acho que ainda podemos reconhecer pequenos milagres, então, que tal se deixássemos de esmagar tanto os horizontes da nossa alma ?!

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

dessa cidade chamada São Paulo...

Olho ao redor como se buscasse o que já sei de cor... é tanto tudo, que é quase nada.
A solidão se impõe e esfola a pele da gente.
Tudo leva a todo lugar, tudo encanta, tudo espanta.
Cidade dos achados, e dos perdidos.

Inquieta, com sua metade de céu caída, onde muito, é muito pouco.
Onde tanta gente, é gente alguma.
São Paulo tem força masculina, eu sei, mas é mulher, e com sua capacidade de desafiar permanentemente a imaginação, é infinita em suas possibilidades.
E seduz...
Seduz com sua vastidão que nos engole.
E acolhe...
Acolhe em seus cantos a despeito de seus abandonos.
Mas cansa.
Esgota.
Esvazia.
Esfria...

Olho ao redor mais uma vez, e, cansada desse trânsito intenso, aumento o som para afastar os pensamentos... mas Paula Toller devolve-os a mim, cantando bem assim :
“...que lugar me pertence,
     que eu possa abandonar...
Esse mar me seduz,
     mas é só pra me afogar...”

sábado, 19 de outubro de 2013

fui ali...

não é a primeira vez.
talvez não seja a última.
é que de vez em quando preciso descansar por dentro, e reorganizar as coisas.


se quiser falar comigo :
eucaliptosnajanela@ig.com.br


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

liberdade de araque...

Eu também queria morar nessa colina, mas não, não moro.
Não sei ser desses amores de meia hora, dessa descartabilidade emocional, desse consumismo afetivo. Não sei gostar do prazer passageiro, apressado, e da total falta de sensibilidade dessa gente que usa como bandeira para sua inconsistência os resíduos de outras relações.

Quero sair de casa ‘desarmada’ sem parecer amadora.
O mundo desaba cada vez mais por falta de afeto.

E mesmo que eu corra riscos, mesmo que me torne vulnerável, e que caminhe de vez em quando por vales e abismos emocionais, mesmo assim ainda torço por um amor que queira durar.
É que hoje cedo olhei pra mim mesma, pra essa solidãozinha moderna, pra essa ‘liberdade’ de araque, e fiquei muito, muito cansada.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

o segredo do vagalume...

para Monnica Moraes...


A menina corria ofegante pelas ruas de areia. Vagalumes eram entidades mágicas que ela queria ver, eram luzinhas de Natal fora de hora, estrelas ao alcance das mãos... criaturinhas que vinham prontas e lindas. Talvez por isso corresse atrás deles.
Talvez não.
A menina era fascinada por mistérios, e havia ali qualquer coisa querendo ser atravessada, havia mais do que se podia ver. Ela punha então, curiosa, o bichinho dentro de um enorme pote de vidro e ficava observando-o. Horas. Nem via o inseto, de alguma forma sabia que ele era mais do que a aparência que carregava.
Gostava de seus aspectos mais sutis, de suas pequenas exuberâncias. Olhava, olhava, olhava...
Sentia, muito mais do que sabia.
Devia ser alguma equação mínima, um segredo, um susto, um hiato... sei lá, nunca soube, mas sempre acreditou que descobriria no próximo verão.

O tempo passou.
Um verão. Outro. E muitos outros.
A menina cresceu.

Mas ontem, só ontem, como são todas as coisas que não se explicam, a menina deitada em sua cama viu um vagalume entrar, e não foi preciso mais do que um instante para que ela soubesse.
Soube depois de quarenta verões.
O vagalume carrega nele uma escuridão que ninguém vê.


domingo, 15 de setembro de 2013

feliz de quem sabe imaginar...

Olho para a cortina nova e sua transparência.
Deitada no sofá, tão à toa que o vento desloca facilmente meus pensamentos. Eles dançam, embaralham-se, adquirem sentidos renovados, e nem vejo mais a cortina. Vejo só um véu, cobrindo sem querer cobrir.
Meus olhos atravessam o tecido fino assim como se fossem línguas que desejam não ver. E não ver, nesse instante, é a forma mais generosa de brincar de imaginar...
A tarde terminando quente e perfumada, o desejo nascido do acaso, uma disposição lânguida e preguiçosa... e meus dedos (seriam os teus ?) agora só sabem percorrer os meus caminhos, todos, demoradamente... são horas boas, de vontades amplas e generosas.

Lembro-me, então, da cortina nova e de sua transparência.
Tanta coisa depois dela.
Tanta antes.
Levanto.
Deixo um sorriso de canto de boca pendurado no ar.
Adoro essas horas ébrias em que a consciência é a ultima a chegar.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

os deuses não nos protegem...

Rubem Alves diz que os deuses não nos protegem do medo. Eles nos convidam à coragem.
Gosto tanto desse olhar... e tenho tido dias bem assim, com muitas mudanças, lugares e armadilhas emocionais sendo deixados para trás, coisas já sem sentido ou significado também, gente que não nutria... tudo de uma vez, ao mesmo tempo, como têm sido sempre.
E o medo está lá. Eu sei.
Mas nunca consegue ser maior que a mansidão que sinto nas pequenas (e muitas) alegrias que me cercam.
Minha coragem nasce desse reconhecimento : alegrias são possíveis mesmo na desordem, nos intervalos, nas dificuldades.
Aceito o convite dos deuses.
Aceito também essas mudanças todas. Acolho-as em mim.
Já faz tempo que aprendi a desobedecer o medo.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

algumas coisas demoram...

Abasteço-me de imaginação, visualizo, e desejo muito que aconteça.
Mas algumas coisas não são assim.
Algumas coisas demoram.
Têm seu tempo certo para acontecer.
Por mais que me esforce, que corra atrás, esse tempo não vem. E passo dias repetidos com esse ‘vazio’, querendo tanto ver o que desejo existir.

Então, nesse intervalo, a gente descobre que cresce por dentro. Aprende a aceitar.
E uma coisa é certa, a vida também acontece nessa demora.
E, às vezes, já nem sou mais a mesma pessoa, embora continue imaginando, e desejando...
As coisas mudaram, e agora digo assim :
- Tá tudo bem 'coisa demorada', eu já aprendi a esperar você acontecer.

domingo, 11 de agosto de 2013

dia dos pais... e de quem souber amar...

Hoje quero desejar um Feliz Dia dos Pais diferente... quero desejá-lo para você que é pai, mas também para você que é mãe, irmã(o), tia(o), amiga(o), dinda(o), avó(o)... afinal, pra mim, ser ‘pai’ é viver uma linda experiência de amor, é externizar e eternizar essa benevolência que habita a essência de todos nós, o amor é um instinto primitivo, mas... há que se ter coragem porque amor é entrega e doação.
Por isso acredito que qualquer um que deseje, pode lindamente fazer esse papel. Pouco importa o laço genético, o que vale é a experiência afetiva, a entrega amorosa.
Um amor que é antes de tudo um amor à vida.
Um amor a quem já fomos um dia.
Um amor que desconhece o egoísmo, que é feito para o outro, que é presente que se ganha dando.

Ter tido a oportunidade de viver essa experiência com minha Bebela é um privilegio que agradeço todos os dias.
Quem me conhece bem sabe que não há uma noite sequer que eu não a massageie lentamente antes que ela durma. Demoro em suas costas, nos braços, pernas, em cada dedinho, no pescoço... é um carinho englobador, uma fala que não precisa de palavras, uma declaração de bem querer, um pertencer, um dar que é o mais belo receber que se pode experimentar... 
Sou mãe. 
Mas também sou pai.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

ando muito sozinha...

quero o primeiro olhar da manhã, quero uma música de presente, quero escolher frutas no supermercado, quero palavras simples que me encorajem, quero cozinhar agnolottis com castanhas, quero dividir a manta no sofá, quero levar o cachorro que nem tenho para passear, quero mãos dadas, quero ver um filme que já vimos, quero nem ver o tal filme, quero a doce certeza de que ao estender as mãos encontrarei as tuas, quero telefonemas indisciplinados, de manhã, de tarde, no trânsito, a qualquer hora, quero flores em dias comuns, quero dias comuns, quero estender a toalha da mesa enquanto você põe os pratos, quero ler um conto, quero um vinho tinto, quero ouvir um pássaro, quero contar da minha infância, quero ouvir sobre os teus pais, quero entrelaçar os dedos, quero uma sorte bonita, quero uma sopa quente, quero jogar conversa fora... é... ando muito sozinha.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

qualquer rima pobre que seja rica...

Você tem falado muito baixo. Quase não te escuto.
Ando cerrando os olhos, atenta, como se assim pudesse ver palavras surgindo dentro da tua boca, e, quem sabe, pudessem ser minhas antes mesmo de nascer.
Mas não as vejo.
Vejo só um linho fino, uma névoa, um véu.
Um filtro delicado e bonito, mas que turva o olhar, nos escondendo um do outro.

Já quase não te ouço.
E torço pra que fale qualquer coisa pequena que seja grande, qualquer rima pobre que seja rica.
Qualquer fala sincera que derreta esse muro que nasce do silêncio preguiçoso e cheio de dúvidas que se instalou.

Desconfio que tuas poucas palavras sejam um longo discurso.
Talvez então, dessa história eu nunca saiba o final.

terça-feira, 30 de julho de 2013

mãos soberanas...

Qualquer música, qualquer som, qualquer ruído seriam intrusos.
O silêncio era o verbo.
Era nele que as coisas cabiam. Inteiras.
Aos olhos restava apenas o cerrar das pálpebras.
O momento era para imaginar. Sentir.

Nenhum outro recurso podia ser tão afrodisíaco.
De olhos fechados o amor tinha outra dimensão.
Enriquecia os sentidos.
Aumentava o coração.

Nessas horas as mãos são lentas, acolhem e ratificam.
São soberanas.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

confusão...

Ele disse que não sabia por que eu gostava dele.
Eu também queria entender.
Depois de tantos anos descobri que não conhecia os motivos.
Talvez fosse por causa da calma bonita que ele traz na voz, talvez por suas falas, que comungam tanto com as minhas, ou só por causa dos efeitos líricos que me acometem todas as vezes que o vejo...
Não sei.
Quem sabe seja por causa do delicioso olhar abandonado, ou por aquela fragilidade escondida que só eu vejo, ou pelos medos que ele nem sabe, mas sente.
Estar com ele é sempre como atravessar um espelho.
Então talvez eu goste dele por alguma coisa muito mais simples.
Talvez porque meu acolhimento deseje abraçar sua melancolia.
Talvez porque abraçando, me sinta abraçada.
Não sei.
Não deve ser isso. Desconfio que também não seja por sua inteligência, ou educação, tampouco por suas mãos que sempre sabem desenhar flores sobre as minhas.
Só o que sei é que não escolhi gostar dele.
Gostar dele é que me escolheu.


Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
mas porque a amo, e amo-a por isso,
porque quem ama nunca sabe o que ama,
nem por que ama, nem o que é amar...
Alberto Caeiro

sexta-feira, 12 de julho de 2013

duas seguidas...

Depois do sexo não há nada a provar.
Nem caras, nem bocas, nem frases de efeito. Tudo foi dito, tudo foi feito.
Eu já bebi sua caipirinha, seu whisky, sua água sem gás.
Eu já bebi você.

Mas o que eu não te contei é que depois da sede saciada, no cansaço da nossa nudez, sempre te desejo mais uma vez.
O lençol desordenado, e a fadiga dos corpos estendidos displicentes sobre a cama, me excitam.
Você já quase sem forças, não pensa, mas fica ali... e tem um jeito tão sexy de dobrar as pernas enquanto descansa...
Também não te contei que você parece muito mais de verdade assim.
Mordo os lábios e não desgrudo os olhos de você. Sorrio.
Você sorri de volta.
Sinto sede.
Mas já não quero te beber.
Nessas horas você é feito para as lambidas.
Contorno teu corpo com a boca, enquanto você se enrosca em minhas pernas.
Sinto fome.
Você também.
E a gente começa tudo outra vez....


segunda-feira, 8 de julho de 2013

você já me conhece...

Escrevo pela possibilidade de te tocar, por imaginar que lê as minhas linhas e que, de uma plataforma qualquer, não tão distante assim, tenta me decifrar.
E sou tão espiral. Crio esconderijos em cada vírgula, em cada ponto. Torço então para que continue extraordinariamente obstinado em me entender. E para que me perdoe.

Brinco com a possibilidade do amor usando as metáforas mais tolas, só pra fingir uma grandeza que não tenho, só pra disfarçar o medo que me sufoca.
Um medo que é ainda mais tolo que minhas metáforas.

Escrevo pra dizer que o que falta em mim, é você, e que o que falta em você sou eu. Mas, se arrisco um verso que não gosto, hesito... e recolho a palavra. Apago tudo.
Você já me conhece.
Falo mesmo é com meus versos mudos.
E, no meio desse silêncio todo, você bem que podia vir me buscar...

quarta-feira, 3 de julho de 2013

virou passado...

Finalmente virou passado.
Agora sei que deixei partir a história bonita que vivemos.
Era preciso, afinal, nunca entendi bem o seu coração.

Talvez tenha sido por causa de um filme do Woody Allen, talvez porque eu tenha notado o quanto essa historia era feita de gestos que estrangulavam o meu dia-a-dia, ou simplesmente porque minha vontade de ser feliz tem ganho densidade e substância.

Deixar partir a nossa historia não foi perdê-la, foi só dimensioná-la devidamente. Foi. Pretérito. Perfeito.
Então, finalmente me despeço de você.
Agora o maior risco que corro é o de ser feliz.


quarta-feira, 26 de junho de 2013

preciso ser minha...

Às vezes passo dois ou três dias escolhendo palavras que não sejam tão densas só para te dizer como ando por dentro : 
é que preciso ser minha, antes de ser tua...
Mesmo as palavras escolhidas, eu sei, poderiam ser substituídas por outras melhores, então fico assim, sem nunca saber se você me entende.

Mas, o que eu queria que você soubesse é tão simples, é que ando cansada de me sentir esmagada por esse ‘amor’, cansada de aceitar o sofrimento como componente inevitável da paixão, cansada de precisar buscar a neutralidade no distanciamento... porque de longe fica mais fácil perceber que essa jaula é segura, mas nem por isso é um lugar feliz.

Gosto de quem sabe se expressar, de sentimentos descomplicados e expostos, e, assim como Cazuza “a vida inteira eu quis um verso simples”.
Sei lá se você me entende, 
mas já nem sei se me importo, afinal, 
começo a desconfiar que nem preciso tanto assim de você.


segunda-feira, 17 de junho de 2013

exatamente como desejei e pedi...

Barcelona é o lugar perfeito para começar tudo de novo.
Suas linhas desafiam o tempo e convidam a um futuro infinito, assim como quero seguir.
Uma cidade generosa em suas texturas e formas, e que sabe pedir para ser explorada...

Já não sei mais se Gaudi é arquiteto, escultor, ou se faz poesia com cacos e cores. Há um apelo dramático em todo ângulo que vejo, um arco infinito estreitando todas as fronteiras, os olhos fundem-se, embaralham-se, sorriem.
Barcelona é uma declaração universal à beleza da vida.

Durante muito tempo vivi a estranha fantasia de um dia caminhar por essas ruas com a alma leve e absolutamente livre.
Estou aqui.
Exatamente como desejei e pedi.
Y brindo por eso ! 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

para sempre meu...

Nenhuma historia é vã.
Sobretudo as historias que nascem no incrível mundo das primeiras vezes. O primeiro amor, as primeiras descobertas, a primeira entrega.
Mundo onde, mais tarde se descobre, mora o ‘para sempre’.
Nunca se é o mesmo depois.

E da minha historia de primeira vez nunca parti.
Foram tempos de afetos espontâneos, de intenções sinceras, e muito amor. Não sei se voltei a sentir algo assim outra vez.
Mas o tempo passou, e o engraçado é que com ele, até mesmo essa percepção do que já está extinto, é bonita.
Virei mulher com ele.
E isso não se esquece.

Nessa história serei sempre dele, 
e ele será sempre meu.
É... para sempre meu.


terça-feira, 28 de maio de 2013

por que ele dorme na rua ?

De vez em quando ele cuida do jardim do meu escritório.
Tira os matos, varre a calçada, rega as plantas. Ganha um dinheirinho e some.
Sei que às vezes ele bebe demais, e dorme na rua.
Sei também que tem uma namorada, e que seu nome é José.
Tão pouco.
Não sei o que se passa na vida dele, mas hoje, demorando um segundo a mais em seus olhos, era como se eu soubesse.
E senti uma urgência tão grande de sentar ao seu lado e conversar. Falaríamos sobre a vida, sobre os medos que nos habitam, sobre o cansaço, as plantas, os sonhos.
Contaria de onde vim, e ia querer saber de onde ele veio.
Também isso. 
Mas não só.
Pensando bem, talvez eu não fizesse nada disso.
Talvez um abraço apertado falasse mais.


domingo, 26 de maio de 2013

paz

Não me apaixonei pela faculdade que fiz, não casei na igreja, não faço parte de nenhum grupo engajado em salvar o planeta, não sei falar mandarim, não virei gente famosa, não sei esquiar, não sou P.H.D. em nada... mas sinto uma paz danada quando olho pra mim e percebo que muitas dores não estão mais lá.
Já saí do olho do furacão.
Já sim, várias vezes.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

a casa dele...

Ele abre a porta e, de repente, está tudo ali : o tempo, as mágoas, e os sonhos. Tudo impecavelmente organizado, como se assim ele pudesse entender melhor as coisas.
As paredes cinzas, como o sofá, e como o céu de sexta-feira.
Ele nem via, mas o piso de cimento, que devia ser frio, sorria, envolvendo delicadamente as pastilhas brancas.
O afeto endurecido derretia nas fotografias.
Sobre a mesinha da sala mais um lapso de alegria : um livro adulto estava coberto por outro, infantil.
Ninguém percebia, mas a música escapava pelas frestas do armário, ouvindo dizer que eram milagres, noites com sol... e um vento indigente soprava a toalha solitária estendida no varal, lembrando que tudo é vida. Tudo, tudo.

Devia ser segredo, eu sei, mas tudo estava lá. 
Vi alegria escondida por todo lado.

E eu ?
Eu era a desordem resignada, a única almofada fora do lugar. Um enfeite vermelho, um coração exposto.
Sem saber, ele me atropelava, 
colocava vírgulas em mim.
Mas tudo é vida.
Tudo, tudo.


domingo, 12 de maio de 2013

para aprender a ficar...

Sinto como se estivesse mudando de bairro, de cidade, de país, de planeta. Mais uma vez.
Mesmo não estando.
E é só com essa impermanência que sei lidar.
Descobri isso outro dia, mas tem sido sempre assim, e agora sonho em sair detrás dessa trincheira.
Tenho feito um esforço danado para confiar, mesmo dentro do medo.
É que minha vida me ensinou a ser trem, sempre chegando, sempre partindo... sem nunca ficar.
Não sei durar. Mesmo querendo tanto.
Torço então, pelo dia em que vou, finalmente, achar meu tempo definitivo.
Meu para sempre.


quarta-feira, 8 de maio de 2013

q.u.a.n.d.o...

quando teu corpo me abandona, se afastando só um pouquinho, pra poder focar no meu rosto que te deseja, quando volta pra mim, e chega bem perto, sorrindo de forma abundante e provocativa, me fazendo sentir tua respiração tão rente à minha pele que é quase dentro, quando a gente se junta, mas nossa nudez se esparrama, quando você me ganha, e se distancia mais uma vez, brincando de ciranda com o meu desejo, quando tua barba mal feita arranha meu rosto que cora e você beija o meu sussurro e os meus lábios inchados de ti, quando você recolhe o gesto e desperdiça meu corpo que fica ali, se dando inteirinho à você, quando, no minuto seguinte, me pede pra pedir que volte pra dentro de mim, de nós, da cama, do tempo...
quando...
quando percebo que tudo isso se deu numa minúscula fração de tempo onde não podia caber mais nada.
só mesmo o amor...



sábado, 4 de maio de 2013

despido, e despreparado !

Ela não foi ao encontro dele. Devia ter ido.
Queria ter ido.
Talvez por isso ele tenha dito que havia engolido as palavras que queriam saltar, e que não sabia se voltaria a falar.
Fluiu com suas teorias de que o ‘não dito’ havia se perdido para sempre, e de que para falar de novo seria preciso preparar o espírito.
Falando assim, tão convicto sobre o ‘não falar’, ele nem via que empurrava a menina para longe. É que ela andava cansada daquele carinho que ficava sempre ali, sem nunca ser usado, e queria muito que ele experimentasse estar distraído, que baixasse a guarda, que se entregasse aos momentos e às sensações, que não pensasse tanto... e que, de preferência, se permitisse estar absolutamente despreparado.

No fundo, no fundo, só o que ela queria era que ele percebesse que o ‘preparo’ veste o afeto...
e que para ‘falar’, é fundamental que se esteja despido.



domingo, 28 de abril de 2013

eu podia ser mais magra...

Eu podia ser mais magra, ter uma boca maior, e muito menos rugas. Mas tenho cuidado mais da minha musculatura emocional do que da outra.
E ando bem cansada dessa gente que se gaba só disso.
Gosto quando vejo em alguém que uma camada se levanta. Depois outra. E mais uma. Cada qual mais bonita, mais misteriosa.
Gosto do corpo possível, da fragrância que vem da alma, do prazer das simplicidades.
Bonito é ser a gente.
É a comunhão do visível e do invisível.
Bonito é isso,
e a liberdade de viver assim é boa demais para se renunciar.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

é... só tinha de ser com você...

Uma vez, há muito tempo atrás, estive do outro lado do mundo. E de lá, pude ver uma estrela brilhando bem forte no céu. Há 11.000 milhas tinha alguém fazendo a mesma coisa, ao mesmo tempo.
E lembro que, comungando aquele céu, nos sentimos absurdamente perto um do outro...

Hoje no céu tem uma lua linda, enorme e amarelada.
Acho que uns quinze anos se passaram, e desta vez são só 254 milhas, mas a mesma pessoa estava lá, ao mesmo tempo, e fizemos exatamente a mesma coisa !

terça-feira, 23 de abril de 2013

das palavras que não têm medo de fracassar...

Sonhava com o dia em que o amor lhe sairia pela boca usando palavras que não tem medo de fracassar.
E com a liberdade absurda que isso a faria sentir.

Sabia de uma ternura que viria junto com essa franqueza inesperada e desconcertante, e que só isso seria capaz de redimir todas as pequenas covardias cometidas porque ela nunca tinha atravessado a fresta estreita das hesitações.

Precisava de uma coragem grande,
e dele só um pequeno sorriso, mas daqueles que não desperdiçam nada.

Era na miudeza que ela queria ser feliz. 


domingo, 21 de abril de 2013

ela teve medo...

O moço na frente dela estava triste. Ela queria ter perguntado o que tinha acontecido, e dizer a ele que essas coisas passam, e que não sabia explicar exatamente como, mas tinha certeza que dias melhores viriam. Sentiu por ele um bem querer robusto, embora delicado. Queria ter lhe estendido às mãos, mostrar que não estava sozinho, e também ter contado da vida dela. Queria o ter acolhido, ter cozinhado pra ele, feito daquela noite um refúgio íntimo e confortável...
Mas não fez nada disso.
Teve 'medo'.
É que diante dele sentia uma fragilidade de vidro.
Uma transparência absurda.
Eram tão parecidos que nunca sabia ao certo se aquela era a história dele, ou a dela.


terça-feira, 16 de abril de 2013

desligo a razão...

Entrego-me ao meu desejo de maneira orgânica e celular.
São horas em que não sei o que a minha cabeça pensa. Desligo a razão. Esqueço as alegorias que complicam tanto o bem querer. Sou primitiva, sou só tato e olfato.
Sou permissiva, viro apetite, viro banquete.

Abandono qualquer gesto que possa sacrificar a naturalidade do instante.
Não penso.
Não penso.
Viro só essa vontade honesta e esse desejo sólido.
Viro verdade.

Talvez exista, 
mas não conheço forma mais generosa de amar.

sábado, 13 de abril de 2013

do dia em que ganhei Júpiter...


É isso mesmo. Júpiter, o maior planeta do Sistema Solar, agora é meu. Minha filha me deu.
Tínhamos acabado de almoçar quando ela colocou sobre a mesa um pacote colorido. Olhou-me com aquele olhar que nunca mente, e, como sempre faz, esperou um movimento, minúsculo que fosse, de preferência no canto do meu sorriso, para que sentisse legitimado o seu gesto.
– Abre mamãe, é o teu presente.
Dentro do pacote colorido tinha um saquinho de seda e uma bolinha de ping-pong. A bolinha foi um recurso que criamos pra facilitar os estudos lá da escola... Sorri quando a vi, sorri ainda mais quando li que nela estava escrito Júpiter. Eu sabia que você sabia que ele era o planeta 'grandão', o maior de todos...
Entendi o recado.
Ela me deu a MEDIDA do seu amor.
Assim, sem precisar de mais explicações.
Porque, intuitivamente, ela já sabe que tudo que é honesto, é conciso.

Guardei Júpiter naquele lugar misterioso dentro da gente, onde moram os ‘faz de conta’, onde não conseguimos (e nem queremos) definir o que é exatamente real, e o que não é.
Tá ali, pertinho da Fada dos Dentes e do Papai Noel.