quinta-feira, 8 de maio de 2014
pelo êxito...
Se existia a possibilidade do fracasso, existia
também a do êxito. Era o que latejava entre
a lona e o chão daquele picadeiro. Havia um saber antigo
ali, uma soma de metáforas coloridas e de projeções profundas. Aquela casa de
espetáculos circular era um espaço afetivo, não restava dúvida.
O trapezista solto no
ar, entre as duas barras, tinha coragem de abandonar o lugar seguro e mergulhar no
abismo do desconhecido, mas só o que eu via era o futuro, que, embora estivesse
logo ali, nunca estava pronto...
O
palhaço, que errava onde não esperávamos, e acertava, igualmente onde não esperávamos, traduzia em alegria as melancolias e os enganos de todos nós. Rindo, denunciava a ordem vigente. Me fez lembrar de Nietzsche, que dizia que o estado de genialidade
do homem era aquele em que ele podia, simultaneamente, amar uma coisa e rir-se
dela.
Naquele circo era a proeza que delimitava o encantamento. Era
justamente a incerteza que fazia o êxito do espetáculo, a permanente construção
do sonho de sermos mais e melhores. Acolhi em mim cada pequeno
gesto, e minha capacidade de escolha nunca se fez tão
clara.
Existiria sim, sempre, a possibilidade do fracasso, mas era
pelo êxito que nos movíamos.
Pelo êxito.
Solange Maia
sexta-feira, 2 de maio de 2014
fazendo a festa...
Tanta gente pela casa, música
alta, uma luz avermelhada atravessando a névoa fina, as sombras nas paredes,
velas pelo chão, vinho, taças... levou um tempo até que eu o visse. Camiseta
branca, calça preta, cabelo despenteado, e aquele ar sério que sempre destoava
do resto. Ele nunca estava totalmente integrado a lugar algum, sempre um pouco ‘ausente’,
sempre um pouco forasteiro. Mas naquela noite a festa era dele. A casa era
dele. As coisas deviam ser diferentes.
Eu sabia que ele, de alguma
forma, estava me esperando. Então, sem pensar muito puxei suas mãos,
deixando-o sem tempo pra reagir. Ergueu as sobrancelhas e sorriu gostoso.
Fugimos dali.
Na escada para o andar de cima
senti que as mãos dele impunham-se sobre mim, puxavam minha roupa e meu cabelo. Nem bem
subimos e eu já estava presa entre as suas pernas, ali, no chão da sala íntima, sem
porta, sem nada. A respiração dele, na minha nuca, desencadeou um desejo mais
instintivo, menos estudado. Era sempre assim que povoávamos nossas histórias,
com esses desejos fora de lugar.
Os corpos suados, misturados,
mas foi a música bonita que me levou para o colo dele, que então mordeu meu
queixo e depois me beijou. Ficamos assim, com os lábios colados.
Cinco minutos. Dez. Vinte. Mais.
Beijar era mais íntimo do que
todo o resto.
E ele sabe, nunca, nunca resisto
a um beijo.
Tantas pessoas pela casa, e a
gente ali.
Fazendo outra festa.
Solange Maia
domingo, 27 de abril de 2014
tenho uma coisa contigo...
Pra você sempre escrevo da pele, do tato, do cheiro.
Sempre da boca, da cama, do chão.
Mas hoje, hoje não.
Hoje quero escrever sobre como o tempo tem sido bacana com a gente. Como com o seu passar fomos descobrindo beleza em um monte de coisas que pareciam ocultas, em como, num mundo de poucos laços, construímos um que não sucumbe, em como soubemos solidificar nosso afeto.
Quero escrever sobre essa 'coisa' bonita que nos põe num 'lugar' isolado de todo o resto, sobre estes nossos olhos que se comunicam tanto, e as coisas que achamos importantes e que são tão parecidas... mas, sobretudo quero escrever sobre essa nossa sorte. E como é gostoso isso.
Em geral, acredito, o bem querer é assim.
Sei que tudo muda, que tudo se transforma, e nem dá pra dizer que somos os mesmos, mas é fato :
Tenho uma coisa contigo...
Talvez sejam nossas palavras.
Talvez sejam elas, que insistem em nos reunir para sempre.
Solange Maia
quarta-feira, 9 de abril de 2014
daqui a 3 dias...
Tem gente que esconde,
tem medo de falar, disfarça.
Eu não. Tenho o maior
orgulho.
Encho a boca e conto : faço 47 anos daqui a 3 dias. Gosto ainda mais
quando percebo que 47 está na trave dos 50.
Número que tem força e
fascínio.
Um tanto de estrada
percorrida, outro tanto a percorrer.
Nem tanto ao mar, nem
tanto a terra. Lugar onde euforia e serenidade comungam tão bem. Um não rouba
mais a cena do outro. Aceito e acolho. Já
sei o que procuro, e ouso dizer que o caminho me interessa bem mais do que a
chegada.
Dou-me, mas só quando
quero. E para quem quero.
Conheço coragens e
medos, sonhos e desejos, gente boa, e gente que nem gente é. O tempo já não
guarda tantos segredos. Sem a rigidez de
antes, demoro mais no gesto, na entrega, no outro... Absorvo a existência, o
amor, a graça. Livre de quaisquer cobranças.
Livre para viver
melhor.
Já não me prendo ao tecido
da lógica, não me importo se as coisas realmente fazem sentido. Respeito a autoridade
da vida, mas flerto descaradamente com ela.
E, mesmo quando
surpreendida por alguém, com um sonoro : – Senhora ? – não me incomodo.
Sou sim.
Sou, deliciosamente,
senhora de mim !
Solange Maia
quinta-feira, 20 de março de 2014
verdade, as vezes eu minto.
Um dia ele disse estar desconfiado de
mim.
Supôs que eu talvez mentisse.
Não sobre o cotidiano ou sobre fatos,
mas mais por dentro.
Era da minha alegria e das minhas
coragens que ele falava.
Ele dizia
que tudo parecia organizado demais, fluido demais.
Dizia achar
que meu sorriso escondia alguma dor.
Estava certo.
Não conto pra ninguém, mas não sou
capaz de apagar
o que minha memória escolheu guardar.
Ele percebeu então, que sou também
esse viés. Que muitas vezes prefiro sorrir só pra
não ter que contar toda a minha historia.
Verdade. Às vezes eu minto.
E ele sabe o que eu sinto, sempre e a todo instante.
Os outros
não, os outros só imaginam.
Pedi então, que ele ficasse bem perto de mim.
E segurasse forte a minha mão.
Afinal ele sabia...
não tenho mesmo toda essa coragem.
Solange Maia
domingo, 16 de março de 2014
o pedaço certo de mim...
Primeiro fui eu.
Agora era ele que namorava os
meus pés.
Resolveu tirar o esmalte. Segurou
um a um os meus dedos e envolveu-os com o algodão molhado sem desviar os olhos
de mim. A tinta vermelha dissolvida manchava a cama formando flores e salamandras. Nem
a toalha úmida e quente nos fez perder a conexão do olhar. Vendo que eu o via segurou
firme minhas pernas e com a boca foi desenhando desejos em mim.
Os pés, tão sensíveis a
pequenos toques, foram reagindo a tudo, à língua que deslizava por eles, e entre
cada dedo, onde ninguém tocava, à respiração que fazia cócegas na pele fininha
da curva, do arco, e ao beijo que molhava tudo.
Depois
foram as pernas, o joelho, as coxas. A virilha, o umbigo, a cintura. E ele sentou
na minha frente abrindo levemente a boca, fazia isso quando misturava no
sorriso o tesão do instante. Ri. Ele era sempre tão impossível de resistir. Misturava
alegria em tudo que fazia.
Acho que é por isso que pra
ele quero dar sempre o pedaço certo de mim.
Solange Maia
quinta-feira, 13 de março de 2014
desejo embrulhado para presente...
Um dia chuvoso, reuniões
tensas, trânsito.
Chego em casa cansada, mas no
pé da porta percebo que um pacote chegou. Antes de mim.
Sei que é seu.
Impressionante
como o clima muda.
Tudo o que existe lá fora fica
suspenso.
Sento na cama com o presente
no colo, abro, e é como se o vento usasse o teu perfume. Sinto você.
O mel da tua boca
escorrendo em mim.
Sinto tuas mãos deslizando nas
minhas costas, no meu peito, a respiração tropeçando no desejo, tudo pulsando uma
canção. Uma vez, duas, três, sei lá.
Uma vontade que não gasta.
E essas são as coisas que vão nos levando ao limite
do querer. Suspiro (...). Perco o fôlego.
Ainda
assim consigo pronunciar algumas palavras, úmidas.
Pergunto como foi que você pôs
tudo isso num pacote ?
Solange Maia
quinta-feira, 6 de março de 2014
não há colo que baste...
para Claudia...
E,
de repente, havia muitos mundos entre nós.
E uma
estrada de sentimentos complexos.
Parece
bobagem, mas numa relação sedimentada nas diferenças, palavras mínimas criam
distâncias homéricas.
Num
círculo familiar denso e complicado, nos deixamos ficar mais frágeis do que
gostaríamos.
Às
vezes, e por causa disso, sentia um cansaço de ser.
Numa
historia de explosões que se esvaziam sozinhas, não há vitimas nem algozes.
Todos
perdem.
Muitas
vezes só tardiamente descobre-se que não havia competição. Não
havia corrida. Nunca houve um rival.
Tudo
o que se queria era o oposto dessa solidão.
Os
anos que levei para me olhar com olhos isentos e imparciais foram cobrados com
cicatrizes, eu sei, mas a gente sempre encontra uma fenda na dor, e, se tem uma
coisa que sei fazer, é florir.
Aceito
e transformo, mas confesso, queria fronteiras mais permeáveis, porque como diz uma amiga minha, para algumas faltas não há colo que baste. Não, não há.
Solange Maia
quarta-feira, 5 de março de 2014
terça-feira, 4 de março de 2014
saudade é o upgrade do desejo...
Era aniversário dele, e
estávamos chegando de Inverness. Eu tinha escolhido um roteiro sobre trilhos, atravessando
fronteiras e fusos horários, conectando as paisagens deslumbrantes ao nosso
desejo. Ambos nos faziam perder o fôlego. Havia tempo que queríamos estar
ali, não necessariamente em Inverness ou no trem, mas em qualquer lugar onde
fossemos só nós dois.
Assim que pôde ele fez como
sempre fazia, só que mais livremente. Malicioso atravessou a cabine
com os olhos e foi logo tirando a camisa. Era quase como se me tocasse. Sem nem pensar tirei a
camisa também. Na gente os espaços se encaixavam com naturalidade... era tanta
vontade, tanta fome que qualquer gesto solto causava uma infinidade de
palpitações. Sem mise-em-scéne, sem nada, éramos sempre reféns ofegantes de nós
mesmos.
A superfície gelada me fez perceber a urgência dos nossos corpos, senti
o peso dele me fazendo grudar na janela, me fazendo tremer de vontade. O mundo passava
lá fora, o vagão, as pessoas, a Escócia, a neve, os vales, as florestas, a cidade
antiga, as ovelhas, mas nada, nada importava mais.
Éramos só bocas, beijos,
pele, nuca, sexo. Éramos pleno verão.
O trem parou. A viagem chegou
ao fim.
E algumas vezes parecia ser só isso.
Então eu pensava em
fugir.
Mas
desistia sempre.
De desistir.
Porque ficava
travada na garganta a palavra saudade.
Solange Maia
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