terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

- Me ajuda, gente, puxa aqui comigo...

Morre Ricardo Boechat.
O silêncio devastador que notícias assim impõem é interrompido por um grito:
- Me ajuda, gente, puxa aqui comigo...
Por alguns instantes os 5 ou 6 rapazes à sua volta nada fazem. Buscam registrar imagens do acidente em tempo real, ensurdecidos e ensimesmados, indiferentes à presença real de um homem precisando ser salvo. Filmam a tragédia, enquanto Leiliane age. Tenta sozinha tirar o motorista do caminhão atingido pelo helicóptero.
Morre Boechat e, confesso, um pouco da minha fé.

A vida alheia machuca menos, alguns diriam.
Para mim não.
Dói todo o meu corpo.
E torço pela dissipação dessa sociedade cada vez mais narcísica e pelo fim desse período de alienação.
Torço por mais Leilianes. Por um mundo gregário, por gente de verdade.
Vivemos numa epidemia de distração, numa ausência.

Precisamos sair mais de nós mesmos.
Abandonar essa fronteira vazia.
Temos que reencontrar nossa humanidade.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Odoyá!

Deus, queria te contar que, como as férias da minha filha acabaram, voltamos a acordar antes do sol nascer. Ando alegre por causa disso. Tenho te visto mais. Enquanto espero o leite dela esquentar sento num cantinho da sala e o espio pela janela. Você é cor de rosa nessas horas. Penso que, se não soubesse das coisas, acharia que o mundo tinha acabado de nascer, naquele instante. Bem na minha frente.

Tenho te visto em tantos lugares, de tantas formas e com nomes diferentes, mesmo assim não sei lhe atribuir características ou qualidades humanas, nem pretendo desvendá-lo. Acho bonito assim, esse sentir sem sabermos ao certo. Esse milagre diário.
Sei que está comigo quando flutuo no mar, quando calo minhas dores e em cada uma das minhas cicatrizes.
Está na minha impotência, nas minhas inabilidades e até nas minhas faltas.

Mas, sobretudo, sei que está em cada sino, em cada canto, nos mantras, nas kalimbas e nos atabaques.
Na nave de cada altar, nas sinagogas, no quarto dos idosos, na solidão que nos assola, nos terreiros e nos quintais.
Está na hóstia sagrada, no pão sovado, na farinha de matzá, na sopa de cebola com mandioquinha e em todas as canjicas.
É qualquer abrigo, qualquer presença. É pertencimento e permanência. Está em quem fica. E em quem parte.

Está nas velas que choram, nos incensos perfumados, nas espirais de fumaça, nas ofertas e em cada tapete virado para Meca. Está nos anjos, nas divindades, nas imagens dos santos e nos orixás.

Mas, Deus, amanhã será sábado e não vou acordar antes do sol nascer. Não vou te ver no céu rosado, mas sinto um estranho orgulho porque sei que pertenço a cada um desses fragmentos. Mesmo quando não vejo.
Agradeço por ser eu também um pouco o vento, um pouco a lua, o cordeiro e a serpente.

Essa mistura é tão bonita que já não acho mais tão necessário dar nomes às coisas.
Então, meu Deus, é assim que me despeço: grata como sempre, mas te chamando de Iemanjá.
Só porque sei que você também é o peixe, o cardume, a água, a mulher e o sal.
E porque amanhã o dia é dela!

domingo, 20 de janeiro de 2019

O pai...

O pai na água, no colo dos filhos que não esperam nada, só oferecem, toca meu coração. Não sei sua história, mas posso ver o amor transbordar naquele mar, posso sentir as palavras sendo dissolvidas entre os braços dos filhos. Não precisam ser ditas. Ali não há cárceres, não há tempo e não há idade. Ali ninguém precisa de memória. O amor está. É verbo presente. Transformado em gesto.

Não que eu não soubesse que o amor não segue hierarquias, mas ver a cena é sentir o benefício imediato da delicadeza.
É entender a grandeza das conexões afetivas e saber que existem coisas que sempre farão nossas almas voltarem para o lugar.
Tão bonito ver como o amor se voluntaria. Se apresenta sem se apegar à dor. Faz irrelevantes quaisquer limitações. É feito de permanências, e está sempre além de qualquer entendimento.
Como um oceano que nos invade sem ferir nossos espaços, como uma permissão divina para a existência e para a alegria.

Acho lindo ver o pai sendo acolhido como filho.
E torço para que o amor seja sempre só isso. Essa falta de esforço, essa espontaneidade sem rebuscamentos, uma fluidez sem construção prévia. Torço para que continue sendo só misterioso, imprevisível e inteiro.
E para que a gente nunca desista dele.
Mesmo quando, de vez em quando, as coisas se tornarem duras demais ou quando tudo parece querer nos levar ao cansaço e à desistência.

É que às vezes o amor cumpre sua finalidade com tanta gratuidade que corre o risco da gente nem ver.
Torço para que permaneçamos atentos. E abertos.
Afinal, o amor, embora disponível, precisa ser reconhecido. Assim como a percepção da felicidade.
São habilidades que exigem perseverança.

Solange Maia

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Bebela será sempre meu abrigo...

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Aproximei meu rosto o mais rente possível do pescoço dela. E cheirei. Profunda e demoradamente. Passei a mão de levinho pelas curvinhas da boca, dos olhos, tão linda. Não queria que ela acordasse... aquele era um momento meu, secreto, um instante de contemplação, de respeito, de gratidão.

Ontem ela fez 14 anos, já é uma moça de quase 1,75m, mas ainda tem aquele mesmo cheirinho açucarado de sempre, a mesma temperatura quentinha, a mesma delicadeza.
Eu acredito que nestes instantes breves, e sagrados, validamos nossos vínculos de eternidade.
São poucos segundos, eu sei, mas neles cabem tanto minha gratidão quanto minha reverência.
Bebela é sempre meu abrigo.
E eu serei sempre o dela.


Solange Maia

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

minha alegria é coisa séria...

Em mim, a poeira do quarto refletida num raio de sol, gera um sorriso. Parece a coreografia celestial das minúsculas fadas do ar. Demonstrações públicas de ternura causam estado de graça e vontade de abraço. Luzinhas de Natal fora de época emprestam uma felicidade duradoura ao meu coração. Alguém cantando no chuveiro confirma a existência daqueles prazeres que não sabem ficar contidos. Bolo que desmorona de tanto recheio acolhe minha alma e me faz lamber os lábios, quase vejo a confeiteira que não está ali, transbordando afetos em seu feitio. 

Em outros, um raio de sol refletindo poeira é sinal de que a casa precisa de limpeza. Afeto em lugares públicos é inconveniente ou inoportuno. Luzinhas de Natal são feitas para enfeitar dezembro, fora deste contexto destoam dos ambientes. Quem canta no chuveiro não respeita o resto dos moradores. Bolos que desabam são feitos por quem não sabe cozinhar.

Toda moeda tem duas faces, eu sei. Toda história tem seu revés.
Não existe o certo ou o errado, também sei. Mas suspeito que anda faltando poesia no mundo.
Pior que isso, anda faltando alegria.

Respeito as escolhas que incluem outros substantivos que não a alegria: a reticência, a quietude, o desinteresse, a circunspeção e a indiferença.
Respeito sim, respeito até as ausências.
Mas comigo não funciona. Não posso permitir que alegrias escapem.
Já estive em lugares muito escuros e sei que elas são faróis.

Minha alegria é conquistada, encho a boca para dizer.
Levo a sério. Fruto de uma insistência amorosa, da minha paixão pela vida e de um descaso imensa pela rigidez.
Uma benção que aprendi no susto. E que não se ensina. 
Meu patrimônio.

Tem horas que, claro, sinto um desabar, uma desistência e confesso: flerto com o cansaço.
Mas nunca, nunca me relaciono com a ausência de alegrias. 
Não quero.

Posso até decepcionar quem acha que alegria em demasia é esconderijo de dor, ou quem espera por olhares mais contidos e gestos mais “maduros”, eu sei.
Não ligo. Seguirei sentindo alegrias. Sem mágoa alguma por quem não o faz.
Só um lamento.
E uma torcida secreta para que, quem sabe um dia, por sorte ou descuido, sejam surpreendidos por um abraço apertado, inesperado e emocionado. Alegria é assim, não tem orgulho, é disponível.
Basta querer servir-se.

Solange Maia

terça-feira, 13 de novembro de 2018

de carneiros e lobos...

Minha irmã sempre diz que têm noites em que os carneiros viram lobos escuros, peludos e com muitos dentes.
Nessas horas há dores que não passam e feridas que não fecham.
Tanta gente que nos falta.

Mas na escuridão a vida lá fora se aquieta como se quisesse que a gente escutasse as palavras de dentro.
Como se La Fontaine sussurrasse em nossos ouvidos que, infelizmente, algumas vezes o desejo do "mais forte" prevalece sobre o mais fraco.
E que isso acontece a despeito dos lobos ou daquela parte da gente que sabemos que se foi, e que não volta.
Como se fosse preciso nos lembrar que existem coisas que duram mais do que achamos que conseguimos suportar.

Carneiros espúrios fazem doer pedaços que a gente nem sabia mais existir.
Abrem cadeados de gavetas secretas sem precisar de chaves, só para colocar à vista autoridades ilegítimas e tiranos sorridentes.
Alguns deles nos levam ao chão e mal conseguimos respirar.
Mas nunca, nunca duram para sempre.
E, o irônico é que, são os próprios lobos escuros que nos salvam.

Nos salvam porque quando saem das sombras já não são mais nossos. Ficam à deriva. 
São lobos bobos, donos de discursos ocos e muito, mas muito, mais fracos que os nossos desejos.
Talvez eles não saibam, mas há sempre um sol amanhecendo em outro lugar. Sempre um modo de sair do escuro.

Noites assim me fazem desejar que prevaleça a verdade.
Prefiro distâncias honestas a aproximações hipócritas.
Me sinto livre. E triunfante.
Os lobos que me desculpem, mas sou feita de amor


Solange Maia

sábado, 27 de outubro de 2018

ne me quitte pas...

 
O amor vinha sempre revestido de uma escolta de aspereza, eu sei.  Nem mesmo palavras escolhidas em compotas açucaradas conseguiam encobrir seu maior desejo: queria ser livre.
Livre e desobrigada das pessoas.
E a ideia do desprendimento era sempre tão tentadora que te fazia desejar viver distante.
Não gostava nem de interferências nem de opiniões.
Reservava para si seu recôndito em frente ao mar.

Você não sabe, mas eu torcia para que fosse mentira, só um capricho, uma teimosia.
Ficava imaginando que talvez tivesse havido um tempo em que você gostasse mais dos afetos e das presenças.
Mas de tanto repetir que amava sua independência só o que criou foi um distanciamento. Uma ausência.
E o tempo, impetuoso, decorre insensivelmente sem conceder chances de bis.
Passou.

E agora? Agora é como se houvesse um toque de recolher mudo: não se ouve, mas sabemos que está lá.
Talvez por isso os dias estejam nascendo mais escuros, cheios de horas vagas, cheios de vazios.
Encolho-me de frio. Sinto um cansaço tão grande que dá vontade de chorar.

Quando penso onde você está agora, tudo em mim desmorona.
Então fecho os olhos e te tiro dali.
É de novo aquela mulher linda. Segurando o microfone com os olhos fechados, num bar perto da praia.
Sua voz aveludada começa a canção: “Ne me quitte pas” ... Engulo em seco.
Finjo que não morro por dentro e torço para que o tempo lhe devolva o seu mar.
Acreditar é meu modo de tornar suportável o insuportável.

Solange Maia

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

o melhor tempero não é a fome...



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O pedaço de pão doce estava no mesmo lugar há 3 dias.
Pensei que não duraria mais um. Teria que descartá-lo. E nem era tão gostoso quanto parecia.
Mas ela soube fazer o pão doce ser só uma desculpa.
Sentou entre nós, com o prato no colo, o pão doce e 3 garfos.
- Vamos?
Entre risadas e conversas fomos comendo o pão velho que a cada garfada ficava mais gostoso.

Bebela é sempre essa surpresa. Aos 13 anos já sabe que quando você ama alguém, o melhor que pode oferecer é sua presença. E um pão velho.
Um pão que deixou de ser deserto.
Que foi habitado por aquela ternura tola e transformado em oásis.

A felicidade é feita dessas desimportâncias.
E quem disse que o melhor tempero é a fome?
É nada... o melhor tempero é o amor.

Solange Maia

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

de quando te entrego minha presença...

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Quando meu corpo te abraça sei que estou mais perto do centro do seu ser. Do dentro do seu ser.
Sei que meu coração está fisicamente próximo ao seu, e encontro ali, seja por quantos segundos for, abrigo.
Fecho os olhos e me aprofundo mais. Se havia cerca ou muro: desaparecem.
É o instante em que sou exatamente o que sou. Em que você é exatamente o que é.
Ali nada somos além de nossas essências. A presença é muito mais das almas do que dos corpos. Embora eles se aqueçam, almas e corpos.
Naquela breve duração tantas coisas em mim são curadas. E em tantas sei que te curo.
Muito passa a ter sentido.
Aprendo confiança e intimidade no abandono das palavras.
Quando meu corpo te abraça te entrego minha presença.
Que é o maior em mim.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

os números já não têm a menor importância...

A cada manhã o mundo é outro.
Acordei com 51 anos e, sabendo disso, os números já não têm a menor importância.
Não se pode pretender segurar o tempo uma vez que é ele que me presenteia com tantos encantamentos: Bebela já lê livros inteiros, o cabelo da minha irmã está crescendo, meu amor plantou jasmins comigo, e eles estão florindo, mantenho amigos da infância, faço novos amigos, aprendi a fazer estrogonofe de shimeji e a cantar o Gayatri Mantra sem errar. Vou abandonando meus desassossegos e conquistando uma aceitação dos fatos que é muito tranquilizadora. O chão onde piso faz mais sentido agora. E nunca, nunca desejei tanto a paz.
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Tenho algumas tristezas que ainda ontem não estavam aqui, mas vivo, apesar delas. Já aprendi o estrago que palavras ditas no escuro do inverno podem fazer.
Com mais estrada sob os meus pés, percebo que algumas coisas reclamam consistência: gente monocromática me cansa, palavras ácidas revelam muito sobre quem as diz, excluir é um verbo que deveria ser excluído, desamparo é condição, não verbo, mas também não deveria existir. Uma mentira precisa de muitas outras para se sustentar. E, infelizmente, falta muita ternura nesse mundo, e gente com coragem para mudar tudo isso.
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Alguns sonhos permanecem suspensos. Os outros realizo nas pequenices dos dias: tenho manjericão no terraço, luzinhas de Natal o ano inteiro, uma lista dos lugares que ainda vou conhecer e uma coleção de palavras e frases que amo: minarete é uma delas, e “Alice tirava o silêncio dos cantos da casa” é outra. Estão entre as minhas preferidas.
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Ainda ‘sofro’ de encantamentos, graças a Deus: todas as manhãs me surpreendo com a alvorada e suas cores incríveis, amo ver os pontinhos de poeira brilhando no quarto, na luz que entra pela fresta da janela, são quase vagalumes diurnos. Estradas me fazem sentir uma alegria tola, pudim de caramelo também. Música me comove, ver gente dançando também. O amor renova minha fé. Sempre.
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Algumas coisas já sei, aprendi: trocar palavras por gestos. Rezar. Ouvir o sagrado. Agradecer. Sei também das portas que um sorriso abre. Que relações precisam de mãos. E de olhos. Sei escutar e sei acolher. Sei fazer panquecas. Sei que a verdade é absolutamente libertadora, mas que deve ser dita com delicadeza. Sei que a maturidade só vem depois que nos faltam pessoas. E afetos. Que desonestidade é uma questão de caráter. Que longas explicações desejam esconder longas faltas, ou medir milagres usando matemática. Quero, cada vez mais, estar perto de gente nutritiva, mas hoje, reconheço que distâncias também me socorrem.
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Celebro meus 51 anos ciente de que a vida nunca foi fácil, mas sorrio secretamente por dentro, pois nunca, jamais, perdi a doçura.
A cada manhã o mundo é outro. Tudo diferente.
Só uma coisa não muda: preciso acabar os dias com o coração completamente cheio!


Solange Maia